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Síria: moralidade e realidade

por Amálgama (06/09/2013)

É improvável que a intervenção previna futuros ataques químicos ou force Assad a se render

Kenan Malik, em Pandaemonium / 4 de setembro

Síria

Primeiro, o parlamento britânico rejeita o pedido de David Cameron por um imediato ataque militar na Síria. Depois, Barack Obama, aparentemente decidido a bombardear a Síria, decide adiar qualquer ação até conseguir apoio do Congresso (o que de forma alguma é um desfecho certo). Os extraordinários fracassos e reviravoltas na política sobre a Síria nos dois lados do Atlântico durante a semana passada podem parecer indicar o triunfo do processo democrático sobre uma beligerância precipitada. Eles dizem muito também, entretanto, da confusão e falta de pensamento coerente que está no centro de muito da política externa ocidental contemporânea.

Qualquer discussão sobre intervenção militar na Síria ocorre, claro, na sombra da guerra no Iraque. A inteligência duvidosa e as justificações sem crédito que antecederam aquela invasão ainda assombram o debate político. Bem como o caos e conflito sectário que se seguiram. A guerra do Iraque ajudou a diminuir a confiança nos políticos e também tornou o público mais cético em relação a “intervenções humanitárias”. E fez com que os políticos tivessem menos vontade de colocar a cabeça para fora e tomar posicionamento.

O problema, no entanto, vai muito além das repercussões do Iraque. Há um crescente fosso entre moralidade e realidade que molda grande parte das decisões políticas contemporâneas, e distorce tanto o pensamento moral quanto as decisões políticas. Em nenhum outro lugar, talvez, isso fica mais claro do que em discussões sobre guerra. O argumento a favor da intervenção militar na Síria está baseado em grande parte na indignação por Bashar al-Assad “cruzar a linha vermelha” ao usar armas químicas. A indignação é compreensível, necessária mesmo, bem como o desejo de se “fazer algo”. O que a narrativa da intervenção exclui, entretanto, é a complexidade do conflito sírio.

O atual conflito começou em março de 2011, na forma de uma revolta popular contra o regime de Assad e seu violento estado policial. O levante rapidamente passou a uma rede de conflitos, tanto internos quanto externos à Síria. O regime de Assad conseguiu apresentar a luta por liberdade como um enfrentamento sectário entre a maioria árabe sunita e os grupos minoritários, como a seita alauíta reinante, cristãos e drusos. O sucesso da propaganda do regime transformou o mito em realidade, de modo que a batalha por uma nova Síria, democrática, degenerou em algo mais sectário.

A intervenção de potências estrangeiras exacerbou tal sectarismo, na medida em que diferentes grupos oposicionistas se tornaram delegados de terceiros em um conjunto mais amplo de conflitos. O mais importante entre estes é a disputa entre Arábia Saudita e Irã, que moldou muito da política muçulmana desde a revolução iraniana de 1979. Arábia Saudita e os estados do Golfo jogaram armas e dinheiro na oposição. O Irã, sabendo que a derrubada de Assad enfraqueceria sua própria posição, passou a lutar pela preservação do regime. O Hezbollah, milícia libanesa patrocinada pelo Irã, enviou combatentes para dar uma força à causa de Assad. Sendo a Arábia Saudita majoritariamente sunita e o Irã majoritariamente xiita, a disputa política entre os dois países plasmou-se em um conflito religioso sunita-xiita. Apesar disso, não é religião, mas realpolitik, que está ajudando a forjar alianças. Razão pela qual o Irã teocrático está se alinhando com o regime secular de Assad contra a Arábia Saudita wahhabista. A Rússia, por sua vez, está utilizando seu apoio ao regime de Assad e oposição à política americana como um meio de reafirmar seus status de Grande Potência.

A intervenção de nações ocidentais também tem ajudado a moldar a guerra civil. Durante a chamada Primavera Árabe, a política ocidental, especialmente americana, em relação aos movimentos democráticos tem sido ditada principalmente por duas necessidades: desejo por estabilidade política e necessidade de manter o Irã na linha. A importância da Arábia Saudita e dos estados do Golfo, tanto para conter o Irã quanto para ajudar na guerra ao terror, levou os EUA a serem, na melhor das hipóteses, ambivalentes em relação aos movimentos democráticos na Arábia Saudita e no Bahrein, tolerando a repressão brutal de manifestantes nos dois países. No Egito, os EUA apoiaram o movimento democrático, mas apenas num contexto de manutenção da estabilidade; eles apoiaram o antigo ditador Hosni Mubarak, que patrocinaram por 30 anos, até que ficou claro que ele não poderia mais se manter no poder, então tentaram trocá-lo pelo homem da CIA no Cairo, Omar Suleiman, e recusaram-se a classificar como golpe o golpe contra o presidente Mohamed Mursi, a fim de que pudesse continuar legalmente enviando fundos para o exército egípcio.

