PESQUISA

Dá para falar sério sobre a “zelite”? Acho que dá

por Bolívar Lamounier (12/08/2016)

Diferente das elites reais, elites abstratas são meros agregados estatísticos.

fiesp

Uma parte importante do entulho intelectual que o PT difundiu em seus 36 anos de existência é a visão de um Brasil dividido em dois campos opostos e inconciliáveis: “nós” contra “eles”, nós os “progressistas” contra eles os “reacionários”, e especialmente “nós, o povo” contra eles, a “zelite”.

Munidos desse indigente maniqueísmo, os intelectuais petistas elaboraram uma versão estapafúrdia de nossa história e trataram de difundi-la em todos os níveis do sistema educacional. Tenho para mim que criticar e denunciar este e os demais disparates pseudo-teóricos propagados pelo lulopetismo é uma tarefa de suma urgente. É, pois, com o objetivo de colocar um pouco de ordem na discussão desse tema que focalizo abaixo o conceito de elite.

Comecemos pelo começo. O primeiro passo é frisar a profunda diferença que existe entre elites “reais” e elites “abstratas”. Elites reais são grupos sociais de fato existentes; seus membros têm consciência de pertencer a eles, e também interesses, modos de vida e formas de pensar específicas – no limite, até certo grau de endogamia. No debate público, esse primeiro sentido do termo geralmente aparece com uma das três seguintes conotações: aristocracia – um estilo de vida característico; exemplaridade – um grupo de pessoas amplamente respeitado por encarnar valores importantes na sociedade; conspiração – um grupo que evita aparecer como tal na imprensa, que se reúne a fim de obter vantagens políticas ou econômicas ilícitas ou ilegítimas.

Vejamos alguns exemplos. De elites aristocráticas, a Itália no século 19. De elites exemplares, a da Ivy League, lastreada nas grandes universidades da costa leste norte-americana – Harvard, Yale e Princeton.

E exemplos de elites conspiratórias? Ora, é provável que grupos motivados pela gana de poder ou de ganhar dinheiro se formem o tempo todo, no mundo inteiro. Seria uma suprema ingenuidade imaginar que a luta movida por interesses econômicos ou políticos se dê sempre em público. Os políticos e intelectuais que consomem uma grande parte de seu tempo denunciando conspirações com certeza conspiram bastante também. Daí a importância de distinguirmos a ocorrência de conspirações – pequenas ou grandes, não importa – do que tradicionalmente se tem denominado “teorias conspiratórias”.

Em seu livro A Sociedade Aberta e seus Inimigos, capítulo 14, Karl Popper faz uma concisa, mas devastadora dissecação lógica de tais teorias. Explica que elas “…consistem em atribuir a ocorrência de um fato indesejado à ação oculta de algum grupo interessado em que tal fato ocorra”. Seu aspecto mais nefasto, ainda segundo Popper, nem é sua debilidade intelectual; é o risco de algum partido que as leve a sério chegar ao poder e deflagrar uma contra-conspiração com o objetivo de eliminar inexistentes conspiradores”.

Nesse aspecto, desde o episódio do mensalão, o Brasil vive uma situação deveras paradoxal. Sem sombra de dúvida, é o PT quem mais esgrime a teoria da conspiração contra seus adversários políticos. Mas foi justamente ele que se envolveu em duas das mais ruidosas e funestas conspirações de que há registro em nossa história: a do mensalão e a do petrolão, ambas comprovadas com riqueza de detalhes.

Diferente das elites reais, elites abstratas são meros agregados estatísticos: uma simples soma dos indivíduos que ocupam posições elevadas nas diferentes pirâmides de que a sociedade se compõe. São várias as razões que levam tais indivíduos a ascender aos ápices das referidas pirâmides: nível educacional, posição de liderança em alguma instituição relevante, eleição para assembleias oficiais de representação ou para a direção de sindicatos, participação nos órgãos de cúpula das diferentes denominações religiosas, cátedra universitária, prestigio como jornalista ou intelectual, função elevada na administração civil ou militar, propriedade ou direção de empresa, e assim por diante.

Quem, na plena posse de suas faculdades mentais, atribuiria a uma elite abstrata numerosa como a que temos no Brasil um alto grau de coesão, interesses comuns, uma comunhão de valores ou uma capacidade de agir coletivamente em defesa de alguma causa ou objetivo? Esta primeira indagação remete-nos a uma outra: qual dos dois tipos de elite – real x abstrato – quadra melhor com a história brasileira? Onde e quando foi que o Brasil teve uma elite real – aristocrática ou exemplar – comparável às acima citadas? Na USP dos anos cinquenta? Ora, não exageremos.

Ao contrário do que pretendem os ideólogos do PT, o problema brasileiro não é a existência de uma elite oculta e poderosa que tudo controla e não se detém ante nenhum obstáculo. Bem ao contrário, é a inexistência de uma elite com um grau razoável de coesão, respeitada pela maioria dos cidadãos e consciente de sua responsabilidade na defesa de objetivos e valores que nos são caros como país. É evidente que uma elite desse tipo não existe em nosso meio. Some-se a Fiesp à CNBB, ambas à OAB e essas três a quantas mais se quiser – todas eminentemente respeitáveis em suas respectivas áreas de atuação-, e nem assim chegaremos a uma elite exemplar. O que existe são as pirâmides a que antes me referi; essas sim, existem, por definição, cada uma com seu ápice. Mas atribuir-lhe ao agregado formado por elas uma visão compartilhada do país, um projeto comum de desenvolvimento, valores convergentes etc, é surfar na maionese.

E vejam bem: é aí que reside um risco muito sério para o nosso país. Se não podemos contar com uma elite informalmente exemplar, capaz de orientar a sociedade em momentos de crise, moderando e ajudando a equacionar os conflitos, não podemos permitir que as instituições formais de que bem ou mal dispomos desçam pelo ralo. Permitir que o descalabro dos últimos anos siga seu curso maligno, levando para o vinagre as instituições liberal-democráticas que a duras penas construímos, é algo que beira a insanidade.