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Gangues da Venezuela: guerreiros da revolução cultural

por Amálgama (18/09/2014)

Os "coletivos" chavistas são treinados para desestabilizar a sociedade

Maria C. Werlau, na World Affairs / ed. julho-agosto 2014

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– Integrantes de bandos chavistas agridem estudante na Universidad Central de Venezuela (abril/2014) –

1.

Quando, em fevereiro, irromperam os protestos em massa contra o governo na Venezuela, os índices de assassinato no país já eram chocantes – perto de vinte e cinco mil pessoas mortas no ano anterior, com noventa e sete por cento dos casos sem solução. Eles em breve se tornariam piores, quando gangues à paisana em motocicletas começaram a atacar e atirar em civis desarmados, particularmente jovens, enquanto as forças de segurança apenas observavam.

Conhecidos como colectivos, esses grupos paramilitares surgiram durante a presidência do falecido Hugo Chávez, com o objetivo de defender o programa revolucionário. Oficialmente, eles são organizações comunitárias, mas de acordo com Roberto Briceño, diretor do Observatório Venezuelano de Violência, eles agem como “guerrilhas protegidas pelo governo”. Informações disseminadas e extensas evidências em vídeo mostram o assassinato e espancamento de manifestantes, destruição de veículos, saque a casas e lojas, e aparentemente ataques a forças pró-governo, presumivelmente em um esforço para manchar a imagem dos manifestantes pacíficos, escalar o conflito e justificar táticas linha-dura.

Embora crime em excesso não seja algo tipicamente permitido por um governo autoritário, os colectivos e gangues criminosas têm recebido ampla impunidade na Venezuela. Bárbara Gonzáles, uma veterana de seis anos do serviço de inteligência do país (SEBIN) que desertou em fevereiro último, afirmou em uma rádio colombiana que as “guerrilhas urbanas” são na maior parte constituídas de criminosos armados pelo governo e treinados pelo grupo terrorista colombiano FARC, e que todas as forças de segurança, incluindo polícia e SEBIN, têm ordens para deixá-los agir livremente. Um ex-agente da inteligência cubana que serviu na Venezuela, Uberto Mario, informou que Cuba recruta criminosos de bairros pobres para compor os tupamaros, um grupo marxista radical que antecede Chávez e agora é considerado parte dos colectivos. Eles são treinados para desestabilizar a sociedade venezuelana e conter a oposição e distúrbios. Mario afirma que agentes cubanos os recrutam e, após receber instrução em marxismo-leninismo em Caracas, esses criminosos são enviados a Cuba para aprender como “matar e reprimir”.

Talvez numa tentativa de oferecer cobertura política para o envio de criminosos organizados para treinar em Cuba, em agosto de 2013 o vice-ministro do interior venezuelano falou na televisão sobre ter discutido com membros de duzentos e oitenta bandos criminosos (de cerca de 10 mil membros) a criação de um programa governamental para prover assistência financeira “àqueles abandonando as armas”. Cerca de seis semanas depois, em outubro, a vice-ministra para a segurança cidadã reconheceu que delinquentes voluntariamente abandonando suas armas estavam sendo enviados para reabilitação em Cuba, após o que eles se juntariam à força de trabalho. Coincidentemente, ela anunciou o emprego de mais vinte mil “soldados” nas ruas, para apoiar a polícia. Um quadro relevador emergiu em março, a partir de ex-agentes da inteligência venezuelana e fontes com acesso direto a oficiais da ativa nas forças armadas venezuelanas. Eles contaram ao jornal de Miami El Nuevo Herald que cubanos, incluindo cerca de vinte altos oficiais lotados no palácio presidencial em Caracas, estavam dirigindo a repressão aos manifestantes e coordenando os grupos paramilitares.

