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“Dunkirk”: o cinema contra a morte do espírito

por Leandro Costa (08/08/2017)

O foco na circunstância serve à construção de uma consciência histórica.

Mutilado, mas quanto movimento
em mim procura ordem.
Carlos Drummond de Andrade

1.

Dunkirk, de Christopher Nolan, é uma experiência cinematográfica que afigura, ao mesmo tempo, uma elegia e uma ode. Uma elegia por tudo o que contém de melancólico e desolador; e uma ode pela eminente celebração da resistência dos indivíduos não apenas à circunstância material da guerra, mas à crise espiritual do mundo moderno, da qual a guerra total é apenas uma de suas mais perversas consequências.

O episódio de Dunkirk é bastante conhecido pelo povo inglês, justamente pelo valor simbólico que adquiriu dentro da história da Segunda Guerra e, consequentemente, do mundo como um todo. Logo no início do conflito, quando as tropas alemãs conseguiram romper a barreira do exército francês e invadir a França, a Holanda e a Bélgica, obrigando as tropas aliadas a refugiarem-se no litoral, Churchill previu que a salvação do exército britânico (que seria determinante para o desfecho posterior da Guerra) dependia de uma retirada estratégica.

Algumas embarcações da Marinha Real e muitas pequenas embarcações de civis foram mobilizadas e acorreram ao litoral francês para salvar os soldados britânicos e franceses, sob o fogo incessante da Força Aérea alemã. Ao final de uma semana (de 24 de maio a 4 de junho de 1940), os quarenta mil soldados que Churchill pretendia salvar transformaram-se em quase quatrocentos mil. Ele sintetizou o significado do episódio na seguinte sentença:

Em meio à nossa derrota, a glória refulgiu para a gente da ilha unida e inconquistável; e a história das praias de Dunkirk há de brilhar em qualquer registro que se preserve de nossas aventuras.

Para narrar esses fatos, Nolan emprega um alto grau de realismo e verossimilhança, aliado às suas próprias características de estilo. Como é comum em seus filmes, a narrativa não é linear, a montagem é fluída e há pouca utilização de computação gráfica na confecção dos efeitos especiais (o que, no caso desse filme, demandou uma equipe com milhares de figurantes e a utilização de embarcações e aeronaves militares reais).

À primeira vista, o modo como Nolan logrou envolver-nos em sua narrativa é arriscado. Ele optou por mostrar a retirada de Dunkirk a partir de três cronologias diferentes. Assim, observamos os soldados aliados nas praias de Dunkirk durante uma semana; os marinheiros civis, representados pelo senhor Dawson (Jack Rylance), seu filho Peter e seu amigo George, no mar, pelo período de um dia; e os pilotos da Força Aérea britânica durante uma hora. Às vezes, essas cronologias se cruzam, criando alguns efeitos reveladores.

Por esse motivo, o diretor afirmou ser esse o filme mais experimental de sua carreira. No entanto, ao conformar-se com a sua preferência por narrativas não lineares, tal como já vimos em Following, Amnésia, O Grande Truque etc., ele está também se conformando ao modo particular de sentimento do tempo por parte dos personagens que vivem os acontecimentos mostrados.

É um filme episódico, sem um protagonista definido, mas que é bastante eficiente em criar um movimento gradativo de tensão e em envolver-nos emocionalmente com as situações mostradas. Contribui para essa tensão a economia de diálogos colocada em evidência pela ênfase nos sons próprios da guerra e pela estonteante trilha sonora de Hans Zimmer (cujo frenesi relembra o quarteto de cordas Already It’s Dusk de Górecky e o Black Angels de George Crumb).

2.

No nível simbólico, o filme de Nolan está próximo a obras-primas como A Grande Ilusão, de Jean Renoir, ou Lawrence da Arábia, de David Lean. Ao primeiro, ele se assemelha na qualidade de sugerir um sentido histórico mais profundo partindo da dramatização do cotidiano dos indivíduos nos tempos de grandes conflitos. Ao segundo, se assemelha não apenas no que diz respeito ao elogio da nobreza de alma dos ingleses, mas também à completa imersão da narrativa na circunstância que se quer narrar. Nesse sentido, o litoral francês de Nolan é como o deserto de Lean (ou o Vietnã de Coppola), submergindo os indivíduos ao poder de sua natureza.

