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por Tais Luso – Há anos que minha filha tenta me empurrar alface: segundo seus conhecimentos, seria ótimo se eu comesse alface várias vezes na semana. E levei anos tentando mostrar – com certo jeito – que alface não faz a minha cabeça. Levei anos discutindo sobre alface; e me gastando com as alfaces! Nunca […]

pintura de Victor Hugo Portopor Tais Luso – Há anos que minha filha tenta me empurrar alface: segundo seus conhecimentos, seria ótimo se eu comesse alface várias vezes na semana. E levei anos tentando mostrar – com certo jeito – que alface não faz a minha cabeça. Levei anos discutindo sobre alface; e me gastando com as alfaces!

Nunca descobri a obsessão dela por essa coisa sem gosto, mas graças à sua persistência hoje tenho doutorado em alface; para alguma coisa há de servir esse martírio da alface… Essa coisa que não tem gosto de nada, que é pior do que chuchu. Filha querida, não me leve a mal, mas… detesto as tuas alfaces; não gosto de chuchu, couve, vagem e abóbora. Acabou!

Mas deixando estes verdes e alaranjados de lado – que serviram só como intróito -, vejo o tanto que nos gastamos para cuidar do nosso nariz sem interferências. Algumas pessoas gostam de trabalhar em silêncio; outras preferem trabalhar ouvindo jazz ou Piazzolla; outras, ainda, música funk, sertaneja, rock pauleira… Tudo bem, pra mim está ótimo. Mas fico pensando: qual é o motivo que nos leva a defender ‘tese’ quando se gosta de algo e achincalhar os que diferem do nosso gosto? É inexplicável o tanto que temos de explicar. Explicar é cansativo. Confesso que cansei, ‘tô cansadinha’. Preciso de um tempo.

A palavra ‘não’ deveria fazer parte do ‘Compêndio Médico’. É um santo remédio, cura vários males, indo da enxaqueca a outras doenças psicossomáticas. Mas ninguém lê bula, ninguém lê sobre os efeitos benéficos e a posologia de como usar o ‘não’. A insistência irrita. Eu também fui assim, metida… Meu pai gripava, alho nele! Tomou uma vez, e me mandou passear… Depois, caí na real e fiquei quieta.

Acho que essa mania de receitar e ensinar é coisa dos latinos. Temos receitas pra tudo, fora o que aprendemos num salão de beleza, onde há especialistas em problemas emocionais, matrimoniais… É lá onde todas as mães, avós, tias e curiosas se encontram e que tentam nos ensinar como educar nossos filhos.

Onde está, afinal, o nosso livre arbítrio? Seria muito agradável viver segundo nossos conceitos, gostos, vontades, loucuras, enfim. É ótimo exercitar a palavra ‘não’: não quero, não vou, não gosto, não faço… Mas já notei que dizer ‘não’, para certas pessoas, dá muita mão de obra; então vai um ‘sim’, dá menos trabalho. Só temos facilidade em dizer não na adolescência e na velhice: o primeiro porque é rebelde, e não tá nem aí; o outro porque ‘ralou’ muito e já tem ‘direitos adquiridos’.

Impor idéias é uma ação extremamente irritante. Quantas vezes por semana enfrentamos alguém ou forjamos uma desculpa pra cair fora? Quantas vezes nos falam nas coisas mais esdrúxulas como se fossem certas? Vejo pessoas que, por influência de terceiros, vendem suas casas, fazem a faculdade errada, acabam com seus relacionamentos, compram o carro errado, mudam de cidade, comem o que não podem, bebem o que não devem…

Respeitar a vontade das pessoas, dar-lhes espaço, é preservar o relacionamento; mas a gente só respeita o que está ainda longe – quanto maior é a proximidade, menor é a nossa privacidade.

Amálgama

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