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por Guto Maia * O que como texto Quero comer o que escrevo até me empanturrar. Até virar suco do que escrevo e não mais me reconhecer. Para isso, leio sem parar, tudo que me cai nas mãos. Recentemente, descobri o prazer de ler na tela. Maravilhoso. Sempre é preciso de tempo, esse algoz e […]

["Mulher bailarina repousa", de Guto Maia]por Guto Maia *

O que como texto
Quero comer o que escrevo até me empanturrar. Até virar suco do que escrevo e não mais me reconhecer. Para isso, leio sem parar, tudo que me cai nas mãos. Recentemente, descobri o prazer de ler na tela. Maravilhoso. Sempre é preciso de tempo, esse algoz e cúmplice (depende, se estamos de frente ou de costas pra ele, se estamos indo ou voltando), que é o bem mais precioso que prezo e de que nem sempre disponho. E, também o mais desperdiçado por aí, no trânsito, nas filas, nos quartos sombrios, nas relações sem futuro, nas faculdades incompletadas por engano…

Tempo de aprender, tempo de plantar, amadurecer, renascer… Então, cato mais um pouco do seu tempo aqui, outro pedaço ali, de alguém que o esqueceu; outro, que ninguém viu passar, outro rasgado que ninguém quis acolá; e vou juntando tudo numa colcha de retalhos de pensamentos, um patchwork colorido de lembranças que vira um tecido de sentimento, dou um acabamento e, pronto!, um pedaço de vida que parece novo. Um dedo de prosa a mais, na costura, uma boa risada, uma lágrima que ninguém viu… E vem o arremate. Feito o acabamento, mostro o resultado, orgulhoso e, às vezes, até emocionado – coisa besta de quem escreve e quer ser lido, e alguém falará: “puxa isso parece que fui eu que escrevi! Tem tudo a ver comigo. É a minha cara!”. Aí, penso: “eu, que achava que estava sendo original…” Como sou burro.

 
O que como carne e osso
Hoje visitei seres virtuais, que são de carne e osso, como eu (como eu?). A tecnologia me transporta, mas quem me ensina são eles, de carne osso (não mais como eu, mas como texto! Como texto?). Não existem tutoriais criados, monitorados, aplicativos testados e avaliados apenas pela inteligência artificial do sistema binário. Tem que ter carne e osso no meio. Definindo: computadores são máquinas de triturar carne e osso. A idiotização fica por conta da nossa própria escolha pessoal e intransferível.

Os motivos dessa escolha são outro departamento. São portas para outra discussão, que não vem ao caso. Eu sou só o que como. Tenho escolhas… Procuro meus iguais, portanto. Mas, quando meus iguais não me consideram um igual, sofro, então sou obrigado a procurar minha turma. Quando a encontro, fico feliz. Então, essa é a minha turma? Que bom, minha turma! Sinto-me seguro, acolhido, protegido pela minha turma. Finalmente, encontrei minha turma. Mas aí, acontece aquilo de novo…

 
O que como ferida
Um dia acordei, e vi que eu não era exatamente aquilo. Não queria ser exatamente somente aquilo. Não conseguiria jamais chegar a ser exatamente aquilo. Decididamente, eu não queria me tornar, viver e morrer somente aquilo. Então, fui sumariamente expulso de novo, por mim mesmo. Fui procurar minha turma de novo. Ou nova turma novamente. E, eis-me aqui de novo, batendo na tua porta… Voltei, agora pra ficar. Ficar? Ficar, o cacete! Certamente (ainda) não! Pensa que sou burro? Burro eu era no texto de cima. Agora não!

Tô só tomando fôlego. Não gosto da tua mão gelada. Gente do nosso barro, quanto mais instigada, mais aguerrida fica. Somos como o touro na arena. Quanto mais pares de banderilhas no lombo, mais agressivo ele se torna. A única diferença é que o touro não sabe quem vai morrer primeiro. Nós sabemos. Torquato dizia: “Leve um boi e um homem ao matadouro. Quem berrar mais na hora da morte, é o homem, nem que seja o touro!” Demorei para entender essa frase humanista e bovina, talvez, porque sou um pouco burro… Mas a arte tem dessas coisas que a própria razão desconhece, não são para serem entendidas, apenas sentidas. Quem se expressa na arte, lambe tanto a ferida que fica impossível cicatrizar.

 
* Guto Maia é paulistano. Músico e artista multimídia, há 13 anos atua no duo DoisdoBrasil, com Rossana Rosengarten, que executa música brasileira em hotéis, eventos e viagens. Escreveu e dirigiu, entre outras, a peça “Nunca me vi, sempre me amei!” (Jornada Sesc /1993). Compôs trilhas para teatro, vídeo e festivais. Blog: Canal do Nicolau.

Amálgama

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