PESQUISA

A favor da guerra contra Assad

por Amálgama (06/09/2013)

Um ataque limitará a formidável capacidade de Assad em infligir sofrimento aos outros

Hussain Abdul-Hussain, em NOW / 28 de agosto

Síria

Se o presidente Obama me chamasse à Casa Branca para perguntar se existe qualquer interesse nacional americano que demande uma intervenção na Síria, eu responderia que não. Se ele me perguntasse se os EUA deveriam intervir, eu diria que sim.

Apesar da brutalidade, a guerra civil síria não apresenta ameaça aos EUA ou seus aliados. Israel tem sido capaz de cuidar de si mesmo, bombardeando vários comboios de armas atravessando a Síria e destinados ao Hezbollah no Líbano. A Turquia tem tirado proveito do uso de drones americanos decolando da base aérea de Incirlik e monitorando suas fronteiras tanto com a Síria quanto com o Iraque. Mísseis da OTAN e mísseis Patriot dos EUA foram estacionados na fronteira turco-síria. Enquanto isso, a Jordânia recebeu vastos recursos em dinheiro para lidar com os refugiados sírios, bem como assistência militar e técnica para conter qualquer eventual precipitação vinda da Síria.

Então os aliados dos EUA estão indo bem. A matança tem sido principalmente na Síria, e às vezes no Líbano. E, fora o desastre humanitário, a guerra civil síria tem sido relativamente confinada. Mesmo se Bashar al-Assad vencesse, a Síria – e o Líbano – continuaria sob influência iraniana, configuração quem tem existido há duas décadas e que – se alterada – não está claro de que forma poderia beneficiar os EUA.

Um ataque americano a alvos de Assad também não renderia a Washington novos amigos sírios, mesmo entre os oponentes de Assad. Abu Loay Muqdad, porta-voz do Exército Livre da Síria (o grupo rebelde moderado mais próximo aos EUA e seus aliados), disse que ele não tinha opinião formada sobre um possível ataque americano a Assad, e que seu grupo agiria de acordo com o que acontecer após o ataque.

Burhan Ghalioun, professor em Sorbonne e membro da oposicionista Coalisão Nacional Síria, se opôs no passado a uma intervenção estrangeira. Esta semana, ele foi à Al Jazeera para dizer que se opõe a um ataque limitado, preferindo ao invés uma guerra para depor Assad. Tanto Muqdad quanto Ghalioun não pronunciam a palavra “América”.

Muitos na oposição síria têm culpado o mundo por apenas assistir enquanto Assad massacra sírios, e têm defendido intervenção estrangeira. No entanto, raramente viu-se alguém pedir para que os EUA façam o serviço, talvez pela incapacidade de se superar a histórica animosidade árabe em relação aos EUA. Depois que a intervenção americana pareceu inevitável, no começo da semana passada, esses sírios anti-Assad viram um ataque como certo e vibraram com ele sem vibrar com os Estados Unidos. Esses oponentes de Assad comportam-se como os iraquianos que cortejaram os EUA durante a guerra do Iraque. Uma vez no poder, uniram-se ao Irã em disparar ódio contra os mesmo americanos que depuseram Saddam e lhes deram uma chance de eleger seu próprio governo, que por sinal emergiu tão autocrático quanto o de Saddam, só que menos brutal.

Esses sírios, como os iraquianos antes deles, acham que os americanos devem sacrificar sangue e dinheiro para depor seu autocrata, mas não parecem acreditar que devem qualquer coisa em troca, nem mesmo um “muito obrigado”, ou uma declaração que destaque como os sírios compartilham com seus amigos americanos os valores da liberdade, e assim o objetivo comum de derrubar um ditador brutal.

Portanto, os americanos que pensam que atacar Assad assegurará os interesses americanos ou conquistará novos amigos para seu país devem perder tais ilusões. Além disso, medindo pelo comportamento atual da oposição síria, há pouca chance de que qualquer governo democrático venha a emergir depois de Assad.

Apesar disso, os EUA deveriam atacar alvos de Assad.

Armas químicas são bárbaras, e se esse planeta precisa manter qualquer aparência de civilização, aqueles que as utilizam devem ser punidos, e existem muito poucos países que têm o desejo para preservar a ordem mundial, ou a capacidade para tanto, além dos EUA.

Um ataque americano não transformará um guerra civil sangrenta em uma democracia rósea. Um ataque apenas limitará a formidável capacidade de Assad em infligir sofrimento aos outros, e talvez convença-o de que ele se tornou um entre iguais, que sua luta não vai levar a lugar nenhum e de que sua melhor aposta é um acordo baseado em seu abandono do poder. Quando a poeira de um ataque americano baixar, os sírios devem começar a descobrir como construir a paz.

Os EUA não podem consertar a Síria. Podem apenas ajudar a igualar as forças combatentes. Será tarefa para os sírios transpor suas diferenças, encerrar a guerra e construir um novo estado.

Os EUA devem atacar Assad porque é a coisa correta a se fazer. Afinal de contas, quando os Pais Fundadores estavam debatendo a América, eles não se concentraram muito em interesses, mas em valores, que eles esperavam faria de seu país “a nação indispensável” do mundo, ou uma “cidade que brilha numa colina”.

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.