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Ignorar a ONU pode custar muito (mais) caro

por Amálgama (21/09/2009)

Uri Avnery, no Gush Shalom / 19 de setembro Não haverá limites às vilezas de que são capazes os malditos antissemitas? Agora, aparecem com mais um crime de sangue pespegado aos judeus. Adeus à conversa do massacre de criancinhas cristãs para comer matzoth em molho pardo. O assunto agora é o massacre em massa de […]

Uri Avnery, no Gush Shalom / 19 de setembro

Não haverá limites às vilezas de que são capazes os malditos antissemitas?

Agora, aparecem com mais um crime de sangue pespegado aos judeus. Adeus à conversa do massacre de criancinhas cristãs para comer matzoth em molho pardo. O assunto agora é o massacre em massa de mulheres e crianças em Gaza.

E quem puseram na chefia da comissão encarregada do tal Relatório da ONU? Não um britânico negador-de-Holocausto, nem um alemão neonazista, nem, sequer, um iraniano fanático! Quem lá está é um juiz judeu que leva o nome judeu de Goldstone (originalmente, é claro, Goldstein). E não só judeu com nome judeu! Também sionista, cuja filha, Nicole, é sionista praticante e entusiasta, emigrada para Israel, falante fluente do hebraico. E não só judeu e sionista, mas também sul-africano que lutou contra o apartheid e foi indicado para a Corte Suprema da África do Sul quando o regime foi abolido.

E dizer que os antissemitas fizeram tudo isso só para difamar o mais moral dos exércitos do mundo! – que acaba de vencer mais uma batalha da guerra mais justa dentre todas as guerras justas da história!

E Richard Goldstone não é o único judeu manipulado pela conspiração antissemita universal! Durante as três semanas da Guerra de Gaza, mais de dez mil israelenses manifestaram-se praticamente sem parar – todos contra a Guerra de Gaza! Foram fotografados com faixas em que se lia “Parem o massacre de Gaza!”, “Fim aos crimes de guerra!”, “Israel está praticando crimes de guerra!”, “Bombardear civis é crime de guerra!”. E todos aqueles israelenses cantavam juntos “Olmert, Olmert! Haia te espera!” Quem diria?! Quem diria que há tantos antissemitas em Israel?!

A reação oficial do governo de Israel ao Relatório Goldstone teria sido cômica, se o assunto não fosse tão grave. [clique aqui para acessar o relatório]

Com a exceção dos “suspeitos de sempre” (Gideon Levy, Amira Hass e seu grupo), o Relatório foi unanimemente condenado, total e completamente desqualificado e desmentido por todos, de Shimon Peres – que defende qualquer abominação – ao mais apagado “foca” de todos os jornais.

Ninguém, absolutamente ninguém, enfrentou o tema do relatório. Ninguém examinou as conclusões. Claro. Com o mundo ocupado por antissemitismo amplo, geral e irrestrito, nem seria preciso examinar Relatório algum! De fato, pensando bem… para que, afinal, ler o Relatório?!

O público, apesar de toda a diversidade, reagiu como cabeça única, como foi ensinado a fazer em mil anos de pogroms, Inquisição espanhola e Holocausto. Mentalidade de sítio, mentalidade do ghetto. Em situações desse tipo, a reação instintiva é negar. Não aconteceu. São mentiras. Um amontoado de mentiras.

Como tal, é reação natural. Quando alguém é posto em situação com a qual não sabe lidar, a primeira via de fuga é a negação. Se nada aconteceu, não há sobre o que refletir, nem há problema, nem é preciso lidar com o problema. Basicamente, não há diferença entre os que negam o genocídio dos armênios, os que negam que os nativos da América do Norte foram dizimados e os que negam as atrocidades das guerras.

Desse ponto de vista, só se pode dizer que a negação é quase “normal”. Mas em Israel a negação já atinge status de obra de arte.

Israel tem um método especial para negar e não ver: quando acontece algo que os israelenses não querem enfrentar, eles dirigem os holofotes para algum detalhe específico, bem marginal; e põem-se a falar do detalhe, insistem, debatem, examinam o detalhe de todos os ângulos, como se qualquer detalhe insignificante fosse questão de vida ou morte.

Por exemplo, a guerra do Yom Kippur. Começou porque, por seis anos, a partir da guerra de 1967, Israel navegou como a Nau de Insensatos, intoxicada com cantos de vitória, fotos de vitória, confiante na invencibilidade do exército israelense. Golda Meir tratava o mundo árabe com declarado desprezo e rejeitou todas as aberturas de paz que Anwar Sadat ofereceu-lhe. Resultado: mais de 2.000 jovens israelenses mortos e não se sabe quantos egípcios e sírios.