Os EUA têm um longo histórico de envolvimento na Síria. Nos anos 1950 e 1960, a CIA foi atraída pelo Partido Baath tanto no Iraque quanto na Síria, devido à oposição visceral dos baathistas ao comunismo. Em fevereiro de 1963, a CIA patrocinou um golpe que trouxe os baathistas iraquianos ao poder. Um dos ativos da CIA era um membro menor da conspiração – Saddam Hussein. No mês seguinte, os baathistas sírios empreenderam seu próprio golpe, liderados por, entre outros, Hafez al-Assad, o pai de Bashar al-Assad.

O Partido Baath, e a gangue de Assad, há muito deixou de ser um ativo para se tornar um problema. Ao contrário do ocorrido na Arábia Saudita, Bahrein e Egito, os EUA não demonstraram ambivalência em seu desejo para derrubar o regime. Eles ajudaram a organizar e patrocinar, financeira e logisticamente, o Exército Livre da Síria, e reconheceram formalmente o Conselho Nacional Síria como o representante legítimo do povo sírio. O objetivo era reforçar o movimento anti-Assad, ao mesmo tempo restringindo os jihadistas mais radicais. A consequência foi distorcer ainda mais o movimento por democracia, transformando mais grupos de oposição em organizações clientes de potências estrangeiras, de quem conseguem financiamento, recursos e armamentos.

Enquanto as potências ocidentais tiveram sua responsabilidade em criar a complexa rede de conflitos que agora define a guerra civil na Síria, ao defenderem uma intervenção militar elas passaram a ignorar esta mesma complexidade, transformando o argumento a favor da intervenção em um simples conto moral. É claro que existem questões morais no centro do conflito sírio. Mas essas questões só podem ser negociadas dentro das realidades geopolíticas da guerra.

Deveríamos, para começar, ser um pouco céticos da indignação moral emanando agora do Whitehall, da Casa Branca e do Palácio Élysée. Armas químicas são detestáveis. Mas líderes ocidentais estão contentes em vê-las utilizadas quando é para atender suas necessidades. Documentos da CIA recentemente tornados públicos, por exemplo, relevaram que os EUA auxiliaram Saddam Hussein a usar gás sarin e outros neurotóxicos contra as forças iranianas na guerra Irã-Iraque dos anos 1980, porque, nas palavras do presidente Ronald Reagan, “uma vitória iraniana é inaceitável”. Em seu ataque à cidade iraquiana de Fallujah em novembro de 2004, os EUA usaram bombas de fósforo branco – que tecnicamente não é uma arma química, mas é ainda assim um armamento terrível; o fósforo branco entra em combustão quando em contato com o oxigênio, derrete a pele e queima até os ossos. Bombas de fósforo branco também foram usadas pelas forças israelenses na guerra de 2008 em Gaza. A Grã-Bretanha estava vendendo para a Síria os materiais necessários para a fabricação de armas químicas até janeiro de 2012 – dez meses após o início do levante contra Assad.

Nada disso, em si mesmo, é necessariamente um argumento contra a intervenção. Mas tudo isso deveria nos fazer questionar as motivações de muitos daqueles pedindo agora por ataques militares.

Se a atitude moral dos que pedem por intervenção é questionável, as consequências de tal intervenção o é ainda mais. O que faltou no debate até o momento é o pensamento estratégico daqueles defendendo a guerra. Quais são os objetivos específicos? O que constituiria sucesso? Existe uma visão de quando se deve chegar ao fim da intervenção? Existem poucas respostas para tais questões. Existe, observa Michael Clarke, diretor-geral do Royal United Services Institute, um “vazio estratégico” nos planos ocidentais. “Não se tem como estabelecer um plano militar a menos que se saiba quais são os objetivos políticos”, observa o general Sir Mike Jackson, ex-chefe do exército britânico. E tais objetivos estão ausentes dos planos atuais. Da mesma forma, o general Jonathan Shaw, um ex-diretor das forças especiais britânicas que serviu no Kosovo e no Iraque, questiona “qual é o objetivo político que espera-se que a ação militar permita”, e observa “uma falta de clareza sobre os objetivos políticos”.

