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O significado de “Dudu” para Pernambuco

por Elton Flaubert (17/08/2014)

Eduardo Campos reforçou o sentimento de identidade do pernambucano

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No crepúsculo do dia, cedo levantava e olhava para o céu. A chuva era tão tórrida e intensa quanto o nascer do sol. As nuvens pareciam estar ausentes. Naquele mesmo dia, às 13 horas da tarde, mal podia esperar que, num telefonema, curtas palavras iriam ao meu ouvido deslizar para transformar meu semblante em perplexidade: Eduardo Campos morreu.

O choque inicial ainda não passara enquanto lembrava-me afetivamente do que mais marcou na histórica campanha de Eduardo ao governo do estado em 2006: a “pernambucanidade”. Veio-me imediatamente à mente a valorização da cultura popular, na peça publicitária da ciranda e no inesquecível momento em que ele, junto a Ariano e milhares de eleitores presentes, cantou Madeira do Rosarinho . Um frevo histórico de Capiba, composto em 1963, realçando a força da tradição e da elegância da agremiação “Madeira do Rosarinho”, diante de uma derrota injusta:

E se aqui estamos cantando esta canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto, que a injustiça dói
Nós somos Madeira de Lei que cupim não rói

Neste domingo, quem de fora do estado estiver a assistir ao carinho e admiração empenhada pelo povo pernambucano ao seu ex-governador, pode imaginar que isto é fruto de um ótimo desempenho no mandato, ou ainda, por ser neto de Arraes. Porém, é por muito mais do que isto. Seguindo os passos do seu mestre Ariano, Eduardo representou uma síntese histórica de duas tradições políticas no estado, retomando o sentimento de identidade do pernambucano.

Em certo sentido, o sul do país jamais compreendeu o espírito profundo do Nordeste, a emocionante devoção do sertanejo; a lealdade à sua terra, à sua tradição e aos seus costumes; o respeito às suas aristocracias, como mantenedoras da identidade e da coesão. Em termos políticos, isto sempre foi lido como “atraso”, fruto da “aristocracia escravagista decadente”, ou ainda, em termos clássicos, como “coronelismo”, “familismo”, “patrimonialismo” etc. Há alguma razão nisto tudo; porém, podemos olhar por outras perspectivas, pelo sentimento de quem lá vive, com os ganhos dessa vida enraizada num mundo onde a velocidade dilui o senso de responsabilidade.

Durante o Império, depois de inúmeras revoltas no período regencial, um dos debates políticos era em torno da unidade nacional: centralizar administrativamente o país e garantir a soberania nacional na figura da Monarquia ou dar mais liberdade para as províncias, como no federalismo americano, correndo o risco de desintegração? José Murilo Carvalho nos mostra que até a década de cinquenta do século XIX houve a construção do estado nacional, com uma “acumulação primitiva do poder”, formulada pelos saquaremas (conservadores). As instituições imperiais foram articuladas visando manter a unidade nacional ao arbitrar os conflitos entre as elites políticas.

Na formulação saquarema, a monarquia constitucional deveria ser sóbria: limitava as prerrogativas do príncipe, garantindo que o poder moderador não servisse às vontades do monarca, e garantia a estabilidade e unidade do país. A monarquia deveria harmonizar as regionalidades, lhes dar unidade nacional.

Ao contrário, os liberais queriam reformas administrativas e políticas, dando mais liberdade às províncias, mesmo sem romper com a estrutura montada pelos saquaremas. Só a partir da década de 1870 que os liberais começarão a contestar a Monarquia. A partir desta década, o papel do estado nacional passou a ser de “indutor de desenvolvimento”, fomentando as atividades produtivas mediante investimentos de infraestrutura.

