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por Paulo Vilmar * – Era cedo, muito cedo, ainda mais para um notívago, quando ela chegou batendo a porta de uma forma que não era do seu modo de ser. Foi até a cozinha e fiquei imaginando o que estaria fazendo, mas não foi preciso adivinhar, pois ouvi perfeita e atentamente a colherinha batendo […]

por Paulo Vilmar * – Era cedo, muito cedo, ainda mais para um notívago, quando ela chegou batendo a porta de uma forma que não era do seu modo de ser. Foi até a cozinha e fiquei imaginando o que estaria fazendo, mas não foi preciso adivinhar, pois ouvi perfeita e atentamente a colherinha batendo no vidro do copo, em círculos ritmados, misturando o chocolate ao leite. Ao tomar o primeiro gole devia estar linda, com bigodes chocolates. Meu lirismo foi todo embora quando a ouvi correndo para o banheiro e lançando fora, na água do vaso, o recém tomado leite com chocolate. Quando o choro compulsivo iniciou-se, senti que era hora de levantar e tentar descobrir o que estava acontecendo.

Conheci Vera Regina na universidade, aproximadamente oito meses antes deste episódio, pernas longas, cabelo curtinho, um sorriso que quase nunca vinha, mas que quando se mostrava por inteiro, desmanchava até a sisudez milenar do Padre Ernesto, professor de ética (acho que ética medieval). Tinha um metro e setenta e dois e dois concursos de beleza no currículo, além de uma inteligência apreciável (isso descobri depois) e uma visão de mundo que às vezes chocava-se com a minha.

Depois de uma série de coincidências, onde nos encontrávamos nos lugares mais esquisitos, tipo num parque infantil, comendo algodão doce e passeando sem nenhum compromisso, ou no pré-lançamento de um filme do Woddy Alen, a meia noite, num cinema cult, de rua, debaixo de um temporal, onde só havia mais umas seis ou sete pessoas. Por isso, quando a encontrei no corredor das sociais, sozinha, não resisti, convidei-a para tomar uma cerveja num boteco que havia ali perto e, para espanto meu, ela aceitou.

Nunca vou esquecer nossa primeira transa, não pela performance, que nem lembro, mas porque aquela noite ela dormiu no meu apartamento e, antes de Morfeu me levar, ouvi ela falando baixinho virada de costas. Com minha invejável educação comecei a perguntar o que ela estava a murmurar. Ela levantou a cabeça, sorriu e simplesmente disse que estava rezando e agradecendo a noite! Naquela noite, eu, ateu, dormi com um anjo, não sem antes ter dado uma sonora gargalhada e quase ter botado tudo a perder.

Bem, como já havia dito, naquela manhã resolvi ver o que acontecia com meu amor, que passava mal, assim, com um simples leite com chocolate, e ainda batia a porta do apartamento, algo que nunca vira ela fazendo. Já recomposta e sentada no vaso, com um pedaço de papel higiênico na mão, limpando a boca, disse, sem qualquer cerimônia ou preparação, que estava grávida.

Como uma bala perdida atinge crianças no Rio, eu senti-me atingido por um petardo atordoante. Homens ainda agem como seus belos e trogloditas antepassados, e eu não fui exceção. Disse-lhe para não se preocupar, que eu me casava com ela, e em minha imaginação isso resolvia todos os problemas. O choro voltou, alguns decibéis acima e com pinta de que não iria terminar tão cedo. Abracei-a, ajoelhado em frente ao vaso, e ficamos assim por um bom tempo, achei que aquilo queria dizer um sim, eu me caso com você! Qual o quê!

Enquanto a cafeteira preparava o café, ela começou a enumerar mil quinhentas e treze razões por que aquilo não devia estar acontecendo. Ela fazia psico e estava no último semestre, tinha uma bolsa engatada para uma pós na Inglaterra, assim que se formasse. Eu fazia Direito, estava no segundo semestre, não trabalhava e não tinha idéia do que iria fazer de minha vida após minha longínqua formatura. Uma criança naquele momento de nossas vidas, para um casal que nunca havia falado em planos futuros, nem tinha pensado em casamento ou morar juntos, ou…, seria um atraso, seria a abdicação de viver, seria desistir de tudo, não para mim, mas certamente para Vera. O vizinho futuro apontava uma bela encruzilhada, daquelas que só acontecem aos outros. Eu não via muita mudança em minha vida e, confesso, naquele momento até curtia a idéia de ser pai, achava engraçado, mas Vera não pensava assim. Sua vida tinha dois caminhos distintos, com o bebê ela talvez conseguisse se formar, mas nada de Inglaterra ou pós ou planos sonhados há anos. Sem a criança, sua vida seguiria os planos traçados e seu projeto de ser mãe se consolidaria, na data certa, no momento esperado, não assim, como um raio caído no pátio em dia ensolarado de verão.

Aborto! Até a palavra me assustava, mas Vera havia tomado a decisão. Fiquei desapontado por ver que minha palavra de nada valia para esta decisão, mas aos poucos fui concordando que não seria eu que carregaria alguém na barriga, por longos nove meses, não seria eu quem amamentaria por mais de um ano, que abdicaria dos sonhos, da própria realização profissional, por causa de um ser que se apresentava ali por falha de uma camisinha mal testada, da indústria nacional…

Aonde? Juntamos algum dinheiro e fomos pesquisar “clínicas” para o nosso objetivo. Surpreendi-me com o número de opções que haviam; tudo era, no fundo, apenas uma questão de quanto dispuséssemos para a cirurgia! Sim, no nosso caso, pudemos optar por uma clínica que tinha inclusive uma espécie de CTI, mas chegamos a conhecer verdadeiras espeluncas, onde parteiras faziam o serviço com alguns comprimidos de Citotec e “instrumentos” que mais pareciam agulhas de tricô ou de medievais torturas.

Mesmo com toda a segurança, não foi fácil realizarmos o aborto, havia o lado psicológico que a todo o momento nos perguntava se era aquele mesmo o caminho, havia a culpa, inculcada pela Igreja (e Vera era muito católica), e havia, claro, a cirurgia em si, que é uma grande agressão ao corpo. Naquele peregrinar todo fui forjando minha opinião sobre o aborto. É uma realidade que não pode ser negada com palavras de ordens ou com pregações infanto-religiosas. Numa simples pesquisa feita por endereços que amigos dispunham contabilizamos mais de vinte, em pouco mais de dois dias (estamos falando das bacanas). Mas talvez a conclusão mais significativa a que cheguei tenha sido a de que é uma decisão íntima, dolorida, e unicamente do universo feminino! Homem nenhum pode dizer sim ou não ao aborto, a carga da decisão, sim ou não, nunca caiu sobre ele, a nós cabe aceitarmos e procuramos ajudar, qualquer que seja a decisão de nossa companheira.

Vera formou-se, ficou dois anos na Inglaterra, mora hoje nos Estados Unidos, onde é professora universitária, casou-se e teve dois filhos. Nosso namoro durou apenas até o verão, depois do aborto, nunca mais falamos sobre o fato. Às vezes trocamos algumas amabilidades pelo Orkut, mas tenho certeza que se o tempo voltasse e de novo nos debruçássemos sobre a decisão a ser tomada, ela não hesitaria em decidir-se novamente pelo aborto.

No verão seguinte, fiquei duas semanas no Rio de Janeiro, no Posto 6, chorei a sua ausência, mas depois apareceram latas na praia…

 
* Paulo Vilmar é advogado e mora em Santa Maria-RS. Blog: http://caldodetipos.blogspot.com/

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