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O medo irracional da intervenção americana nos meios de esquerda

por Amálgama (07/09/2013)

O poder militar dos EUA é o melhor meio disponível de prevenir crimes contra a humanidade

Niall Ferguson, no The Guardian / 6 de setembro

Forças Armadas americanas no Mediterrâneo

Não pela primeira vez, violações de direitos humanos por um tirano do Oriente Médio apresentam um dilema para esquerdistas dos dois lodos do Atlântico. Por um lado, eles não gostam de ler sobre pessoas morrendo asfixiadas. Por outro, eles são profundamente relutantes em desejar os meios para se acabar com a matança, por medo de reconhecer que o poder militar ocidental – na prática, americano – pode ser uma força para o bem.

Desde os anos 1990, quando os Estados Unidos finalmente reagiram para acabar com a violência pós-Iugoslávia nos Bálcãs, eu tenho feito três argumentos que a esquerda não suporta. O primeiro é que o poder militar americano é o melhor meio disponível para se prevenir crimes contra a humanidade. O segundo é que, infelizmente, os EUA são um “império liberal” relutante, por conta de três déficits: mão-de-obra, dinheiro e atenção. E o terceiro é que, quando o país retroceder de sua hegemonia global, nós veremos mais violência, não menos.

Mais recentemente, há quase um ano exatamente, eu fui desancado por argumentar que as principais fraquezas de Barack Obama eram uma tendência a transferir decisões difíceis para o Congresso e uma falta de estratégia coerente para o Oriente Médio. Os eventos confirmaram o poder preditivo da análise.

Para os isolacionistas tanto na esquerda quanto na direita, o vício de Obama em meias e quartas medidas cai muito bem – qualquer coisa é melhor do que arriscar “outro Iraque”. Mas tal complacência (para não dizer insensibilidade) minimiza o perigo da dinâmica em funcionamento no Oriente Médio nos dias de hoje. Apenas porque os EUA estão sendo liderados pelo equivalente geopolítico de Hamlet não quer dizer que haja paralisia no cenário global. Pelo contrário, quanto menos os EUA fazem, mais rapidamente a região muda, à medida que vários atores competem por posições em um Oriente Médio pós-americano.

A Síria atualmente está em vias de ser dividida. Observe que algo similar já ocorreu no Iraque. O que estamos testemunhando não é apenas o fim do Oriente Médio dos anos 1970. Isso pode ser o fim do Oriente Médio dos anos 1920. As fronteiras de hoje, como se sabe bem, podem ter sua origem identificada no trabalho de diplomatas britânicos e franceses durante a primeira guerra mundial. O infame acordo Sykes-Picot de 1916 foi a primeira de uma série de etapas que levaram ao desmanche do império otomano e à criação dos estados que conhecemos hoje como Síria e Iraque, bem como Jordânia, Líbano e Israel.

À medida que nos aproximamos do centenário do início da primeira guerra mundial, não há razão óbvia para que esses estados devam todos sobreviver em sua presente forma.

É tentador pensar nisso como um processo de re-otomanização, com a região revertendo para suas fronteiras pré-1914. Mas pode ser mais exato ver isso como uma segunda Iugoslávia, com conflito sectário levando a “limpezas étnicas” e um permanente redesenhar dos mapas. No caso da Bósnia e do Kosovo, outro presidente democrata americano teve que levar um tempo preocupantemente longo até que confrontasse a necessidade de intervir. Mas no final das contas ele o fez. Eu não me surpreenderia de ver uma repetição de tal performance se a esposa daquele presidente acabar sucedendo Obama na Casa Branca. Afinal de contas, há fortes evidências sugerindo que Obama concordou com a “linha vermelha” original sobre o uso de armas químicas apenas sob pressão do Departamento de Estado de Hillary Clinton.

No entanto, o presidente pode não conseguir sustentar seu intervencionismo minimalista até 2016. Enquanto todos os olhos estão focados nas armas químicas na Síria, os mulás no Irã continuam com seus esforços para conseguir armas nucleares. O último relatório da AIEA sobre o assunto é uma leitura perturbadora. Acho difícil acreditar que mesmo o pusilânime Obama seria capaz de ignorar a evidência de que Teerã cruzou a linha vermelha, mesmo se esta foi traçada pelo primeiro-ministro de Israel e não por ele próprio.

O fator iraniano é uma entre as diferenças chave entre o desmanche da Iugoslávia e o desmanche de países como Síria e Iraque.

O Oriente Médio não é os Bálcãs. A população é maior, mais jovem, mais pobre e menos educada. As forças do islã radical são muito mais poderosas. É impossível identificar um único “cara mau” da forma como Slobodan Milosevic se tornou a besta negra do ocidente. E há múltiplos atores regionais – Irã, Turquia, os sauditas, bem como os russos – com muito dinheiro e séria capacidade militar. De forma geral, o fim do pan-arabismo é um processo muito mais assustador do que o fim do pan-eslavismo. E, quanto mais os EUA hesitarem, provavelmente maiores serão os conflitos sectários na região.

Os proponentes da não-intervenção – ou, mesmo, da intervenção não-efetiva – precisam encarar uma realidade simples. Inação é uma política que também tem consequências mensuráveis em termos de vida humana. O pressuposto de que não existe nada pior no mundo do que o império americano é um artigo de fé esquerdista. Ele não é sustentado pelo registro histórico.

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