Nesta época, a votação das leis graduais de abolição desmonta claramente a tese que atribui ao norte agrário – como uma região economicamente estagnada, contrastando com Minas Gerais e São Paulo, como regiões de economia moderna e comportamento liberal – um caráter contrário a reformas. Muitos políticos do Partido Conservador defendiam reformas na estrutura do Império. Murilo de Carvalho mostra que essa combinação entre reformismo e estatismo era mais fácil para os políticos conservadores do norte, já que nessas províncias a mão-de-obra escrava já não era um problema sério.

Por isto, para aprovar a Lei do Ventre Livre em 1871, Rio Branco obteve entre os políticos conservadores nordestinos seu principal ponto de apoio. Coloca Carvalho: “A grande façanha de Rio Branco foi conseguir uma coalizão de funcionários públicos e proprietários nordestinos contra os proprietários e profissionais liberais do sul, especialmente do Rio de Janeiro, Minas Gerais, e São Paulo”. Sem o apoio do norte do país, o abolicionismo teria sido retardado.

Na Câmara dos Deputados, o projeto de lei obteve 65 votos favoráveis e 45 contrários. Destes últimos, 30 eram de deputados das três províncias cafeeiras: Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. No Senado, foram 33 votos a favor e 7 contra. Entre os votos contrários, 5 foram de senadores das províncias cafeeiras . Coube ao Barão de Cotegipe e ao Visconde de Camaragibe, membros ilustres da aristocracia açucareira, a liderança da bancada para aprovação da Lei do Ventre Livre. Anos depois, na aprovação da Lei dos Sexagenários, o liberal Saraiva, um ex-integrante do Partido Conservador, só conseguiu aprová-la com apoio dos conservadores do norte.

Em Pernambuco, havia uma grande disputa entre conservadores e liberais. Para além da política. Os conservadores representavam a centralização, a valorização da unidade nacional, mas também o apego às tradições da terra, à manutenção dos hábitos e costumes que constituíram a tradição local, com o respeito aos seus símbolos. Os liberais representavam a descentralização; a revolta contra o poder central, vindo de Lisboa ou do Rio de Janeiro; a ideia de progresso do Iluminismo; a defesa de mais liberdade para a província, cristalizando-se na sua tradição de lutas: Insurreição Pernambucana, Revolução dos Padres de 1801, Revolução de 1817, Confederação do Equador, Revolta Praieira, entre outras.

Nas eleições, nos periódicos, nos bastidores da política, ou mesmo em armas – sempre houve em Pernambuco certa tradição de lutas entre os herdeiros destes campos. Seja na disputa entre conservadores e liberais, entre UDN e PTC, entre ARENA e PMDB, ou entre PFL e PSB. Por isto, as eleições no estado costumam ser muito disputadas.

No entanto, Eduardo Campos – com seu grande talento para conciliação – uniu uma ponta a outra, realçando essa antinomia como parte de algo maior do que estas disputas: a identidade pernambucana. Eduardo era um político de centro-esquerda, defensor do desenvolvimentismo e de algumas pautas culturais tidas como progressistas. No entanto, ele foi também, como seu mestre Ariano, um católico fervoroso, bravo defensor das tradições do estado, da cultura popular, do enraizamento de sua gente, da devoção dos sertanejos – incorporando a gestão eficiente e descentralizada da coisa pública, tão cara aos liberais. Não raro, a esquerda do estado bradou contra suas parcerias público-privadas ou daquilo que se denominou de “familismo”, “novo coronelismo”, “patrimonialismo” etc.

Ao contrário de Arraes, Eduardo não se contentou em representar um campo político, mas conseguiu incorporar os adversários históricos contra quem lutava. Em torno dele, uniram-se os grandes caciques da antiga ARENA, do PFL, do curto período de Jarbas, e as famílias históricas de cada região do estado. Entre os políticos que aderiram ao seu projeto: José Múcio Monteiro (adversário do seu avô na eleição de 1986), Roberto Magalhães (governador de Pernambuco e prefeito de Recife, pela ARENA e pelo PFL), Gustavo Krause (governador de Pernambuco, prefeito de Recife e ministro, sempre pelo PFL), Joaquim Francisco, Jarbas Vasconcelos, entre outros. E entre as tradicionais famílias (algumas militantes históricas na ARENA e no PFL), representando a gente do interior do estado: os Coelhos de Petrolina, os Rufinos de Bom Jardim, os Oliveiras de Serra Talhada, os Cavalcantis de João Alfredo, os Queiroz e Lyras Neto de Caruaru, os Liras de Vitória de Santo Antão, entre outras.