Venezuela e Cuba têm uma relação excepcionalmente próxima desde que Chávez se tornou presidente em 1999. Centenas de projetos econômicos e políticos conjuntos unem carnalmente os dois países e empregam milhares de “conselheiros” cubanos na Venezuela, enquanto garantem estimados 10 a 12 bilhões de dólares por ano em subsídios à economia cubana. Os dois países encabeçaram um projeto econômico e político de integração regional conhecido como ALBA, que levou o programa revolucionário para um crescente número de nações latino-americanas e caribenhas. Oficialmente conhecido como “socialismo do século vinte e um”, ele é essencialmente o marxismo-leninismo adaptado à região e às atuais circunstâncias.

A chave para entender por que o governo venezuelano promoveria uma pandemia de crimes está no exame das teorias marxistas que sustentam que a burguesia e o proletariado devem ser artificialmente forçados à igualdade econômica. O teórico marxista italiano Antonio Gramsci sustentava que a hegemonia cultural era o caminho para levar ao poder um novo proletariado – um que terá muitos criminosos no topo. Sua “longa marcha pela cultura” tem como alvo a família tradicional e engloba gradualmente escolas, igrejas, mídia, organizações civis e toda a sociedade. Como a cultura ocidental cristã está no meio do caminho para a ordem prevista pelo comunismo, ela deve ser conquistada por uma radical transformação social e cultural. Uma redistribuição de renda ao estilo Robin Hood dá poder às classes baixas, enfraquece as classes média e alta e promove a luta de classes. Dar a gangues criminais o poder de matar, sequestrar, roubar e extorquir enfraquece a sociedade civil e desgasta valores ocidentais fundamentais, como a santidade da vida e o direito à propriedade privada. Outras ferramentas de fragmentação social auxiliam nessa tarefa, tais como o tráfico de drogas e o apoio a grupos terroristas como as FARC; fortes evidências ligam essas duas áreas aos mais altos oficiais venezuelanos e membros das forças armadas do país.

O vácuo criado quando o crime elimina o estado de direito permite o surgimento de um estado militarizado com maiores poderes, enquanto a sociedade, com medo e ansiosa, consente a retirada de direitos civis em troca de uma nova estabilidade. Crimes violentos também permitem uma poderosa distração de mudanças radicais que ocorrem ao mesmo tempo. E a corrosão da moral causada pela criminalidade descontrolada leva ao exílio aqueles que se opõem mais fortemente à situação socioeconômica – membros das classes média e alta investidoras. Desde que Hugo Chávez se tornou presidente, estimados 1 milhão de venezuelanos, 3,5% da população, já fugiu; o que inclui metade da comunidade judaica do país, um alvo particular do regime.

Pobreza como política de estado tem sido um elemento chave do esquema revolucionário castro-chavista. A pobreza extrema é inicialmente mitigada por repasses governamentais – para criar lealdade política, dependência econômica e um sentimento de esperança ancorado na rede de assistência estatal. (A ironia é que essas qualidades desencorajam o trabalho e o empreendimento, as verdadeiras estradas para superar a pobreza.) Junto com essas dependências vem uma doutrinação em luta de classes. Em 13 de fevereiro de 2013, o ministro da educação venezuelano, Héctor Rodríguez, usou da grandiloquência padrão da luta de classes quando declarou na televisão que elevar os cidadãos da pobreza não significava “torná-los de classe média, para que eles finjam ser parte dos raquíticos.” (“Raquítico” do espanhol “escuálido”, um termo de deboche frequentemente utilizado por oficiais do governo.)

