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A Líbia do menos pior

por Bruno Cava (28/08/2011)

Também não se pode incorrer no erro de considerar a intervenção na Líbia como moralmente justificada

por Bruno Cava

A OTAN derrubou o regime de Kadafi. Não fosse a intervenção ocidental, a sua força armada incomparável, o grupo legalmente instituído sob o comando do ditador teria vencido. Provavelmente, Kadafi teria suprimido a oposição em março, no cerco de Benghazi, — o foco da insurgência no leste do país.

Graças ao apoio logístico, à propaganda midiática e, principalmente, a diários e massivos bombardeios pelo país, o governante no poder há 42 anos foi deposto. Esse processo destoa completamente da primavera árabe. Esta, uma revolução definidora do século, que se espraiou pela Tunísia, o Egito, o Bahrain, o Iêmen. Aquele, um processo antidemocrático e autoritário, movido pela lógica imperial, pelo warfare state em que mergulharam os governos europeus e norte-americano, aliados com uma facção oposicionista militarizada e ligada à Alcaida.

Na Líbia, nada de novo no front. Durante o século passado, regimes contrários aos interesses do império foram deslegitimados, solapados e eventualmente destituídos à mão militar. Assim aconteceu, direta ou indiretamente, no Chile, Argentina, Brasil, El Salvador, Granada, Nicarágua, República Dominicana, Cuba, Indonésia, Grécia, Equador, Haiti, Afeganistão e Bolívia. No século 21, a reengenharia de cima pra baixo ocorreu novamente no Afeganistão, no Iraque e, em 2011, na Líbia.

Não é caso aqui de bom mocismo, de condenar moralmente as múltiplas intervenções militares e políticas pelo globo. Quando é a moral mesma do sistema que impõe o intervencionismo pelos estados-nações mais poderosos. Aí que está. Trata-se de uma moral intrínseca à ordem imperial do capitalismo contemporâneo, em que se faz imperativo subsumir todos os territórios em suas malhas: expandir os lucros, explorar o trabalho mais barato, extrair recursos naturais, colonizar novos mercados e privilegiar a indústria nacional.

Não pode mesmo ser caso de moralismo. Afinal, não se deve exigir que sejamos igualitários, magnânimos e altruístas o tempo todo. Não existe quem não seja atravessado por egoísmos, manias reprováveis, paixões tristes, pequenos preconceitos, pecadilhos e mesquinharias, em maior ou menor intensidade dependendo da ocasião. Demais, não sejamos ingênuos, há rufiões, crápulas e hienas ridentes por todo lado. Portanto, não pretendamos falar em nome da retidão universal. Apesar disso, se pode perfeitamente criticar um modo de produção e sua moral que não só permitem a esses rufiões, crápulas e hienas ocuparem posições de mando e influência, como privilegia exatamente essas pessoas nesses postos-chave. Um esquema global de reconhecimento e gratificação que encoraja, — e desde criancinha e 24 horas por dia e de segunda à segunda, — as atitudes e os sentimentos antissociais, nossa mesquinharia e nosso individualismo. Uma sociedade liberta de imoralidades seria distópica, na medida em que as instâncias que decidem e aplicam a moral fazem parte da própria injustiça sistêmica.

Por isso, o caso também não pode ser incorrer no erro simétrico: aclamar e legitimar a intervenção na Líbia, considerá-la moralmente justificada. Faz o jogo não somente do humanismo ilustrado das elites intelectualizadas, mas da moral capitalista que lhe é cúmplice. Esta atribui o progresso e o desenvolvimento da humanidade à paulatina implantação e consolidação das democracias de modelo ocidental do pós-guerra. No século das intervenções humanitárias, essa ideologia foi elevada ao status parúsico de fim da história, naturalizada e incontestável. Eis aí um caso sério de cegueira histórica, tanto promovida por uma grande mídia e seu jornalismo falido, que participa do esforço de guerra.