Falando antes do Parlamento votar contra a intervenção, David Cameron insistiu que qualquer ataque militar não seria para “envolver-se em uma guerra no Oriente Médio” ou para “entrar cada vez mais” no conflito sírio, mas para “especificamente deter o uso de armas químicas”. É difícil saber, no entanto, como um ataque militar poderia especificamente diminuir a capacidade de Assad para usar armas químicas sem “envolver-se em uma guerra no Oriente Médio”. Richard Guthrie, um especialista em armas químicas que serviu no Stockholm International Peace Research Institute, observa que bombardear depósitos de armas químicas, como os EUA já fizeram no passado, pode liberar toxinas mortais e portanto aumentar o número de mortos.

Ao mesmo tempo, a noção de um “ataque militado”, como Richard Dannatt, ex-chefe do exército britânico observou, “sempre foi uma noção impossível”. “Qualquer uso de artilharia explosiva pelo ocidente, para qualquer propósito”, Dannatt complementou, “terá nos envolvido irrevogavelmente na guerra civil síria”.

O tipo de intervenção “limitada” atualmente sendo considerada deve causar uma destruição considerável, podendo até mesmo causar mais mortes químicas, mas é improvável que previna futuros ataques químicos ou force Assad a se render. A intervenção tampouco quebrará o atual empate na guerra civil, em que nenhum dos lados é capaz de tomar um movimento decisivo. Esse empate é produto não apenas de um impasse militar, mas de um impasse político. O regime de Assad é sem dúvida apoiado por forças externas, da Rússia ao Hezbollah. Mas ele ainda tem algum apoio popular, e o tem em parte por razões sectárias – a base de apoio de Assad é sua própria seita alauíta – e em parte devido aos fracassos políticos da oposição. Os rebeldes, politicamente incoerentes e divididos em facções, falharam em conquistar setores significantes da população. O que de unidade eles possuem deve-se em grande parte a pressões de seus patrocinados externos. Isso colaborou pouco para convencer os céticos. Qualquer intervenção militar tornará mais difícil esse convencimento, fazendo com que aqueles que já apoiam o regime o apoiem ainda mais, portanto aprofundando as divisões.

O que fica claro nisso tudo é o fosso que agora se abriu entre a moralidade e a realidade, entre o argumento moral para uma intervenção e a realidade da guerra civil. Em parte, isso se dá porque os argumentos morais para a intervenção parecem, com muita frequência, moldados menos pelas consequências que tal intervenção pode ter para o povo da Síria do que pelo desejo de “fazer algo”. Esse desejo é compreensível. “Para aqueles de nós que não são religiosos”, observa Philip Collins, ex-redator de discursos de Tony Blair, “o sofrimento de outros seres humanos é a marca mais profunda de nossa herança humana comum. Então é importante aumentar o peso de nosso impulso moral, ao invés de descartá-lo como ingênuo e tolo”. Isso é verdade. De fato, seria chocante se não sentíssemos repulsa pela brutalidade do regime de Assad. O desejo de se fazer algo é sem dúvida melhor do que um dar de ombros, a insistência de que nada pode ser feito. Ideais são essenciais na política. Ainda assim, esse desejo é ao mesmo tempo algo com que devemos ter cuidado. Nosso compasso moral deve ser ajustado pelas necessidades, não de nossa própria consciência moral, mas do povo da Síria.

Isso não significa que nada pode ser imediatamente feito. Um editorial na New Scientist da semana passada observou que uma resposta aos ataques químicos muito melhor do que jogar bombas seria distribuir os antídotos necessários, que são virtualmente não-existentes na Síria. Em um tempo em que nações europeias cinicamente criaram novas barreiras legais para a entrada de refugiados sírios, e estão mesmo os prendendo – atos que, uma vez mais, servem para se questionar o impulso humanitário dos líderes ocidentais –, devemos exigir a abertura das fronteiras. Isso não prevenirá a brutalidade na Síria, mas seria uma resposta a necessidades práticas e melhoraria vidas. Em intervenções humanitárias, bem como em intervenções médicas, a primeira regra deve ser sempre “primeiro, não faça mal”. De outra forma, os argumentos morais degeneram em algo muito mais sombrio.

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