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A transferência de votos de Marina e Aécio no segundo turno

por Elton Flaubert (20/08/2014)

Ainda não se pode afirmar com certeza que Marina será mais competitiva que Aécio contra Dilma

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Divulgada a nova pesquisa Datafolha depois do trágico acidente que vitimou Eduardo Campos, começaram as especulações em torno da nova conjuntura da campanha presidencial. A candidata Marina Silva aparece empatada tecnicamente com Aécio Neves no primeiro turno, e com Dilma Rousseff no segundo. O potencial da nova candidata do partido socialista ainda é incerto. Apesar de possuir um ótimo capital eleitoral e partir na corrida de uma boa posição, ela poderá sofrer com pouco tempo de rádio e TV, problemas de financiamento, ruídos com sua coligação por acordos firmados por Eduardo, além de dificuldades internas com o próprio partido que lhe abriga enquanto não legaliza a Rede.

No entanto, um dado extremamente interessante apresentado pela pesquisa é a diferença de desempenho de Marina e Aécio no segundo turno contra Dilma. Encontrando-se tecnicamente empatados no primeiro turno, a candidata socialista vence a presidente no segundo por 47 a 43%; enquanto o tucano viu a diferença entre ele e a petista aumentar (dentro da margem de erro) de seis para oito pontos (47 a 39%). Ao seu favor, o tucano tem o fato de ser o candidato mais desconhecido entre os principais competidores, e de estar participando de sua primeira eleição nacional; ainda assim, na fotografia apresentada hoje pelo Datafolha, a candidatura que produz mais dificuldades para Dilma é a de Marina Silva. Como vemos nos próximos gráficos, na disputa contra Dilma no segundo turno, Marina apresenta hoje melhor desempenho do que Aécio em todos os estratos e regiões:

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A principal razão para o melhor desempenho de Marina no segundo turno encontra-se na capacidade de transferir os votos do terceiro colocado. No próximo gráfico, podemos ver para onde foi os votos de Marina num hipotético segundo turno entre Dilma e Aécio:

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Agora, neste próximo gráfico, vemos para onde migram os votos do tucano num hipotético segundo turno entre Marina e Dilma:

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Um dos principais motivos para essa diferença é o fato de Marina conseguir captar 70% das intenções de voto de Aécio no primeiro turno. Enquanto isto, o tucano capta 58% das intenções de voto da socialista. Marina também consegue captar mais votos entre os indecisos do que Aécio (38% contra 32%). Um dado interessante e que talvez explique esta diferença é que 58% do eleitorado de Marina rejeita Dilma; enquanto 68% do eleitorado de Aécio rejeita a petista.

O fator rejeição talvez seja um dos elementos que explique os resultados do Datafolha. Em abril, Marina era rejeitada por 21% dos eleitores, e agora possui um dos menores índices, com 11%. A presidente é rejeitada por 34% dos eleitores, e o tucano por 18%. No Nordeste – onde no segundo turno a diferença entre a petista e o tucano encontra-se em 35%, e entre a presidente e a socialista em 16% – Dilma é rejeitada por 25% dos eleitores, Aécio por 23%, e Marina por 16%. A candidata do PSB consegue atenuar a grande vantagem da petista onde ela é mais forte: entre os mais pobres, menos escolarizados e no Norte-Nordeste; e consegue abrir uma boa diferença nos grandes centros urbanos.

Apesar de aparecer quatro pontos atrás de Marina no segundo turno, a pesquisa não foi tão ruim para a presidente. A aprovação do seu governo cresceu seis pontos. Se antes 32% dos eleitores consideravam bom ou ótimo seu desempenho no mandato, agora este número aumentou para 38%. Mesmo percentual dos eleitores que considera regular o seu governo. Já para 23% dos eleitores, o mandato da petista é ruim ou péssimo.

É interessante observar que Dilma cresceu justamente onde sua avaliação melhorou um pouco mais: na região Norte e entre os mais pobres. Um bom sinal para candidata que tem mais de dez minutos de tempo de TV e uma boa máquina partidária para tentar reverter rejeição e má avaliação do governo.

Sempre é bom lembrar que esta pesquisa foi realizada antes do início da propaganda eleitoral e que, portanto, o “grau de conhecimento” dos candidatos ainda possui um peso considerável. Aécio é o mais desconhecido entre os três principais concorrentes e possui dois elementos muito favoráveis: a) vários candidatos do PSDB ou apoiados pelo partido estão indo bem em importantes colégios eleitorais (São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Ceará, Goiás, Paraná); b) é o candidato que mais arrecadou dinheiro até aqui. De tal modo que, mesmo com os elementos apresentados por esta pesquisa, ainda não se pode afirmar com plena convicção que Marina é uma candidata mais competitiva do que o tucano no segundo turno. No entanto, o tucano precisará melhorar nas próximas semanas entre os mais pobres, amenizar a frente que a petista lhe impõe no Nordeste, e melhorar seus índices nos grandes centros urbanos e no Sul-Sudeste.

A corrida começou de fato e em menos de dois meses teremos, pelo menos, o final da primeira parte dela. Apenas nas próximas semanas conseguiremos ter uma melhor ideia do quanto a presidente poderá melhorar sua avaliação e intenções de voto (e qual o seu limite para tanto); do teto e potencial da candidatura de Marina; e se Aécio conseguirá se apresentar como um nome nacional capaz de presidir o país, capturando os votos de insatisfeitos e demonstrando ter capacidade para realizar o seu potencial de crescimento.

Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.