Todas as vezes, a potência ocidental interventora, quase sempre com a colher dos EUA, invoca uma superioridade espiritual. São mais democráticos, humanitários, plurais, civilizados. Em última análise, até são reconhecidos excessos localizados, erros individuais, desvios oportunistas. Coisas que podem e devem ser retificadas, para que o sistema político-econômico se recicle mais humano, mais sustentável, mais digno. Contudo, no fim das contas, a invasão acaba sendo sempre a melhor solução, o que tem de ser feito.

A ideologia da vitimização que acompanha o menos pior reduz a política ao programa de escolher o lado mais humanitário, e ignorar todo o resto. Aí é simples, condena-se o lado desumano, aprova-se o humano. E como é fácil discursar e escrever inspirado por tal maniqueísmo…

Menos pior, lembremos, também era a “ditabranda” de Médici, Pinochet ou Videla, diante do “perigo vermelho”, — muito mais ditatorial, não é mesmo? Menos pior foi a guerra do Vietnã, o Egito de Mubarak, o Iraque de Saddam, o Iraque de Bush, o estado de Israel em 1948, a Alemanha Nazista até 1941, fichinha diante de Stálin… Curiosamente, a linha justa do Departamento de Estado dos EUA resulta sempre a menos pior.

E aí embarcam jornalistas, analistas, comentadores, palpiteiros: a invasão da Líbia foi o menos pior que poderia ter acontecido. Era isso ou a barbárie. As pessoas estão morrendo, não é mesmo? vamos agir, now!, shoot now! waste those motherfuckers!! Não sabemos se estamos num episódio de alguma série antiterrorista da TV americana, ou no noticiário “nacional” das oito horas, ou no mais novo jogo de computador de guerra. E aí anseiam e pedem pelo nosso “de acordo”, a nossa “opinião pública”, o nosso green light.

Pois não darei. A própria disjunção isto ou aquilo já vem apresentada pronta. Já está enviesada em suas premissas. Não é que uma solução esteja certa ou errada, que uma seja menos pior. Ambas as alternativas são piores. O problema está mal-colocado. É preciso reformulá-lo, escutar o barulho de fundo, deslizar da opção pré-condicionada, maceteada pelo discurso oficial de governos e sua mídia capacha. Somos adestrados diuturnamente a não pensar, a achar que temos a liberdade de escolher entre a pílula azul e a vermelha, quando uma e outra são o mesmo placebo. Como ficam os problemas da distribuição, da igualdade, da pobreza? Parece que uma visão mínima de direitos humanos se tornou única razão de ser da parte desencantada da esquerda. A luta genérica e sinceramente anódina “contra todas as formas de preconceito”.

Nos anos 1990 no Leste Europeu, depois das revoluções disparadas com a queda do muro de Berlim, a opção menos ruim era dinamitar o capitalismo de estado que vigia no antigo bloco soviético e implantar o Consenso de Washington. Os europeus orientais viam no capitalismo uma verdadeira utopia. Eram Michael Jackson e Mac Donald´s, General Motors e MTV: liberdade, abundância, consumo e Moonwalk. Qual não foi a decepção do resultado a curto prazo: profundo abismo social, desocupação en masse, remoções urbanas, miséria, e a irreparável implosão de um sistema de seguridade funcional e massificado. Ah, então era melhor voltar à burocracia desinspirada e ditatorial do socialismo real? Não. Nem um nem outro. Outra coisa.

Se existe algum aprendizado com os movimentos multitudinários de 2011, na Praça Tahrir, em Túnis e do 15 de Maio, consiste nessa inovação radical, no deslizamento dos problemas binários e em si viciados, na aposta nesse outro mundo que já se afirma no real. Este o desafio para pensar o caso da Líbia e atuar, ainda que como formiguinha revolucionária, nela.

Bruno Cava

Ensaísta e professor de filosofia. Autor, entre outros livros, de A multidão foi ao deserto (Annablume, 2013); com Alexandre Mendes, A constituição do Comum (Revan, 2017); e, com Giuseppe Cocco, O enigma do disforme (Mauad, 2018).