PESQUISA

Voe, pombinha, voe!

por Amálgama (23/09/2008)

Por Uri Avnery * – As pesquisas erraram, como sempre. E erraram feio. Como quase sempre. Em vez de enorme diferença, como previam as pesquisas até o último momento, foi vitória apertadíssima. Dos cerca de 72 mil membros registrados do Kadima, apenas 39.331 deram-se o trabalho de votar nas primárias do partido; e ela derrotou […]

Primeira-ministra israelense Tzipi LivniPor Uri Avnery * – As pesquisas erraram, como sempre. E erraram feio. Como quase sempre. Em vez de enorme diferença, como previam as pesquisas até o último momento, foi vitória apertadíssima. Dos cerca de 72 mil membros registrados do Kadima, apenas 39.331 deram-se o trabalho de votar nas primárias do partido; e ela derrotou Shaul Mofaz por apenas 431 votos. Mas maioria é maioria. Tzipi Livni foi devidamente eleita líder do Kadima, em Israel.

O que isso nos diz, sobre o público israelense? Primeiro de tudo: é a vitória de alguém que não tem passado militar, sobre alguém que praticamente só tem passado militar. Aconselhado por Stanley Greenberg, estrategista político norte-americano e de direita que trabalhou para ele, Mofaz deu ênfase à palavra “segurança” em praticamente todas as suas frases. Num programa muito popular de televisão, a coisa apareceu como paródia: segurança, segurança, segurança, segurança.

Bem, não funcionou. O general, O comandante do Estado-maior do Exército, O ministro da Defesa foi derrotado por uma mulher sem experiência militar (embora, sim, ela tenha trabalhado por 15 anos no Mossad). Nada disso implica que Tzipi Livni não possa converter-se em senhora da guerra, como Elisabete I, Catarina a Grande, Margarete Thatcher e Indira Gandhi. Mas fato é fato: os eleitores do Kadima preferiram uma mulher não-general, a um general.

Sobretudo, o Kadima é partido de centro, é o centro do centro. Os membros do Kadima não são a favor de nada, nem à direita nem à esquerda, não têm qualquer convicção firme sobre seja o que for. Portanto, a decisão de elegerem Livni pode ser vista como reflexo de uma tendência generalizada.

Mofaz apresentou-se não só como Mr. Segurança, mas como de alguma direita genuína, homem que se opõe tanto à paz com a Síria quanto à paz com a Palestina, líder disposto a construir uma coalizão de direita, inclusive com a extrema direita. Autodeclarou-se favorável à guerra-sem-fim. Tzipi Livni apresentou-se, ela mesma, como personificação do esforço de paz, a mulher que conduziu negociações com os palestinenses, que prefere a diplomacia à guerra, que indica a via para o fim do conflito. Tudo pode parecer falso, discurso para enganar. Talvez não haja qualquer diferença entre os dois. Mas ainda que isso fosse verdade, não seria o aspecto mais importante. Fato importante é que os eleitores do Kadima, o grupo de opinião mais representativo em Israel, deu a vitória – sim, por margem bem magra de votos – à candidata que, no mínimo, fingiu ser a favor da paz.

No poema “A segunda vinda”, o poeta irlandês W. B. Yeats fala do pleno caos: “Tudo se desmancha no ar. O centro não detém / a imensa anarquia solta sobre o mundo.” A metáfora tem história militar: no passado, os exércitos, ao se organizarem para as batalhas, punham a força principal no centro, com forças mais leves para defender os dois flancos. Enquanto o centro estivesse preservado, tudo andava bem. Em Israel, hoje, o centro ainda está preservado. O partido centrista elegeu a mulher do centro. Também se pode pensar de outro modo: em Israel, em 2008, as forças estão igualmente divididas entre “Direita” e “Esquerda”, e a “Esquerda” venceu, com diferença mínima, a menor possível.

Lembro das eleições de há nove anos. Em maio de 1999, Ehud Barak obteve vitória decisiva sobre Binyamin Netanyahu, então no poder: 56,08% contra 43,92%, diferença de 388.546 votos. O público estava farto de Netanyahu. A resposta foi indiscutível. O sentimento generalizado, no campo da paz, foi de alívio, da servidão à liberdade, sair de uma era de fracasso e corrupção, para uma era de paz e bem-estar. Sem convocações, sem planejamento, multidões acorreram à Praça Rabin, em Telavive, a mesma praça na qual um primeiro-ministro havia sido assassinado quatro anos antes. Também corri para a praça.

