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A era dos negacionismos

por Carlos Orsi (02/08/2017)

Como marketing, ideologia e o poder da emoção distorcem fatos e poluem as redes.

Estar “em negação” é recusar-se a aceitar uma verdade claramente evidenciada pelos fatos. Um paciente que rejeita o diagnóstico mesmo após exames exaustivos e repetidos, o marido que insiste que a mulher ainda o ama mesmo depois de ela tê-lo deixado, o criacionista que segue balançando a cabeça diante do registro fóssil e da evidência genética de ancestralidade comum, o simpatizante nazista que não acredita que houve câmaras de gás em Auschwitz – todas essas são pessoas “em negação”. “Negacionismo”, neologismo desajeitado, refere-se a movimentos organizados, ideológica e politicamente, para proteger e promover a negação, defender a visão de mundo dos negadores e tentar convencer as massas a ignorar a preponderância da evidência.

Há dois mitos especialmente perniciosos em torno dos negacionismos em geral: o primeiro é de que se tratam de movimentos de nicho, que podem até fazer barulho, mas que no fundo contam com pouca expressão e penetração. A verdade, no entanto, é que desde que a indústria do tabaco decidiu abraçar e financiar a negação em torno dos malefícios do fumo para a saúde, toda uma tecnologia de manipulação social – e uma rede de profissionais especializados – desenvolveu-se para apoiar e sustentar as mais variadas formas de negação, por um preço. Esse sistema inclui o lançamento de campanhas publicitárias, a contratação de celebridades, a distorção dos fatos, a corrupção de cientistas.

O segundo mito é o de que todo negacionista é venal ou idiota. Não necessariamente: psicólogos e cientistas sociais descobriram, há tempos – e novas evidências disso surgem na literatura científica quase toda semana – que cada um de nós tem um núcleo de crenças e atitudes que se radica no nosso próprio senso de identidade. Ataques a essas crenças podem ser, e muitas vezes são, rebatidos com uma negação emocional que surge com um profundo senso de certeza; e pessoas muito inteligentes, de tal modo motivadas, tendem a ser boas em criar motivos para escorar suas negações.

Isso é especialmente verdade quando o que se busca negar são realidades científicas: como a ciência, por sua própria natureza, não lida com certezas, mas sim com um balanço de probabilidades, sempre é possível argumentar que existe uma chance de o consenso científico estar errado; mais, lembrar que o consenso científico já esteve errado no passado.

As mesmas pessoas que considerariam esses argumentos bisonhos se utilizados contra, digamos, a eficácia da vacina do sarampo ou as vantagens do livre comércio, não se acanham em sacá-los na hora de afirmar que homeopatia funciona ou que o aquecimento global é uma farsa. Há uma sinceridade em certos defensores dessas posições que afasta a acusação de venalidade. Eles, de fato, mentem brilhantemente para si mesmos, estimulados pela própria verdade emocional e, hoje em dia, pela neblina coruscante produzida pelos agentes profissionais da negação.

Todo mundo percebe que, mesmo sendo falível, quando comparado às fontes alternativas de informação sobre a realidade física (dogma religioso, opinião pessoal, alegações de “pesquisadores hereges”, etc.) o consenso científico ganha de goleada. Exceto, claro, quando o pronunciamento do consenso toca um nervo exposto. Aí não é mais “todo mundo”.

Falando em aquecimento global, uma das questões mais cruciais do nosso tempo: muitas vezes, o negacionismo aí é uma consequência de segunda ou terceira ordem de outra coisa – uma forte rejeição ideológica à ideia de regulação estatal, a fé de que não existe problema que não possa ser resolvido por livre mercado e crescimento econômico, a ideia de que o ser humano é “pequeno demais” para afetar o sistema global do clima (para quem se apega a este último ponto, nunca é demais lembrar que a primeira grande catástrofe ecológica da história do planeta, a introdução de enormes quantidades de um gás corrosivo – o  oxigênio – na atmosfera, foi causada por micro-organismos).

Para ficar num exemplo próximo. Há algum tempo, um comentarista em meu blog pessoal, depois de manifestar-se escandalizado com a possibilidade de voltarmos a “andar de carroças” por conta da agitprop ambientalista, citou um artigo de 2005 da revista Science que mostraria a ausência de correlação direta entre as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera e a temperatura ao longo das eras geológicas. A conclusão, abracadabra!, seria de que o aquecimento global causado pelas emissões de CO2 da civilização moderna não existe.

O primeiro ponto a destacar é que não é preciso existir uma correlação evidente, tipo bate o olho no gráfico e tá lá, entre CO2 e temperatura em longas escalas de tempo. A temperatura responde a diferentes “forçantes”, como a luminosidade do Sol ou a órbita da Terra, e o fato de o CO2 ser a forçante dominante hoje não significa que tenha sido sempre (o Sol, por exemplo, era menos luminoso no passado: estrelas esquentam com o passar o tempo). Mas, ainda assim, eu sabia da existência de estudos apontando o efeito do dióxido de carbono no clima pré-histórico. Lá fui eu, então, procurá-los.

