PESQUISA

A liberdade de imprensa e o voto escancarado

por João Villaverde (27/09/2010)

JOÃO VILLAVERDE - Como uma empresa privada, o Estadão tem direito de defender uma candidatura

por João Villaverde – O Estadão está certo. Assumir que defende uma candidatura à Presidência da República é algo perfeitamente compatível com um jornal: ele pode tomar posições. Seria bom que a decisão editorial do dono do veículo não respingasse para o noticiário em si, mas, mesmo que contamine, também não há problema algum.

O Estadão é uma empresa privada e, como tal, tem todo o direito de defender a posição que quiser. Como se trata de uma empresa de comunicação, pode, inclusive, noticiar o que quiser, da forma que quiser. Nada o impede disso. Os únicos limites que uma empresa de comunicação privada deve ter são os mesmos de qualquer outra empresa, de qualquer outro segmento econômico: não desmoralizar o outro, seja ele quem for, sem comprovar. De outra forma, o jornal pode fazer o que quiser.

Assim como o sócio de uma empresa de cosméticos pode se lançar candidato à vice-presidente da República – como é o caso de Guilherme Leal, da Natura, vice de Marina Silva (PV) – um jornal pode e deve sim definir seu lado, se tiver um.

Ontem, o Estadão publicou, em editorial, um ataque ao governo que se encerra em três meses e defendeu a candidatura de José Serra (PSDB) à Presidência. No mesmo editorial, o Estadão foi incoerente e coerente. Me explico.

Foi coerente porque em 2006 já apoiara Geraldo Alckmin (PSDB) e quatro anos antes José Serra (PSDB). Em 1989, apoiara Fernando Collor de Mello (então pelo PRN). Essa posição do Estadão, de definir candidatos e posições, não é nova. Não vêm da redemocratização. Em 1932, o Estadão já defendia, com todas as letras, as revoltas dos paulistas que clamavam uma constituição a Getúlio Vargas, que tomara o poder dois anos antes com a promessa de realizar uma constituinte – promessa essa só colocada em prática quatro anos depois de assumir e dois anos depois da “revolução” de 1932.

Os argumentos do Estadão para defender seu candidato são corretos e coerentes. É ótimo que o Estadão tenha procedido desta forma.

No entanto, o mesmo editorial foi incoerente porque ataca, entre outros aspectos do governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ser “autoritário” e “contrário à liberdade de imprensa”. Vejamos: o próprio Estadão, em seus editoriais, critica o governo sistematicamente há oito anos. Tem liberdade maior que essa?

Acredito que não. Mas posso estar errado.

Não é certo, também, que o presidente, como chefe do Estado, critique os jornais, especialmente quando o faz nominalmente. Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito e reeleito presidente da República e goza de uma aprovação de 79% dos brasileiros – são 150,8 milhões de pessoas que respondem “sim” quando perguntados se aprovam o governo. Por isso, Lula deve se ocupar de outras responsabilidades – as mesmas que lhe garantiram uma aprovação histórica – e não criticar os jornais. A não ser, é claro, quando estes publicarem informações sem verificar ou sem provas. Isso, no entanto, é outra discussão.

Seja como for, o Estadão colocou suas peças no tabuleiro. Na imprensa brasileira, apenas a CartaCapital também faz isso – para o outro lado. Apoia a candidata do governo, Dilma Rousseff (PT), como já apoiara Lula em 2002 e 2006.

As pessoas que criticam o Estadão por declarar voto esquecem-se da CartaCapital. Assim é fácil, né?

Os jornalistas, todos, temos posições políticas. Refiro-me, especialmente, àqueles que cobrem política e economia – não me consta que alguém que escreve sobre a importância da rúcula no bem estar do corpo ou quem cobre as idas e vindas de Fiuk tenha muito que dizer sobre os rumos do país, mas, como em tudo aqui, posso estar enganado.

Então, um veículo ter opinião é parte do jogo. Ninguém deve, em pleno 2010, ficar escandalizado com isso.

Há, no entanto, uma grande discussão aqui, mas ninguém viu. Vamos a ela.

Declarar voto é perfeitamente compatível com a empresa privada e todas têm esse direito. Mas, como são empresas privadas, elas precisam dar lucro, isto é, um dinheiro além daquilo que entra para sustentar os custos com capital, depreciação, folha de pagamento e investimentos. O dono da empresa precisa comer, se vestir e fazer o que quiser com o seu lucro. Se não der lucro, o empresário não existe – ele vai ser funcionário de algum empresário que dá lucro. O jogo funciona assim – claro, até o PCO fazer uma revolução armada e instaurar o maoísmo no Brasil. Falta pouco, companheiros, continuem lutando que dá.