Ali, na praça, a atmosfera era embriagadora. As pessoas dançavam, abraçavam-se, beijavam-se. Telavive nada vira de semelhante desde novembro de 1947, quando a Assembléia Geral das Nações Unidas decidiu criar um Estado judeu (e outro árabe). Vivi cena semelhante também em abril de 1948, quando era soldado do esquadrão que levou um comboio de alimentos e remédios a Jerusalém Oeste, que passava fome. E vê-se atmosfera semelhante também nos filmes que mostram a entrada de Charles de Gaulle na Paris liberada.

Ehud Barak prometera ser um segundo Rabin, só que ainda mais Rabin. Prometeu fazer a paz com os palestinos em poucos meses. Um futuro cor-de-rosa aquecia o horizonte, “a aurora de um novo dia”. Ano e meio depois, já nada restou daquelas promessas. Ehud Barak, o herói da paz, condenou-nos ao maior desastre nos anais da luta pela paz. Voltou da conferência de Camp David, que aconteceu porque ele a convocou, com palavras que virariam mantra: “Afastei todas as pedras que havia no estrada da paz / Ofereci aos palestinenses termos mais generosos do que jamais ouviram / Árafate rejeitou tudo que lhe levei / Não temos parceiros para a paz.”
 
Com 20 palavras em hebraico, Barak destruiu o campo da paz e implantou na opinião pública uma idéia que nem Netanyahu jamais conseguira implantar: que não havia possibilidade de paz; que estávamos condenados à guerra eterna.

Portanto, ninguém entusiasmou-se demais com a vitória de Tzipi Livni. Ninguém acorreu à praça, não houve dança nem beijos e abraços – e não apenas porque foi eleição apenas no partido Kadima. A reação geral foi um suspiro de alívio e um dar de ombros. O Kadima elegeu novo líder. Então, há novo primeiro-ministro. Então – temos de esperar e ver.
 
Mas, o quê, afinal de contas, se pode esperar?
 
Já há piadas que aproximam Tzipi e os Tzipiot (tzipiot em hebraico significa “esperanças”, “expectativas”), uma nova banda de rock que está pondo o pé na estrada. Ninguém sabe que tipo de primeira-ministra Tzipi será. Se forte, se fraca. Determinada, ou cediça, corriqueira, frágil ante pressões. De palavra, ou de conversa fiada. Bicho de guerra ou construtora da paz.
 
Pode-se no máximo lembrar seu retrospecto.

À véspera das eleições, num desses questionários de bate-pronto que a mídia adora, perguntaram-lhe quem é seu herói. Resposta dela: Jabotinsky. Não poderia haver resposta mais previsível. Tzipi Livni nasceu e cresceu num lar Revisionista. É Revisionista modelo 2008. O que significa isso?
 
Seu pai, Eitan, nascido em Grodno (cidade que pertenceu à Lituânia, à Polônia e à Rússia, e hoje pertence a Bielorrússia), chegou a Israel com 6 anos e alistou-se no Irgun, clandestino, em 1938 (no mesmo ano em que eu alistei-me), ele, com 19 anos. Viveu toda a vida sob a influência de Ze’ev (Vladimir) Jabotinsky e suas idéias. O Eitan Livni que conheci nunca foi brilhante ou excepcional. Foi homem sólido, leal, como seu nome sugere (eitan, em hebraico, significa “forte”, “firme”), uma pessoa na qual se pode confiar. Serviu o Irgun como oficial de operações, e dentre outras operações, participou de uma ousada fuga da prisão de Acra, onde estava preso. Como membro do Parlamento, pelo partido Herut, do qual nasceu o atual partido Likud, foi deputado inexpressivo, que sempre apoiou Menachem Begin.