O ponto final dessa síntese deu-se em 2012, quando se preparava para unir o estado e oferecer seu nome para presidir o país, ao realizar um acordo histórico com seu antigo adversário, Jarbas Vasconcelos, e ao incorporar ao seu governo PSDB e DEM. Naquele momento, deixou basicamente na oposição o PT e a esquerda radical. Eduardo reviveu uma tradição política histórica, na síntese entre Pedro de Araújo Lima e Frei Caneca, Nabuco de Araújo e Borges da Fonseca, Visconde de Camaragibe e Joaquim Nabuco, Francisco de Assis Rosa e Silva e Dantas Barreto, Cid Sampaio e Agamenon Magalhães, Gustavo Krause e Miguel Arraes.

Nesta síntese, e com um carisma singular, Eduardo reforçou o sentimento de identidade do pernambucano, suas raízes, sua cultura. O discurso construído que lhe levou ao Palácio das Princesas em 2006 era alicerçado no desenvolvimentismo, na tradição de lutas de um povo e na valorização das raízes do homem da terra. Durante o mandato, com a maleabilidade de dar respostas de acordo com cada situação, reforçou este sentimento. Eduardo era um hábil gestor, tinha espírito de liderança e carisma, um filho da terra por vocação e amor.

Na trágica quarta-feira, não foram pessoas que choraram, mas um estado inteiro. As ruas do centro do Recife, por onde um dia Tobias Barreto e Castro Alves declamavam seus versos, deixaram de ser boemia e tornaram-se melancolia. Algumas pessoas choravam copiosamente, outras caminhavam tristes, cabisbaixas, perdidas entre ruas e afetos que vinham à memória. A cidade parou. Podia-se ouvir um silencio ensurdecedor. Pudera, ninguém precisava falar nada. Nossos olhos, nossas expressões faciais, nosso corpo, substituía nossa boca.

Para onde vai, o pernambucano gosta de carregar consigo uma bandeira, uma camisa, uma lembrança, do seu estado. Aqui, o nosso representante político não representa apenas um impessoal administrador da coisa pública (este republicanismo formal que alguns do sul adoram), mas é um líder que representa as tradições de seu povo, devendo cuidar de suas raízes. Ele e sua família representam nosso próprio senso de identidade. Uma dádiva dada por nosso voto, mas também uma grande responsabilidade – não há muitos espaços para impessoalidades, afetações farsescas de seriedade, retóricas insinceras.

Para o Brasil, era Eduardo Campos, um candidato a presidente. Para nós, amando ou detestando, era Dudu. O menino que o estado acostumou a ver crescer acompanhando o seu avô; que depois foi secretário, deputado, ministro, governador; que era simpático com todos na rua; frequentava a missa todos os domingos; e era admirador das buchadas de bode do interior. Dudu não era só uma pessoa, um pai de família, filho de Ana Arraes, ou neto do velho Arraes, ou mesmo um candidato à presidência; Dudu era um pernambucano. Perdemos um familiar nosso. E é assim que aqui tratamos políticos que representam – de fato e de direito – o seu povo e sua tradição.

Mas, o pernambucano é madeira de lei que cupim não rói. Desde a madrugada, acompanha com bravura e lealdade o seu jovem filho que volta para casa. Nas ruas, durante todo o domingo, o povo homenageia com emoção e coragem o seu líder. Junto com ele, vai também um pouco de cada um de nós. Mesmo que ainda não tenhamos compreendido a real dimensão do que ocorreu nos últimos anos.

Descanse em paz, Dudu.

Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.