E o que se discutia furiosamente em Israel? A “omissão”. “Por que os reservistas não foram convocados a tempo? Por que os tanques não avançaram?” – Menachem Begin trovejava no Parlamento. E escreveram-se montanhas de livros e artigos sobre a “omissão”. E reuniu-se uma comissão de juízes da Suprema Corte, para deliberar sobre a “omissão”.

A Primeira Guerra do Líbano foi fracasso político e militar. Durou 18 anos, gerou o Hezbolá e fê-lo crescer até converter-se numa força regional. E, enquanto isso, Israel discutia o quê? Se Ariel Sharon havia enganado Begin e se seria culpado por sua doença e morte.

A Segunda Guerra do Líbano foi desgraça do começo ao fim, guerra supérflua, que causou destruição em massa, massacre de civis, expulsão e fuga de milhares de inocentes de suas casas; e não terminou com vitória de Israel. E, enquanto isso, Israel discutia o quê? O objetivo da comissão de inquérito que foi criada. O processo de decisão que levou à decisão de iniciar a guerra. Israel discutia o processo de tomada de decisões: apropriado? não apropriado? os gabinetes haviam respeitado a hierarquia?

Hoje, não há em Israel qualquer tipo de discussão sobre a Guerra de Gaza. Isso, porque foi tudo perfeito. Campanha brilhante. Liderança política e militar ainda mais ofuscantemente brilhante. Sim, ok: Israel não conseguiu convencer a população da Faixa de Gaza a derrubar o governo do Hamas; não obteve a libertação do soldado Gilad Shalit, que continua prisioneiro; foi condenado por toda a comunidade internacional. Ok. Ok. Mas Israel matou muitos árabes, envenenou o meio ambiente, ensinou uma lição que nenhum árabe jamais esquecerá.

E agora, então, Israel “discute” o Relatório Goldstone. Não, é claro que ninguém está discutindo o conteúdo do Relatório Goldstone! Claro que não! Discutir que conteúdo? Que conteúdo haveria no Relatório Goldstone?!

Israel discute algo muito mais importante que o conteúdo do Relatório Goldstone. Discute se seu governo acertou ao decidir boicotar a Comissão da ONU! Acertou? Não acertou? Talvez devesse ter participado das discussões? Será que o ministério do exterior, outra vez, reagiu como perfeito louco? (Israel discute o ministério do exterior, porque o ministério da Defesa, esse, é indiscutível porque infalível e perfeito, claro.) Dezenas de milhares de palavras sobre aquela questão crucial para os destinos do mundo são vomitadas pelos jornais, pelas rádios, pelos canais de televisão; cada “âncora” ajunta à montanha a sua pá de palavrório.

Então… por que o governo de Israel boicotou a Comissão da ONU? A resposta verdadeira é simples: Israel sempre soube que a Comissão – e qualquer outra comissão – concluiria exatamente as conclusões agora concluídas e divulgadas.

De fato, a Comissão não divulgou nenhum fato novo, ou que já não fosse conhecido de todos: Israel bombardeou bairros residenciais civis; Israel usou dardos e bombas de fósforo branco contra alvos civis; Israel bombardeou mesquitas e escolas; Israel bloqueou a passagem de comboios de ambulâncias e de comboios de resgate de feridos; Israel matou civis protegidos por bandeira branca; Israel usou escudos humanos e o mais, já conhecido.

* * *

O exército de Israel não permitiu que jornalistas acompanhassem suas incursões, mas, mesmo assim, a guerra foi amplamente documentada pela imprensa internacional em todos os detalhes. Todo o planeta assistiu à guerra, em tempo real, nas telas de televisão. Os testemunhos são tantos e tão consistentes, que qualquer pessoa razoável chegaria às mesmas conclusões a que chegou a Comissão da ONU.

Se os oficiais e soldados do exército de Israel tivessem testemunhado, a comissão conheceria também a opinião deles sobre a guerra – o medo, a confusão, a falta de comando. E as conclusões da Comissão talvez fossem um pouco menos severas. Mas o teor geral não mudaria.

Afinal, toda a operação que levou à Guerra de Gaza baseou-se no pressuposto de que seria possível derrubar o governo do Hamas, pela via de provocar insuportável sofrimento à população palestina. O morticínio de civis palestinos na Guerra de Gaza não foi “dano colateral” evitável ou inevitável: foi o elemento central, o objetivo, de fato, de toda a operação.

Além disso, as regras daquela operação foram pensadas para garantir “zero baixas” no exército de Israel – evitar baixas a qualquer preço. Essa lição o exército de Israel – comandado por Gabi Ashkenazi – aprendeu na Segunda Guerra do Líbano. Os números de Gaza falam por eles mesmos: 200 palestinos mortos por soldado israelense morto.