Aproveitando a sugestão de Martim Vasques da Cunha e de Alexandre Borges — que identificaram no personagem de Mark Rylance uma alusão ao historiador Christopher Dawson — podemos mesmo entender o retrato cinematográfico de Dunkirk como uma evocação do que Dawson chamava de comunidade espiritual da Europa.

Dawson acreditava que a Europa “não era um continente, mas uma sociedade de povos” e que, subjacente às individualidades de cada uma das nações que formavam essa sociedade, estava uma força unificadora que não era apenas sua estrutura psicológica, mas a sua própria essência. Foi da perda dessa unidade espiritual que emergiu o incontrolável impulso de autodestruição que tomou conta do Ocidente no século XX, na famosa expressão de Soljenítsin.

Com a guerra total, com a ausência de diálogo e a consequente individualização extrema das nações, a unidade espiritual do Ocidente foi quebrada. E a unidade perdida é, em certa medida, resultado da perda do foco na consciência individual. Pois tal unidade era construída principalmente sobre a base da moral cristã, a qual tinha a sua centralidade na consciência individual. Mas a guerra, ao obrigar os irmãos humanos a matarem-se uns aos outros indistintamente, é a essência da amoralidade da coletivização.

Assim, como coloca Dawson, no centro do processo cultural não está mais a consciência do indivíduo, mas entidades abstratas como o Estado, que respondem por ele e que assumem a responsabilidade por seus atos:

O sentimento de culpa perde o seu caráter pessoal para ser reabsorvido na consciência da massa, reaparecendo, é verdade, não mais na velha forma da vingança, mas nos fenômenos do ódio racial e da guerra de classes, pelos quais o senso de culpa torna-se impessoal e é transferido para uma raça culpada ou para uma classe culpada, as quais então se transformam em um bode expiatório psicológico.

Embora o cinema e a guerra (o filme em si e todos os episódios nele mostrados) sejam um exemplo espetacular da tecnocracia denunciada por Dawson, o seu sentido profundo é um índice dos resquícios daquela unidade subjacente; adormecida, mas presente em cada indivíduo que nasceu sob a herança de uma cultura espiritual que lhe transcende e lhe alimenta. Por isso o final do filme foi muito feliz em encerrar com o discurso We shall fight on the beaches, de Churchill. De fato, tal discurso foi proferido pelo estadista ao final do resgate de Dunkirk; mas, além da precisão histórica, suas palavras representam também aquele movimento de forças inconscientes que constituem a herança espiritual da unidade pretendida por Dawson. Um movimento que, no meio do caos, busca pela ordem necessária.

3.

Nesse sentido, ao escolher retratar a retirada de Dunkirk por meio de uma narrativa em rede, poucas vezes optando por um foco subjetivo (apenas o mínimo necessário para o desenvolvimento dos conflitos dentro de alguns episódios), Nolan quis enfatizar a circunstância em que se encontravam aquelas pessoas.

O foco na circunstância serve à construção de uma consciência histórica. Não através exclusivamente da fidedignidade (embora ela exista em certa medida no filme), mas através do poder simbólico de sugestão. Contra a lógica que tornou muitos dos códigos criados pelo homem obsoletos, a conversão de um acontecimento em um fato histórico tem o poder de construir uma consciência histórica, e de incorporar, desse modo, aquela harmonia espiritual tão necessária à convivência da sociedade de povos que era a Europa tal como concebida por Christopher Dawson. Harmonia que constitui, no fundo, o nosso próprio espírito.

De fato, seria pouco significativo para nós se o cinema não fosse capaz de recriar desse modo os acontecimentos históricos importantes.

Ode e elegia. Uma elegia à fúria de automutilação dos homens, ao mal onipotente e invisível que a todo tempo nos assombra com sua eminência, mas uma ode à capacidade humana de reencontrar a glória, enformada por um nível de realização técnica que é, em si, uma ode ao seu meio de expressão: Uma homenagem ao poder narrativo do cinema e à sua própria importância histórica.

Leandro Costa

Professor formado em Letras pela Universidade Estadual do Paraná. Escreve sobre cinema no site Persona.