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Alguns livros mais

por Amálgama (16/09/2012)

História sul-americana. História luso-brasileira. Araguaia. Nazismo.

(outros lançamentos que merecem sua atenção, em rápidos comentários – por Daniel Lopes)

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Reedição de uma das obras mais importantes de Moniz Bandeira, que estuda com minúcia as fraternidades e entrechoques nas áreas em que Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai se tocam, com foco na expansão brasileira. O período coberto vai do Brasil Colônia à Guerra do Paraguai. Alguns capítulos parecerão mais interessantes que outros, dependendo dos períodos e aspectos específicos da preferência de cada leitor. Eu apreciei mais a leitura do último capítulo, grande interessado que sou na Guerra do Paraguai. Mas o livro todo é material de primeira, bem pesquisado e escrito. Um exemplo é o capítulo quinto, sobre como a província Cisplatina se tornaria o Uruguai, e como o Brasil se comportou durante todo o processo. / A expansão do Brasil e a formação dos Estados na bacia do Prata, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Civilização Brasileira, 2012, 336 páginas

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Os 18 ensaios desta coletânea apareceram inicialmente como conferências ou publicações em veículos impressos. Organizados agora por ordem cronológica dos eventos que narram, a publicação é um verdadeiro tributo à mente curiosa de Vasco Mariz, carioca nascido em 1921 e diplomata com serviços prestados no Peru, na Iugoslávia e onde mais. As figuras objetos de estudo são mais (D. Pedro I) ou menos (Nicolau de Villegagnon) manjadas do leitor médio, mas o grande atrativo aqui é que, mesmo no caso das personalidades mais manjadas, a atenção é dedicada quase sempre ao, por assim dizer, lado B de cada um. O ensaio sobre D. Pedro I não centra sobre seu período no Brasil, mas em sua vida após o retorno a Portugal. O último ensaio, sobre Nabuco, se preocupa menos com o abolicionista do que com o embaixador na Inglaterra e nos Estados Unidos. E por aí vai. Em tempos em que o brasileiro está lendo mais sobre sua história, um importante lançamento. / Depois da glória: Ensaios sobre personalidades e episódios controvertidos da história do Brasil e de Portugal, Vasco Mariz, Civilização Brasileira, 2012, 378 páginas

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Trabalho de fôlego do jornalista do Estadão Leonencio Nossa. Mata! é, entre muitas outras coisas, uma biografia de Sebastião Rodrigues de Moura, vulgo “Curió”. Nascido em 1934, Sebastião operou, nos anos 1970, na repressão aos guerrilheiros do Araguaia. De forma que o livro de Leonencio é também um passeio pelas ilusões e violências daquele período, e pelas vidas de inúmeros dos personagens envolvidos direta ou indiretamente, do lado das forças de segurança e do lado da guerrilha. Topamos, por exemplo, com o guerrilheiro Cilon da Cunha Brum, tio “desaparecido” que a nossa amiga Liniane Haag Brum jamais chegou a conhecer, mas que lembrou em livro recente, Antes do passado.

Curió deu a Leonencio acesso a seus arquivos dos anos de chumbo no Bico do Papagaio, e estes arquivos ampliam alguns ângulos do nosso entendimento sobre o período. Mata! é portanto, desde já, leitura indispensável aos estudiosos da ditadura militar. E é também um livro de história num sentido mais amplo, na medida em que recapitula os eventos e ondas migratórias que, desde o século 19, moldam a região de encontro dos rios Tocantins e Araguaia e seu entorno.

O número (a sinopse informa que foram mais de 150) e o gabarito das pessoas que prestaram depoimento a Leonencio é por si só impressionante. O modo como o autor conseguiu organizar a montanha de informações e escrever um texto atraente é digno dos maiores créditos. / Mata! – O major Curió e as guerrilhas no Araguaia, Companhia das Letras, 2012, 496 páginas

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Primeiro dos dois volumes de A Alemanha nazista e os judeus. O segundo, que cobre o período da Segunda Guerra, saiu nos EUA em 2007 e no Brasil, há poucos dias. O primeiro, que cobre 1933-39 e saiu em 1997 no original, chegou ao Brasil há coisa de dois meses, traduzido por um time competente e com ótima introdução do professor Roberto Romano. Saul Friedländer, nos dois volumes, analisa o sistema de perseguição e execução dos nazistas, mas os livros se destacam também pelo espaço que dão às vozes das vítimas, não apenas judaicas. (Terras de sangue, de Timothy Snyder, elevou essa característica a um nível insuperável pelos próximos muitos anos.)

Neste breve comentário, queria apenas destacar um dos pontos que mais me intrigaram na narrativa de Friedländer: a reação inicial ao nazismo, tanto dentro da Alemanha quanto fora. Esse tipo de coisa sempre chama minha atenção, apesar de tudo que já sabemos a respeito dos motivos certos e dos motivos quase certos para o corpo mole. Na Alemanha, de longe, a maior subestimação do mal nazista veio de próprios grupos de judeus; isso tá bem posto lá no livro – veja em especial o capítulo dois. A acomodação mais vergonhosa foi a dos intelectuais, e não apenas conservadores. Friedländer aborda entre outras coisas a “judeofobia culta” dos professores universitários; Roberto Romano também se detém com competência sobre o ponto, na introdução.

A acomodação externa foi ampla e irrestrita. E Friedländer mostra como a atitude externa era importante para o regime moderar ou radicalizar suas posições, posto que se importava com o que diziam líderes e entidades globais (estamos falando, claro, do pré-39). “Por que Hitler se opunha ao distintivo amarelo e a guetização pura e simples em dezembro de 1938?”, pergunta-se o autor em seu capítulo nono. “No primeiro caso, a preocupação com respeito à opinião pública alemã e internacional era provavelmente o fator principal.” Em particular, são citados trechos dos diários de Goebbels que mostram expectativa diante da reação iminente da comunidade internacional a um ato específico de terror nazista; quando ela era tênue, os líderes alemães sentiam-se mais à vontade para dar mais uma volta no parafuso. Em nível governamental, poucas reações foram mais vergonhosas que a da França de Daladier e seu chanceler Georges Bonnet, celebrando acordo com a Alemanha nazista para surpresa até da Itália de Mussolini.

Goebbels demonstra bastante insatisfação é com a imprensa. Desgostava-lhe particularmente a estadunidense – que ele evidentemente considerava assaltada por componentes da conspiração judaica mundial. Em 12 de novembro de 1938, pouco depois da Kristallnacht, o ministro da Propaganda escrevia que “a imprensa estrangeira é muito ruim. Principalmente a americana”. Mas imprensa é apenas imprensa. Os governos ainda continuariam a não desagradar Goebbels seriamente por longíssimos meses. / A Alemanha nazista e os judeus – vol. 1: Os anos da perseguição (1933-1939), Saul Friedländer, Perspectiva, 2012, 456 páginas

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