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Líbia: Não minimizem o papel do povo

por Amálgama (30/08/2011)

A vitória não teria ocorrido sem genuíno fervor revolucionário, sem bravura e determinação

Uri Avnery, no Arab News / 28 de agosto

Embora a Bíblia nos diga para, “Quando cair o teu inimigo, não te alegres” (Provérbios 24:17), não consegui me conter. Fiquei feliz. Muammar Qaddafi era inimigo de toda pessoa decente no mundo. Ele foi um dos piores tiranos na memória recente.

Esse fato esteve escondido por trás de uma fachada de palhacismo. Mas ele foi basicamente um ditador implacável, cercado de parentes e comparsas corruptos, desperdiçando a imensa riqueza da Líbia.

Isso era óbvio a qualquer um que quisesse ver. Infelizmente, houve umas poucas pessoas que preferiram fechar os olhos.

Quando deixei claro meu apoio à intervenção internacional, esperava ser atacado por algumas pessoas bem intencionadas. Não me desapontei. Já passei por isso antes. Quando a OTAN começou a bombardear território sérvio para pôr um fim aos crimes de Slobodan Milosevic no Kosovo, muitos dos meus amigos de campo político se viraram contra mim.

Como eu não conseguia ver que era tudo um plano imperialista?

Isso era dito quando a evidência para os repulsivos assassinatos em massa na Bósnia estava à disposição de qualquer um. Mas o ódio pelos EUA e pela OTAN era tão forte, tão fervoroso, que qualquer um atacado por eles certamente deveria ser um benfeitor da humanidade, e todas as acusações, puras invenções. O mesmo ocorrera com Pol Pot.

Agora aconteceu novamente. Fui bombardeado com mensagens de pessoas bem intencionadas que elogiavam Qaddafi por todas as suas boas realizações.

Quando os rebeldes já lutavam para entrar no enorme complexo pessoal de Qaddafi, o líder socialista da Venezuela, Hugo Chávez, o elogiava como um modelo da humanidade justa, um homem que ousava fincar pé diante dos agressores americanos.

Bem, sinto muito, mas me contem fora dessa. Tenho mesmo essa aversão irracional por ditadores sanguinários, por assassinos em massa genocidas, por líderes que travam guerra contra sua própria população. E, na minha idade avançada, é difícil mudar de posição. Estou pronto a apoiar até mesmo o demônio, se necessário for para colocar um fim a esses tipos de atrocidades. Nem mesmo perguntarei quais suas verdadeiras intenções. O que quer que muitos pensem sobre os EUA e/ou a OTAN, se eles desarmam um Milosevic ou um Qaddafi, têm minha benção.

Quão grande foi o papel da OTAN para a derrota do ditador líbio? Os rebeldes não teriam chegado a Trípoli, certamente não por estes dias, se não tivessem se aproveitado do apoio aéreo da OTAN. A Líbia é um grande deserto. A ofensiva dependia de uma longa estrada. Sem o domínio dos céus, os rebeldes teriam sido massacrados. Qualquer um que tenha vivido durante da II Guerra Mundial e acompanhado as campanhas de Rommel e Montgomery sabe disso.

Presumo que os rebeldes também receberam armas e aconselhamento para facilitar seu avanço.

Mas discordo da ideia condescendente de que foi tudo uma vitória da OTAN. É a velha atitude colonialista em novo disfarce. Claro que esse pobres árabes primitivos não conseguiriam nada sem o Homem Branco devidamente suportar seu fardo e correr para resgatá-los.

Guerras não são ganhas por armas, mas por povos. Mesmo com toda a ajuda que tiveram, os rebeldes líbios, por mais desorganizados e pobremente armados que estivessem, conseguiram uma vitória impressionante. Isso não teria ocorrido sem genuíno fervor revolucionário, sem bravura e determinação. É uma vitória líbia, não uma vitória britânica ou francesa.

Isso foi subestimado pela mídia internacional. Os jornalistas não portaram-se gloriosamente. Na TV eles pareciam ridículos, com seus conspícuos capacetes e cercados de combatentes com a cabeça nua.

O que transpareceu foram comemorações sem fim após vitórias que aparentemente caíram do céu. Mas essas façanhas foram conquistadas por pessoas – sim, por pessoas árabes. Isso é especialmente irritante para nossos “correspondentes militares” e “especialistas em assuntos árabes” aqui em Israel. Acostumados a desprezar ou odiar “os árabes”, estão todos atribuindo a vitória à OTAN. Parece que o povo líbio desempenhou um papel menor, se é que desempenhou algum.

Agora é esse blá-blá-blá sem fim sobre as “tribos”, que tornarão impossíveis a democracia e a governança ordeira na Líbia. A Líbia não é um país de verdade, nunca havia sido um estado unificado antes de se tornar uma colônia italiana, não existe esse negócio de povo líbio. (Lembram-se dos franceses dizendo isso sobre a Argélia, e Golda Meir sobre a Palestina?)

Bem, para um povo que não existe, até que os líbios lutaram bem. E quanto às “tribos”, por que existem tribos apenas na África e na Ásia, nunca entre os europeus? Por que não uma tribo galesa ou uma tribo bávara?

As “tribos” da Líbia seriam chamadas na Europa “grupos étnicos” e em Israel, “comunidades”. O termo “tribo” tem uma conotação paternalista. Deixemos ele de lado.

Todos aqueles que denunciam a intervenção da OTAN devem responder a uma simples questão: quem mais poderia ter feito o serviço?

No século 21, a humanidade não pode tolerar atos de genocídio e assassinato em massa, onde quer que ocorram. Ela não pode assistir impotente enquanto ditadores chacinam seus próprios povos. A doutrina da “não-intervenção nos assuntos internos de estados soberanos” pertence ao passado. Nós, judeus, que acusamos a humanidade de cruzar os braços enquanto milhões de judeus, incluindo cidadãos alemães, eram exterminados por seu governo legítimo, certamente devemos ao mundo uma resposta.

Já disse em outra oportunidade que defendo alguma forma de governo mundial efetivo e espero que isso seja uma realidade pelo final deste século. Isso incluiria um poder executivo mundial democraticamente eleito, que possuiria forças militares à sua disposição e prontas para intervir, se um parlamento mundial assim o decidisse.

Para que isso ocorra, as Nações Unidas devem ser completamente reorganizadas. O poder de veto deve ser abolido. É intolerável que os EUA possam vetar a aceitação da Palestina como um estado membro, ou que Rússia e China possam vetar uma intervenção na Síria.

Claro, grandes poderes como EUA e China deveriam ter uma voz maior do que, digamos, Luxemburgo e as Ilhas Fiji, mas uma maioria de dois terços na Assembleia Geral deveria ter o poder de se sobrepor a Washington, Moscou ou Beijing. Essa bem pode ser a realidade no futuro distante, ou, alguns podem dizer, uma quimera. Por enquanto, vivemos em um mundo bastante imperfeito e devemos se virar com os instrumentos que temos. A OTAN, infelizmente, é um deles. A União Europeia é outro, embora no caso da Líbia uma Alemanha pobre e eternamente com dor na consciência a tenha paralisado. Se ocorresse de Rússia ou China virem para juntar forças, seria melhor.

Esse não é algum problema distante. Qaddafi está acabado, mas Bashar Assad não está. Ele está chacinando seu povo no momento mesmo em que você lê estas linhas, e o mundo assiste impotente.

Voluntários para uma intervenção?

Amálgama

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