Para entender Tzipi, é preciso remontar a Jabotinsky. Seus muitos inimigos muitas vezes o definiram como fascista, mas não me parece que seja definição correta. Nascido no século 19, foi nacionalista à maneira do século 19. Nasceu em Odessa e viveu na Itália, na juventude. Seus heróis foram os líderes do nacionalismo italiano daqueles anos: Giuseppe Mazzini, ideólogo; e Giuseppe Garibaldi, combatente. Jabotinsky queria, como se sabe, que toda a Palestina fosse convertida em Estado judeu. Quando fundou seu partido, nos anos 1920, deu-lhe o nome que correspondia a esse desejo: queria “revisão” da decisão do ingleses, de separar a terra a oeste do rio Jordão da terra a leste do rio (hoje, reino da Jordânia, então chamada Transjordânia). Menina, Tzipi cantava o mais famoso dos hinos de Jabotinsky: “Duas margens o Jordão tem. A de cá é nossa. A de lá, também.”
 
Mas Jabotinsky também foi liberal convicto e convicto democrata. Entrou na arena política pela primeira vez quando formulou o “Plano Helsingfors (Helsinki)”, pelo qual reclamava respeito aos direitos humanos e nacionais para os judeus e outras minorias na Rússia czarista. Quem tenha sido educado por esses valores, enfrenta hoje dilema dificílimo.
 
Anos atrás, os Revisionistas contavam uma piada: para premiar David Ben-Gurion por ter fundado o Estado, Deus prometeu realizar-lhe um desejo. Ben-Gurion pediu que todos os israelenses fossem honestos, inteligentes e membros do partido Trabalhista. “Tudo isso é demais, até para Deus”, Deus respondeu. “Mas concedo que, de hoje em diante, todos os israelenses possam ter duas, dessas três qualidades.” Então, pode acontecer de um israelense ser membro inteligente do partido Trabalhista, mas, nesse caso, não será honesto; e também há israelenses honestos e inteligentes. Mas, nesse caso, não são membros do partido Trabalhista.
 
Alguma coisa parecida com isso está acontecendo hoje com os próprios Revisionistas. Fazem três pedidos: um Estado judeu, um Estado que absorva a Palestina histórica e um Estado democrático. É demais, até pra Deus. Então, os Revisionistas podem ter dois, dos três pedidos: um Estado judeu e democrático em parte da região; um Estado judeu em toda a região, mas que não será democrático; ou um Estado democrático em toda a região, mas que não será judeu. Esse dilema manteve-se inalterado durante os últimos 41 anos.
 
Tzipi Livni, Revisionista fiel a algum Revisionismo-do-bem, anunciou sua escolha: um Estado judeu e democrático, que não incluirá toda a região. (E deixamos para discutir outro dia a questão de saber se um Estado “judeu” poderá ser democrático.)
 
No hebraico coloquial, diferenciamos entre atitudes “nacionais” e atitudes “nacionalistas”. Uma visão nacional reconhece a importância da dimensão nacional na sociedade humana contemporânea e, portanto, também reconhece o nacionalismo de outros povos. Uma visão nacionalista decide que “nós, só nós, nenhum outro”, sempre a “minha” nação über alles.
 
Parece que Tzipi, como seu herói Jabotinsky, adere à visão nacional. Daí que tenha destacado a solução “duas nações-Estado para dois povos”. Fala de um Estado-nação judeu e está pronta a sacrificar a Grande Israel nesse altar. Essa não parece ser base ideal para construir a paz (que status teriam os cidadãos árabes israelenses nesse Estado-nação judeu?), mas é base realista. Se ela tiver poder para implementar suas idéias, talvez possa chegar à paz. Se. Talvez.

Reagindo aos resultados eleitorais, Gideon Levy escreveu que o coração quer ter esperanças, mas o cérebro não consegue ajudá-lo. É reação compreensível. “Tzipi”, redução de “Tzipora”, significa pomba. E fica-se tentado a gritar: “Voe, pombinha, voe bem alto! Não perca tempo, depois de eleita primeira-ministra! Construa um governo de coalizão com as forças da paz, aproveite os primeiros meses de seu mandato para fazer a paz com os palestinenses, convoque eleições e submeta seu nome e o acordo de paz ao teste das urnas! Como a própria Livni já disse, no seu modo direto de falar: “Não há tempo pra conversa fiada!”
 
É o que Ehud Barak deveria ter feito em 2000. Não se arriscou e perdeu a oportunidade. A pomba Tzipora saberá voar até lá? O coração tem esperanças. O cérebro, só dúvidas.

 
* Uri Avnery é jornalista e ativista israelense. Este artigo foi originalmente publicado no site Gush Shalom, dia 20 de setembro, e aqui reproduzido com autorização do autor e da tradutora, Caia Fittipaldi.

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