O general Guaicaipuro Lameda, ex-chefe da poderosa estatal do monopólio petrolífero, PDVSA, jogou luz nos objetivos do governo quando relatou em uma entrevista em 2012 que, dez anos antes, Jorge Giordani, então e atual ministro das finanças da Venezuela, explicou-lhe a lógica por trás de políticas econômicas aparentemente sem sentido. A revolução, confessou Giordani, estava na verdade preparando uma transformação cultural que iria levar trinta anos para se concluir e, para tanto, seria preciso manter os venezuelanos pobres, porém esperançosos. Lameda também disse que Fidel Castro havia expressado a mesma filosofia quando lhe disse que Cuba precisava de apenas 4 bilhões de dólares por ano da Venezuela, porque “mais do que isso seria um estorvo, porque as pessoas começariam a viver bem e a retórica da pobreza morreria.” Ao descobrir que esse plano exigiria manter os pobres dependentes enquanto as outras classes são trazidas para baixo, o general Lameda deixou seu proeminente emprego.

De acordo com o traçado desse caminho, quando a sociedade for “nivelada” por baixo com sucesso, a maior parte, senão a totalidade, do capital e dos meios de produção estará nas mãos do estado, isto é, da elite dirigente. Quando esse processo estiver finalizado, o serviço de inteligência (moldado no cubano) terá tido anos de experiência na contenção de qualquer oposição remanescente. As milícias voluntárias armadas, feitas de oitocentos mil chavistas fervorosos treinados “para defender a revolução”, serão incorporadas às forças armadas regulares, que por então estarão suficientemente expurgadas e submissas através de intimidação. Nesse ponto, se preciso, as gangues paramilitares e criminosas a que se permitiu criar medo e desordem que justificassem o autoritarismo, seriam absorvidas ou neutralizadas e desarmadas. Em uma medida com a intenção de diminuir a criminalidade, mas que efetivamente restringe uma futura resistência, a venda de armas para civis na Venezuela foi proibida em junho de 2009, e todas as lojas de armas, fechadas.

2.

Em Cuba, o totalitarismo se consolidou na década de 1960 com muito mais rapidez do que na Venezuela, com a Guerra Fria servindo de motor propulsor. Um regime popular substituiu uma ditadura odiada e foi capaz de implantar o terror rapidamente, com execuções em massa e prisões políticas. O “socialismo do século vinte e um” foi uma ideia concebida nos cérebros de Fidel Castro e do falecido Hugo Chávez, e baseia-se em cooptar gradualmente dispositivos constitucionais, usurpando todo o processo democrático e desmontando as liberdades individuais. Mantras retóricos são concebidos para disfarçar o que realmente está acontecendo: o presidente Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, satura seus discursos com “Deus”, “paz”, “amor” e “diálogo”, mesmo enquanto ridiculariza e insulta a oposição. Maduro deve conhecer muito bem o roteiro – um ex-analista de inteligência cubano de alto escalão que vive na clandestinidade nos EUA, e atende pelo pseudônimo de “Huberto”, garante que ele foi treinado em Cuba como um agente comunista.

A luta de classes tem estado na vanguarda da radicalização constante do regime. Embora Chávez tenha se tornado presidente em 1999 insistindo que não era um socialista, depois de uma década no poder ele estava rugindo desafiante que a revolução iria “tomar todo o poder para eliminar totalmente a burguesia de todo o espaço político e econômico.” Levou-se anos de luta de classes, por ações e discursos, até ele decidir percorrer Caracas seguido por câmeras de tevê, em fevereiro de 2010, apontando para pequenas empresas que deveriam ser confiscadas imediatamente.

O manual estratégico para esta marca moderna do socialismo foi uma criação dos irmãos Castro, apoiados pela imensa riqueza do petróleo à disposição de Chávez. Seu ninho ideológico é o Foro de São Paulo, co-fundado em 1990 por Fidel Castro e pelo futuro presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, para reformular e revitalizar a esquerda radical após a queda do comunismo soviético. O objetivo é avançar em direção a uma transformação marxista-leninista radical da sociedade, não pela luta armada, mas aos poucos, minando por dentro o capitalismo, a democracia e as instituições e os valores burgueses. Suas expressões coletivas são um projeto de integração regional abertamente anti-americano conhecido como Aliança Bolivariana (ALBA) e a Comunidade criada recentemente por países da América Latina e do Caribe, que exclui EUA e Canadá e pretende ignorar e finalmente substituir a Organização dos Estados Americanos.

