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O que a queda de Kadafi significa para seus sabujos na América do Sul, Ásia e África

por Amálgama (28/08/2011)

Com o ditador, a Líbia se tornara o centro de uma rede global de insurgentes e déspotas

Joshua Kurlantzick, na New Republic / 26 de agosto

A julgar pelo fervor das celebrações, o povo líbio tem plena consciência de que será beneficiado com a queda de Muammar Kadafi. Mas dificilmente a Líbia será o único país com razão para alegrar-se.

Por mais comprometido que o ditador fosse em destruir seu próprio país, ele igualmente – ou talvez ainda mais – apresentava um perigo a países em desenvolvimento em outras partes do mundo. Desde que assumiu o poder, Kadafi fez uso do dinheiro do petróleo líbio, e de sua própria disposição em tornar seu país um Estado pária, para dar suporte a insurgências da Ásia Oriental à América do Sul, passando pelo sul da África. Com alguma sorte, certo número de guerras civis de longa duração desaparecerão do palco mundial junto com o próprio Kadafi.

Kadafi sempre deixou claro que não seguiria as regras informais estabelecidas por outros líderes árabes e africanos, segundo as quais eles nunca se entrometem nos assuntos de outros países: de fato, sua visão política sempre se estendeu para além de suas próprias fronteiras.

Um de seus projetos era o Centro Revolucionário Mundial, que estabeleceu próximo à cidade de Bengazi. Stephen Ellis se referiu a essa instituição como “a Harvard e a Yale de uma geração inteira de revolucionários africanos.” Enquanto muitos de seus diplomados compartilhavam de uma ideologia antiocidental – o que tinha apelo à própria autoimagem do ditador líbio como um dos poucos estadistas dispostos a resistirem aos supostos imperialistas –, muitas vezes os rebeldes em sua folha de pagamento não possuíam qualquer ideologia discernível. As inclinações ideológicas de Kadafi eram frequentemente superadas por seu apetite por poder, seu desejo de ser visto como um potente mediador na África, suas fantasias de vingança contra os EUA ou simplesmente seu apreço por travessuras.

Muito ocasionalmente, Kadafi apoiou insurgentes, como o Congresso Nacional Africano durante os anos de apartheid na África do Sul, que lutavam por objetivos louváveis. Mas com frequência muito maior, os beneficiários de Kadafi eram tão antidemocráticos e brutais quanto ele: entre estes estavam futuros ditadores e assassinos como Idriss Deby (Chade), Foday Sankoh (Serra Leoa), Blaise Compaore (Burkina Faso) e Charles Taylor (Libéria). Taylor, o déspota militar que atualmente enfrenta acusações de crimes de guerra na Corte Criminal Internacional, liderou uma das guerras mais abjetas da história moderna, supervisionando o emprego de soldados-mirins e o uso regular de amputações, estupros e escravidão sexual. Sankoh também teve papel fundamental naquela guerra, embora depois tenha morrido em custódia. Enquanto isso, Compaore, que comandou Burkina Faso com punho de ferro por quase vinte e cinco anos, regularmente frauda eleições para se manter no poder, mais recentemente no ano passado.

Assim, a Líbia se tornou o centro de uma rede global de insurgentes e déspotas: os estagiários de Kadafi utilizavam os laços que estabeleciam durante seu período na Líbia para darem suporte uns aos outros e robustecerem seu poder. Compaore, por exemplo, enviou tropas para auxiliarem insurgentes na África ocidental: foi ele também quem primeiro apresentou Taylor a Kadafi – amor à primeira vista para os dois déspotas, mas, para o povo da Libéria, um par saído diretamente do inferno.

No pico do poder de Kadafi, nos anos 1970, 80 e 90, quando guerras civis floresceram no pós-Guerra Fria e o preço do petróleo manteve forte a economia líbia, a influência de Kadafi se fez sentir bem além da África. Sua ajuda – em armas, dinheiro e treinamento – a separatistas no sul das Filipinas deu a estes, por muito tempo, um ânimo na sanguinolenta insurgência contra uma Manila dominantemente católica. Apesar das inclinações relativamente seculares de Kadafi, acredita-se que a Líbia tenha direcionado fundos para o Abu Sayyaf, um grupo-terrorista-e-gangue-de-sequestradores no sul das Filipinas que tem laços com a Al Quaeda.

E apesar de sua superestimada reaproximação com o Ocidente no começo dos anos 2000, durante a qual ele publicamente desistiu de seu programa de armas de destruição em massa e recebeu em Trípoli autoridades como a Secretária de Estado Condoleezza Rice, Kadafi nunca parou completamente de apoiar insurgências e ditadores. Ele aparentemente continuou seu apoio às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), uma organização terrorista do ramo das drogas que ajudou a tornar ingovernáveis algumas áreas da Colômbia. (Como observou Douglas Farah, um observador de longa data de Kadafi, um hard drive das FARC continha uma carta do grupo requisitando ao líder líbio 100 milhões de dólares.) E sua assistência a Robert Mugabe jamais esmoreceu, mesmo muito tempo depois do ditador zimbabuense ter perdido toda credibilidade internacional ao abertamente roubar as eleições nacionais.

A constância desse apoio mostrou-se mútua. Mesmo com o poder de Kadafi despedaçando-se em meses recentes, expondo sua falta de apoio entre o líbio médio, os grupos que ele patrocinara no exterior ficaram do seu lado. Rebeldes no sul das Filipinas publicamente protestaram contra os ataques da OTAN a instalações de Kadafi. O presidente venezuelano Hugo Chávez, que junto com Kadafi deu suporte às FARC, denunciou a intervenção internacional na Líbia, dizendo que os poderes internacionais estão “chutando, cuspindo … nos princípios mais básicos do direito internacional.” Mesmo muitos líderes do Congresso Nacional Africano ainda têm uma queda por Kadafi, já que ele ficou do lado do CNA durante o apartheid – Nelson Mandela e o atual presidente sul-africano, Jacob Zuma, chamaram Kadafi de “irmão líder.”

Mas, com Kadafi fora, as insurgências que ele patrocinava terão que achar novos patrões ou encarar a perspectiva de extinguirem-se. Algumas já estão em seus últimos fôlegos. Os grupos insurgentes no sul das Filipinas estão agora engajados em sérias conversações de paz com o governo (conversações que o filho de Kadafi, Saif al-Islam, originalmente tentara intermediar). No Burkina Faso, o poder de Compaore está cada vez mais ameaçado por deserções no exército e manifestantes de rua que tentam transformar a primavera árabe em um outono africano. Incapaz de contar com a assistência e o apoio retórico da Líbia, é provável que Compaore encontre o mesmo destino do próprio Kadafi. Robert Mugabe, que parece, aos quase 90 anos de idade, se encaminhar para mais uma eleição nacional, também se verá enfraquecido ao não poder contar com Kadafi: os reformistas africanos, tais como o governo democrático de Botsuana, sem dúvida se verão fortalecidos ao renovarem seus pedidos para que Mugabe saia.

Os rebeldes que agora tomaram o poder em Trípoli fariam bem em reconhecer o papel desestabilizador que Kadafi forçou a Líbia a desempenhar no cenário internacional durante as últimas quatro décadas. Isso não quer dizer que eles sejam responsáveis pelo caos gerado pelo antigo regime. Mas ao reconhecer essa herança política, e talvez ao estabelecer fundos de reparação para as vítimas do terror internacional de Kadafi, eles estarão evitando a própria atitude de fervor radical de Kadafi. Dar um fim à era de revolução perpétua do país seria o desenvolvimento mais promissor de todos para a Líbia.

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