(modo irônico desligado)

A conta que deve ser feita, pensando o modelo de negócios, é até onde um posicionamento político mexe com seu lucro. O sócio da empresa de cosmético certamente calculou – ao lado dos outros sócios, sem dúvida – quais poderiam ser os reflexos à sua empresa para sua decisão política. A empresa poderia vender menos – caso os consumidores rejeitassem seu engajamento – ou ainda, veículos de comunicação que recebem anúncios da empresa de cosmético poderiam negar aquilo se julgassem sua posição danosa à imagem do veículo.

Da mesma forma, o Estadão faz um cálculo político quando se posiciona. Sabe que, para quem não concorda com seu engajamento editorial – não na seção do noticiário –, este posicionamento pode afastar leitores. Pode, também, agregar novos consumidores ao jornal, que se sentem mais à vontade em comprarem, assinarem e lerem o Estadão depois que o jornal assume sua posição. O cálculo do Estadão também leva em conta os anunciantes. Afinal, a base de assinantes é estratégica para garantir os anúncios, que é, como todos sabem, o que paga todos os custos de produção e distribuição.

Tudo é um jogo, político, evidentemente, mas também mercadológico. O Estadão certamente ganha mais simpatia de seus assinantes e anunciantes revelando simpatia por um candidato do PSDB que declarando voto no PCO (Partido da Causa Operária, de vertente leninista).

***

Para quem está chegando agora no mundo da política e da mídia, não se assuste com o editorial de primeira página da edição de ontem da Folha de S. Paulo. Este é um expediente antigo, que os jornais usam de vez em quando. A Folha fez um célebre editorial na primeira página da edição de quinta-feira, 25 de abril de 1991, que chamava a atenção dos leitores para os descaminhos do governo Collor. Chamava-se “Carta Aberta ao sr. Presidente da República” e lembrava, entre outros pontos, da lamentável invasão do jornal promovida por agentes da Polícia Federal em 23 de março do ano anterior – oito dias depois de Collor assumir a Presidência e sete depois de confiscar a poupança dos brasileiros.

O carioca O Globo também usava muito os editoriais na primeira página. Um deles é inesquecível. Foi publicado na edição de 15 de dezembro de 1989, dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais disputadas por Fernando Collor (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Um pequeno trecho:

As ideias de Collor (…) são modernas. Ele prega o restabelecimento da eficiência econômica, na razão direta de um Estado mais magro e mais ágil – como única via para alcançar justiça social. Quer abrir os portos, dinamizar as trocas, aumentar a produção e a produtividade com base na maior liberdade de empreender, e pretende encontrar a saída para os pontos de estrangulamento pela via do diálogo e da inserção dinâmica do País na comunidade das grandes potências. (…) Em Collor é possível depositar esperança, porque suas propostas estão em consonância com os procedimentos que, no resto do Mundo, têm propiciado bem-estar aos povos.

***

Jornais e revistas têm todo o direito de se posicionarem. Emissoras de televisão e rádio não podem: são concessões públicas. Isto é, um consenso da sociedade, por meio do Estado, permite que empresas difusoras de conteúdo em rádio e TV usufruam de uma concessão pública para existirem. À exceção da coisa pública, todos os agentes da sociedade têm total liberdade para definir em quem vão votar. Para isso, devem respeitar a decência de não atacarem o rival – seja ele quem for – sem apresentarem provas.

***

O único ponto que deixo aqui, como reflexão, se preferirem, é se é melhor ou pior se posicionar politicamente. Já vimos que não há problema algum uma empresa privada definir voto, feito seu cálculo mercadológico.

Mas, no limite, se todos se posicionarem, não teremos diálogo. Quer dizer, quem vota no Serra lê o Estadão, quem vota na Dilma lê a CartaCapital, quem vota no Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) ou nos outros zilhões de candidatos da esquerda hiperdividida (PSTU, PCO, PCB, zzzzzz…) lê determinado veículo, quem vota na Marina Silva lê outro, e por aí vai.

É uma situação limite, claro, mas não é o que vemos na blogosfera?

João Villaverde

Jornalista, autor de Perigosas pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil e levou ao fim o governo Dilma Rousseff. Foi pesquisador visitante na Universidade de Columbia, NY, e atualmente é mestrando em administração pública e governo na FGV-SP.