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O Brasil e a crise mundial: o risco está no médio prazo

por João Villaverde (29/08/2011)

No curto prazo, o governo dispõe de instrumentos para contrabalançar qualquer consequência de um agravamento da crise

por João Villaverde

A relativa resiliência da economia brasileira diante do espectro de uma grave crise mundial não pode escurecer a visão do governo. Na verdade, a volta de um cenário de turbulência nos mercados financeiros e decadência econômica nos países ricos, como ocorreu no fim de 2008, deve servir de alerta ao setor público, às empresas e sindicatos. Esta é a avaliação de seis economistas que procurei, que apresentam preocupações distintas, tal qual suas divergências ideológicas, quanto à situação da economia brasileira no médio e longo prazo. No curto prazo, avaliam, o governo dispõe de instrumentos para contrabalançar qualquer consequência de um agravamento da crise que atinge os países avançados. O risco está em manter os desvios de rota quando a poeira externa baixar.

Há pouca surpresa com o derretimento pelo qual os mercados financeiros mundiais estão passando desde o início de agosto, ou mesmo com as tentativas desesperadas de governos, como o italiano, que anunciou ambicioso programa de cortes de gastos e elevação de impostos. Trata-se, segundo os economistas, de um acirramento da crise que começou no mercado de hipotecas imobiliárias dos Estados Unidos, em 2007, e tomou proporções globais em 2008 com a falência do Lehman Brothers. Como a saída encontrada por Estados Unidos e União Europeia foi a estatização de grandes instituições (de bancos a montadoras de automóveis), os governos chegaram hoje no impasse entre alto endividamento, que estrangula uma política de promoção do crescimento, e pouca disposição dos investidores em aplicar em seus mercados.

E o Brasil com isso?

“Mesmo relativamente fechado ao mundo, em comparação a maior parte dos países ricos e mesmo entre os emergentes, o Brasil cresce mais quando o mundo rico está bem”, afirma José Alexandre Scheinkman, doutor em economia pela Universidade de Rochester e professor na Universidade de Princeton, ambas nos EUA. Para Scheinkman, o biênio 2009 e 2010 são um “desenho perfeito” disso. Em 2009, ano do imediato pós-crise, com a recessão dos EUA, União Europeia e Japão, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 0,6%. No ano seguinte, com o início do que parecia ser uma recuperação global, o PIB brasileiro deslanchou, com alta de 7,5%.

“Não podemos olhar a crise e cometer o erro de achar que é fechando que se cresce”, afirma Scheinkman. “Seria um desastre achar que o crescimento pode ser sustentado apenas pelo mercado doméstico”, avalia. Para ele, o principal canal de intercâmbio do país com o resto do mundo – a exportação de commodities – deve ser priorizado, e não preocupa. “A China está mudando seu crescimento, focando mais o mercado doméstico, e com isso consumirá ainda mais commodities nossas”, prevê.

Já para Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Unicampe ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é a “dependência” das commodities o principal alerta dado pelo acirramento global. Em apenas 27 dias, entre 13 de julho e 9 de agosto, o índice de preços das principais commodities, o CRB, negociado na Bolsa de Valores de Chicago (EUA), caiu 9,5%, atingindo o menor valor desde dezembro de 2010.

Com crescimento “pífio” nos Estados Unidos, principal consumidor das exportações chinesas, e um mercado interno ainda em formação, o PIB chinês deve registrar taxas menores de elevação. “Com uma demanda global um pouco menor e menos liquidez, as commodities podem oscilar em torno de preços menores, o que reduzirá nosso saldo comercial, quase todo dependente de produtos básicos”, afirma.

Outro efeito produzido pela queda verificada nas últimas semanas nos preços das commodities é o enfraquecimento da inflação. Sinal festejado pela equipe econômica do governo, o barateamento das commodities não deve prejudicar o produtor brasileiro, porque o fenômeno tem sido acompanhado por leve desvalorização cambial, que compensa, em parte, a remuneração oriunda das exportações.

“Esta desaceleração da economia e das commodities era tudo o que o governo queria fazer e não estava conseguindo”, avalia Luís Eduardo Assis, professor da Fundação Getulio Vargas em São Paulo (FGV-SP) e ex-diretor de política monetária do Banco Central (BC). Para Assis, não há“nenhuma necessidade” de um corte preventivo na taxa de juros básica, atualmente em 12,5% ao ano. “O cenário mudou muito rápido, e, tal como mudou rápido para um lado, pode mudar na mesma velocidade para o outro”, afirma Assis, para quem a economia brasileira está “praticamente blindada” de um contágio externo. “A não ser que o governo fique tentado a usar a crise para descontinuar o aperto fiscal que vem promovendo”, diz.

Mas é justamente o aperto fiscal que o governo Dilma Rousseff pratica em 2011 – e com o qual a presidente já se comprometeu publicamente a manter em 2012 – que pode influenciar em uma “internalização” da crise no médio prazo, de acordo com Armando Castelar, matemático pela UFRJ e economista pela Universidade de Berkeley (EUA). Para Castelar, que foi chefe do Departamento Econômico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o governo sustenta o aperto fiscal reduzindo os investimentos.

“Haverá menos disposição para investimentos em vários agentes. O investidor externo vai pensar duas vezes antes de se arriscar nos emergentes. No Brasil, como o crescimento será menor, também haverá menos investimentos por parte da iniciativa privada. Ao mesmo tempo, o governo deve combater a crise, como defende Dilma, via aperto na política fiscal. E aperto fiscal só ocorre nos investimentos públicos, que é onde dá para cortar”, avalia Castelar.

Para David Beker, chefe de economia e estratégia para Brasil do Merrill Lynch, a forte elevação, já contratada, no salário mínimo de 2012 servirá como “colchão” de um contágio externo, que, no entanto, já ocorreu. Beker reduziu na semana passada sua estimativa para o avanço do PIB brasileiro para 2011, de 4,1% previstos até o fim de julho, para os atuais 3,6%. “Se o governo precisar fazer algo, o correto seria agir na política monetária”, diz Beker, “uma vez que os gastos já contratados para 2012 já constituem um ponto muito ruim para o médio prazo”. Beker, no entanto, estima que o BC só reduzirá os juros na segunda metade de 2012.

Para Antônio Corrêa de Lacerda, professor-doutor da PUC-SP, o BC deveria “aprender com seu erro de 2008” e começar a reduzir os juros já neste mês. “A crise mundial explodiu em setembro de 2008, mas o BC só começou a reduzir os juros em janeiro de 2009, erro cuja repetição deveria ser inaceitável”, diz Lacerda, para quem a crise liga o sinal de alerta para o déficit nas transações correntes do país, em torno de 2,2% do PIB.

* uma versão desta matéria foi publicada originalmente no jornal Valor.

João Villaverde

Jornalista, autor de Perigosas pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil e levou ao fim o governo Dilma Rousseff. Foi pesquisador visitante na Universidade de Columbia, NY, e atualmente é mestrando em administração pública e governo na FGV-SP.