Encontrei uma referência mais recente, publicada na Nature em 2012 (“Global warming preceded by increasing carbon dioxide concentrations during the last deglaciation”), que conseguiu estabelecer a influência das concentrações de CO2 na atmosfera sobre o fim da última Era Glacial.

O artigo reconhece que, algumas vezes, é possível que a elevação de temperatura preceda o aumento do dióxido de carbono, mas isso também é esperado, nas circunstâncias em que o aquecimento é precipitado por outras das chamadas forçantes climáticas: então a temperatura mais alta reduz a solubilidade do gás carbônico nos oceanos, ou causa mais incêndios, o que libera CO2 (que aí, uma vez na atmosfera, vai causar mais aquecimento). Os autores estabelecem que, no mais recente degelo, mais de 90% do aquecimento aconteceu após a liberação do CO2 pela elevação inicial de temperatura.

Depois de ter visto tudo isso, fiquei curioso e fui olhar melhor a referência deixada pelo comentarista. Ei-la: Science, “Analysis of the Temperature Oscillations in Geological Eras”, Vol.309, No 5734; pp 600-603, 22 july 2005. Impressionante, não? Resolvi pesquisar. O volume, número e data conferem. Mas o artigo não existe. Repito: não existe. Trata-se de uma completa fabricação.

De fato, o que existe é exatamente o oposto: as páginas 600 a 603 do volume 309 da Science, edição datada de 22 de julho de 2005, abrigam o artigo “Marked Decline in Atmospheric Carbon Dioxide Concentrations During the Paleogene”, que realmente trata de concentrações de CO2 durante um período da pré-história, o de 45 milhões a 25 milhões de anos atrás. E apresenta a seguinte conclusão:  “a queda na pressão parcial de CO2 provavelmente permitiu uma expansão crítica das capas de gelo da Antártida”. Desculpe a ênfase, mas só para deixar ainda mais claro: o folclore negacionista “substituiu” um artigo real, que apontava o impacto do CO2 no clima – no caso, vinculando a perda de CO2 na atmosfera a um aumento do gelo na Antártida – por um outro, imaginário, que diz o oposto!

Resolvi insistir na busca pelo artigo fantasma. Talvez ele existisse, mas a referência estivesse equivocada?

Encontrei outras citações desse trabalho, mas que davam como data de publicação o ano de 2002, não 2005, e não mencionavam periódico nenhum. O autor a quem o artigo é atribuído, Christopher R. Scotese, é um geólogo real e respeitado, já publicado diversas vezes na Science – só que jamais algo com esse título. E sua especialidade é deriva continental, não clima.

Mas, sim, ele produziu e publicou, em seu site pessoal, um mapa da oscilação da temperatura média global ao longo das eras geológicas – a versão mais recente que encontrei online é a de 2002. Sem menção nenhuma a correlações (positivas, negativas, inexistentes, o que quer que seja) com níveis de carbono. E o mapa não é um trabalho científico, mas apenas uma espécie de visão geral, grosseira, da variação da temperatura no passado. Como esse mapa “nas coxas” virou parte de um artigo inexistente da revista Science?

Existe um gráfico, publicado em 2008 pelo aristocrata inglês Christopher Monckton – que acha que o aquecimento global é uma farsa inspirada por comunistas – onde o mapa informal de Scotese é sobreposto por uma curva de concentrações de CO2 retirada de um modelo matemático publicado em 2001 (“Geocarb III: a revised model of atmospheric CO2 over phanerozoic time”, American Journal of Science). O Frankenstein pseudocientífico resultante supostamente “prova” que dióxido de carbono não se correlaciona à temperatura.  Ao copiar a curva do Geocarb III, no entanto, Monckton “esqueceu-se” de copiar o texto que aparece logo abaixo: “no longo prazo, existe, de fato, uma correlação entre CO2 e paleotemperatura, como manifestado no efeito estufa”.

Há evidências, na internet, de que o visconde britânico não foi o primeiro a brincar com a curva genérica de Scotese e gráficos de carbono: esse parece ser um passatempo comum entre negacionistas. Mas como essas distorções viraram um artigo inexistente da Science?

O processo todo atordoa a consciência – “explode a cabeça”, para ficar no jargão dos clickbaits. É até concebível que não tenha havido fraude deliberada, mas apenas um processo de telefone sem fio, em que a certeza absoluta superou escrúpulos mesquinhos como a mera curiosidade pela checagem de dados. Uma geração quase espontânea de fake science, a partir dela, fake news e, a partir daí, compromissos sinceros com causas equivocadas, mais certezas absolutas, mais negligência com os fatos, e o ciclo se repete. Tal é o poder do negacionismo contemporâneo.

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Carlos Orsi

Jornalista e escritor, com mais de dez livros publicados. Mantém o blog carlosorsi.blogspot.com.