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No meio do caminho há duas pedras

por Bolívar Lamounier (28/08/2014)

Se eleita, Marina terá apoio suficiente para governar?

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Poucas vezes em sua história o Brasil se defrontou com uma conjuntura sucessória tão cheia de riscos como a atual. Riscos decorrentes, como ninguém ignora, dos longos oito anos de Lula e dos quase quatro de Dilma. Durante todo esse período, quanto mais nítidos os contornos do desastre econômico e social se tornavam, tanto mais a corrupção, o uso despudorado da máquina do Estado e o biombo publicitário impediam a oxigenação do corpo político do país e preparavam o prosseguimento do projeto lulopetista de poder.

Esse conjunto de circunstâncias que parecia impedir a passagem da luz solar não impedia, porém, a gestação de uma alternativa a “tudo o que aí está” (se posso aqui me valer de uma figura literária dos tempos do antigo PT), à medida que as correntes internas do PSDB e outras forças de oposição convergiam para a candidatura Aécio Neves. As pesquisas de intenção de voto do primeiro semestre mostraram isso com muita clareza. Com uma asa quebrada desde as manifestações de junho de 2013, Dilma Rousseff já não reunia condições de vencer no primeiro turno, perdendo para a soma das votações de Aécio, Eduardo Campos e dos “nanicos” – e tornava-se crescentemente vulnerável no segundo.

A morte de Campos – como a maioria dos observadores e cronistas tem assinalado – alterou esse quadro de uma forma dramática e para muito pior. Dramática por haver tornado plausível a eleição de qualquer um dos três principais candidatos; e para muito pior por ter proporcionado uma vantagem substancial, embora possivelmente momentânea, a Dilma Rousseff e Marina Silva. A escassos quarenta dias da eleição, ou Aécio Neves ultrapassa uma das postulantes mais bem colocadas e vai ao segundo turno ou o cenário brasileiro ganha cores deveras preocupantes.

Sobre Dilma, o testemunho mais incisivo – e ao mesmo tempo trágico e cômico – é a recepção positiva por parte dos investidores domésticos e internacionais a todo sinal desfavorável a suas pretensões à reeleição que apareça nas pesquisas. Poderíamos mas não precisamos nos alongar sobre o papel de poste e pau mandado a que se prestou em 2010, a diáfana mistificação gerencial com que se recobria, a extensão de seus preconceitos ideológicos ou, não menos importante, seu claudicante vernáculo.

Marina Silva é uma história muito diferente; é cedo para dizer se melhor ou pior, mas diferente, é. Pessoalmente, está visto que se trata de uma figura inatacável. Sua trajetória de vida merece e requer respeito. É ela capaz de governar o Brasil? Não me parece que esta indagação comporte uma resposta simples, rápida, unidimensional; no espaço de um artigo, o melhor que posso fazer é abordá-la de uma forma progressiva e talvez demasiado indireta.

É fato que Marina atraiu colaboradores de alta capacidade acadêmica e integridade indiscutível. Poucos, mas sumamente respeitáveis. O que não me parece claro é o nível e a consistência do idioma conceitual e político de que ela se vale para se comunicar com tais colaboradores – sem esquecer que sua aliança com Eduardo Campos não primava pela consistência. Neca Setúbal, falando aparentemente com autorização da candidata, afirmou que ela garantiria a autonomia do Banco Central; e Eduardo Giannetti deu a entender que as intenções dela em relação ao mercado seriam assaz amigáveis. Devemos acreditar em tudo isso? Convenhamos, com tal singeleza, são ideias para tomar com um grain of salt, como dizem os americanos.

Se eleita, Marina terá apoio suficiente para governar? O mesmo Giannetti e outros adeptos da saída “marinera” responderam esta indagação de uma forma notavelmente sincera, o que não quer dizer realista. Foram sinceros no admitir que não vislumbram apoio suficiente em termos partidários, ou seja, que precisarão pegar um pedaço de um partido, um pedaço de outro etc. Quais pedaços? Os “bons” do PT, do PSDB e por aí vai. Giannetti foi mais explícito ao afirmar que espera ver Lula e Fernando Henrique a bordo do barco. Essas referências isoladas dão bem a medida de quanta singeleza e ingenuidade uma eventual presidente Marina precisará superar para formar uma base de apoio.

Só por serem “bons” os bons do PT e do PSDB vão se entender em torno de questões sumamente complexas e conflituosas como a política fiscal, o agronegócio ou o grau de abertura da economia? E no Congresso? Chamar os “bons” é como adicionar uma camada de insulto à injúria, dizendo aos excluídos que o motivo de sua exclusão é o fato de serem maus.

Tudo bem ponderado, o que sabemos, infelizmente, é que Marina tem votos. Tem um importante potencial eleitoral. Mas não tem uma plataforma densa e realista, nem uma equipe suficientemente numerosa para “encarná-la” em todos os níveis da máquina do Estado, muito menos uma base de apoio confiável na esfera política. Do ponto de vista político – sem qualquer conotação moral, please! -, cabe compará-la a Fernando Collor? Cabe sim, e penso que as condições iniciais eram até mais favoráveis a Collor que a Marina. Collor sabia que seu governo dependeria do que fizesse no primeiro dia: a hiperinflação batia-lhe às portas. Se tomasse de cara uma decisão enérgica, espetaculosa, dramática, talvez gerasse o capital político necessário para ganhar altitude; se não o fizesse, ciao e benção.

Quer dizer, a inflação já fugindo a qualquer controle era um monstro pavoroso, mas domá-lo poderia ser a solução para o outro problema da presidência Collor: a extrema rarefação de suas bases de poder. Marina, se eleita, terá evidentemente de se preocupar com a inflação que Dilma vai lhe legar, mas essa inflação não é (ainda) nem remotamente comparável à que Collor precisou enfrentar. Enquanto depender só das urnas, seu poder não terá aquele mínimo de densidade, aquela densidade durável de que todo presidente precisa para governar. Esse milagre, nem as urnas nem a inflação de um dígito podem realizar. Não podem condensar o que sabidamente não existe.

O resumo da ópera é muito simples: o acréscimo provavelmente modesto que Marina propiciaria a Eduardo Campos era crucial para forçar o segundo turno, tornando manejável a atual equação política brasileira. Sem Eduardo, o cabedal eleitoral de Marina é muito maior, suficiente para criar na esfera política o tipo de alívio de curto prazo que os economistas pitorescamente denominam “voo de galinha”.