Qualquer investigação séria chegaria exatamente às conclusões a que chegou a Comissão Goldstone; e aí está o motivo pelo qual Israel jamais se interessou por qualquer investigação séria. As “investigações”’ conduzidas pelo exército de Israel foram uma completa farsa. O principal responsável por elas foi o Advogado-Geral do Exército, brigadeiro-de-kippa Avichai Mendelblit. Essa semana, foi promovido a major-general-de-kippa. A promoção e o momento da promoção são (muito) eloquentes.

Portanto, é claro que não há qualquer chance do o governo de Israel instaurar qualquer investigação séria, como exigiram os ativistas israelenses pela paz.

Para ser confiável, a investigação teria de ser conduzida como Comissão Estatal, no termos da lei israelense, como ação de investigação conduzida pela Suprema Corte. As investigações teriam de ser divulgadas, com pleno acesso garantido à imprensa israelense e internacional. Teria de ouvir as vítimas, os habitantes de Gaza, para que também prestassem depoimento, como os soldados que combateram. Teriam de ser investigados todos os detalhes de cada acusação agora formalizada no Relatório Goldstone. Teriam de ser analisadas todas as ordens e decisões do comando, desde o comandante do estado-maior do Exército até os comandantes de esquadrão. Todos os relatos dos pilotos da Força Aérea teriam de ser analisados, bem como os relatos dos operadores de teleguiados.

Basta essa lista para que se entenda por que jamais haverá esse tipo de investigação. Em vez disso, a máquina de propaganda planetária pró-Israel continuará a difamar um juiz judeu e os que o indicaram.

Não que as acusações que Israel tem feito à ONU sejam completamente sem fundamento. Por exemplo: por que a ONU investiga os crimes de guerra cometidos em Gaza (e na ex-Iugoslávia e em Darfur, investigações nas quais Goldstone participou, como principal acusador), mas não investiga as ações dos norte-americanos no Afeganistão, ou dos russos na Chechênia?

Mas o principal argumento do governo de Israel é que a ONU seria organização antissemita, como também os membros da Comissão de Direitos Humanos, todos antissemitas.

As relações entre Israel e a ONU são muito complexas. O Estado de Israel foi criado por uma resolução da ONU – e nada garantiria que ele existisse, não fosse aquela resolução. A Declaração de Independência de Israel também é, em larga medida, baseada naquela resolução. Um ano depois, Israel foi admitido como membro da ONU, apesar de não ter reconhecido o direito de retorno aos (então) 750 mil refugiados palestinos.

Mas essa lua-de-mel durou pouco. David Ben-Gurion falou da ONU com desprezo (“UM-Shmum” – é expressão dele. “UM” é o equivalente, em hebraico, a “ONU”; e o prefixo “shm” significa “desprezo”). Desde então, até hoje, Israel viola sistemática e praticamente todas as resoluções da ONU que lhe dizem respeito, e reclama que lá haveria uma “maioria automática” de países árabes e de países comunistas organizada contra Israel. Essa atitude foi reforçada quando, às vésperas da Guerra de 1967, os soldados da ONU no Sinai foram retirados precipitadamente, a pedido de Gamal Abd-al-Nasser. E há também, é claro, aquela resolução da ONU (depois anulada) que declarava o sionismo uma modalidade de racismo.

Agora, a discussão está outra vez em todas as cabeças. A ONU, dizem em Israel, seria anti-Israel, o que, claro, significa que a ONU seria antissemita. Qualquer um que aja em nome da ONU seria odiador-de-Israel. A ONU que se lixe! O Relatório Goldstone que se lixe!

Tudo isso é política horrorosamente carente de visão. A opinião pública em todo o mundo está discutindo o Relatório e ainda não esqueceu as imagens da Guerra de Gaza. A ONU ainda é instituição muito respeitada. A partir do início da operação “Chumbo Derretido”, a imagem de Israel no mundo entrou em queda livre, e esse relatório acelerará o processo. Haverá consequências práticas – políticas, militares, econômicas e culturais. Só um idiota – ou algum Avigdor Lieberman – atrever-se-ia a ignorar essa evidência.

Na ausência de uma investigação israelense séria, claro que haverá quem exija que o Conselho de Segurança da ONU leve a questão à Corte Internacional de Haia. Barack Obama terá de discutir um eventual veto a essa ideia – discussão (e veto) que pode(m) causar grave dano à imagem dos EUA. Nesse caso, Obama estará em posição de cobrar de Israel algum preço muito alto.

Já se falou de “ONU-Shmum”. Pode virar “ONU-Bumm”. Ou “Israel-Bumm”.

* tradução: Caia Fittipaldi

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