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Pelo caminho tortuoso sem vacilar

por Amálgama (11/09/2008)

por Pedro Jansen – Há sempre um momento em que você se vê diante de um impasse. A vida do homem adulto é cheia desse tipo de coisa: tomar decisões, tecer comentários, escolher caminhos… Quando uma banda lança um disco novo e este chega às minhas mãos, uma pergunta que eu sempre me faço, como […]

The Walkmen em ensaiopor Pedro Jansen – Há sempre um momento em que você se vê diante de um impasse. A vida do homem adulto é cheia desse tipo de coisa: tomar decisões, tecer comentários, escolher caminhos…

Quando uma banda lança um disco novo e este chega às minhas mãos, uma pergunta que eu sempre me faço, como forma de exercitar o raciocínio, é o que aquele material quer expressar. É um momento da banda?, é cara-de-pau deslavada?, é um disco para fazer dinheiro fácil?… E por aí vai. São diversas as possibilidades. E nenhuma serve como opinião definitiva a respeito. É preciso enxergar além.

Ao conhecer o The Walkmen, em meados de 2004, tive a nítida impressão de que poderia gostar daquela banda para sempre. Era como se eu tivesse conhecido um novo The Strokes (só que mais criativo) ou um novo Led Zeppelin. Cada música escutada era uma surpresa e um arrepio diferente, uma sensação de estar diante de algo que eu poderia admirar indefinidamente, tamanha era a pungência das canções de Everyone who pretended to like me is gone (2002) e Bows + Arrows (2004).

Então veio 2006 e o lançamento de dois discos do Walkmen que me fizeram pensar muito bem a respeito do que representavam para mim: A hundred miles off e Pussy cats. O primeiro, com inéditas do grupo; o segundo, uma regravação do clássico de Harry Nilsson, gravado em 1974 e produzido por John Lennon.

Nos dois primeiros discos da banda, existem “intros”. “They’re winning”, do Everyone, e “What’s in it for me”, do Bows, começam devagar, num clima de “vamos começar a brincadeira com calma”. Já o A hundred miles off quebra essa idéia e inicia já com uma canção ainda com os timbres do The Walkmen, mas mostrando que Paul Maroon (guitarra, piano), Walter Martin (orgão/baixo), Matt Barrick (bateria), Peter Bauer (baixo/orgão) e Hamilton Leithauser (vocais/guitarra) já pensavam em fazer algo diferente. No Pussy cats, como um disco de covers e maldito dentro da banda (como deram entender numa FAQ que ficava disponível em seu site oficial), não há essa idéia e é um álbum que pode ser facilmente ignorado dentro da discografia dos rapazes. O primeiro era criativo, mas diferente. O segundo era dispensável. Acabava ali a minha admiração pelo The Walkmen?

Então chegamos a You & Me (Gigantic, 2008). Quando ouvi o disco pela primeira vez, não soube o que dizer a respeito. Bom? Ruim? Inspirado? Mais do mesmo? Simplesmente não sabia. E me preocupei. Foi preciso escutar bem, várias e várias vezes, para entender que aquele ainda é um material que dá pistas dos novos caminhos da banda, sem revelá-los completamente. Em A hundred miles há músicas bem rápidas, mas diferentes dos moldes que a banda apostava. Aqui em You & Me, as faixas rápidas praticamente desapareceram. “In the New Year” (as festas de fim de ano são um tema recorrente na obra dos rapazes) é a única que ainda mantém um pouco da banda que o Walkmen foi.

E não há nada de errado nisso. Absolutamente nada. As 14 canções lá contidas são (agora posso dizer) inspiradas e tocantes, sem cair na pieguice. É fato que o Walkmen não é uma banda dada a falar de amor nas suas canções. Ou é, mas de uma maneira peculiar, sem abusar das imagens usuais. Falam de relacionamentos sem nunca abusar do açúcar no processo. São justos até nisso.

A banda continua afiada, com seus teclados em camadas e bateria fantástica e emocionante (fazendo a cama para os riffs e melodias das guitarras). A voz de Leithauser, caso a parte, é impossível de ser ignorada, mesmo que por vezes ele emule um pouco de Bob Dylan e de Bono Vox. Ainda assim, mais e mais, o vocalista consegue firmar sua identidade: gritos e agudos precisos e urgentes.

Se os outros lançamentos atendiam bem ao propósito de emocionar pela violência das músicas, You & Me demonstra ser um trabalho ideal para se ouvir no fim de uma tarde de domingo, conversando na varanda com um amigo ou com alguém que se gosta, ou talvez lendo um livro, ou ainda antes de ir dormir. Este Walkmen não é mais um grupo que atenda às batidas secas de uma pista de dança. Esses dias, mesmo que não necessariamente de forma perpétua, estão para trás. E olhar adiante, para o futuro do The Walkmen, a mim, como fã, é bastante animador. Mostra um grupo criativo, ousado e, na sua essência, disposto a experimentar.

Amálgama

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