Equador, Bolívia e Nicarágua – todos os três membros da ALBA – encontram-se no bom caminho revolucionário, tendo, entre outras coisas, dado boas vindas a “colaboradores” da saúde cubanos, e também proposto ou passado emendas constitucionais para reforçar ou perpetuar o presidente no poder, enfraquecendo o poder judiciário, ampliando o papel do estado na economia, e corroendo a liberdade de imprensa e o estado de direito. Quatro pequenas ilhas do Caribe também fazem parte da aliança. Argentina, Brasil, Uruguai, Chile, Peru, El Salvador e República Dominicana não fazem parte da ALBA (pelo menos não oficialmente, por enquanto), pois são contidos por estruturas democráticas mais fortes, mas seus presidentes são membros do Foro de São Paulo. De acordo com “Huberto,” um oficial de dezoito anos da inteligência cubana, Cuba recrutou, ou tem relações, com “todos” os líderes de esquerda latino-americanos, até mesmo com os menos radicais, e os ajuda a alcançar posições de poder e influência. Não surpreende, portanto, que quase todos os líderes latino-americanos mantiveram-se em silêncio diante das violações flagrantes dos direitos humanos na Venezuela e em Cuba e apoiam a entrada da ditadura cubana como um ator regional com credibilidade.

Muitos venezuelanos, incluindo funcionários do alto escalão civil, membros das forças armadas e políticos proeminentes, têm denunciado a infiltração de Cuba nos mais altos níveis do governo da Venezuela, especialmente com seus métodos de controle social, aprendidos com antigos mentores da KGB e da Stasi e aperfeiçoados ao longo de cinquenta e cinco anos. Em um discurso em 1971 na Universidade de Concepción, no Chile, Fidel Castro mostrou o papel que a enganação tem para a conquista do poder, quando reconheceu que a luta que ele liderou contra a ditadura de Batista não poderia ter sido abertamente socialista, dado o nível de “consciência” política na sociedade cubana quando assumiu o poder. Mas, insistiu, “o caminho para a revolução significa precisamente que cada oportunidade de avançar deve ser explorada”, e isso vai depender do “grau de desenvolvimento da consciência social e da correlação de forças existente.”

3.

O plano chavista para destruir o livre mercado e a iniciativa privada envolve severas restrições cambiais, controle de preços irracional e confiscos generalizados de empresas e terras agrícolas; o resultado é o declínio da produção – privada e pública –, menor capacidade de exportação, crescente dependência das importações, e escassez extrema dos produtos mais básicos. Portanto, apesar das enormes receitas do petróleo, as maiores reservas conhecidas no mundo (o petróleo foi nacionalizado décadas atrás), a Venezuela é hoje um caso perdido. Ela tem a maior taxa de inflação do mundo (oficialmente cinquenta e seis por cento, mas este valor é muito baixo, de acordo com especialistas), um acumulado de 38,5 bilhões de dólares em dívidas com a China, reservas monetárias esgotadas, desvalorizações sucessivas, desperdício desenfreado e corrupção no setor estatal em todos os níveis de governo, e anos de intensa fuga de capitais e investimentos estrangeiros em colapso.

O novo modelo revolucionário deve se adaptar à comunicação de massa instantânea e a um reconhecimento internacional mais forte dos direitos humanos do que o regime de Fidel Castro inicialmente enfrentou. No entanto, o terror continua sendo um componente indispensável. As gangues paramilitares parecem formadas nos velhos moldes das Brigadas de Resposta Rápida de bandidos armados, enviados para reprimir a oposição interna ou tentativas de protestos públicos em Cuba. No entanto, nesta fase pré-totalitária na Venezuela, quando um estado policial completo ainda não está em vigor, esses grupos criminosos criados pelo estado também poderiam vir a ser o calcanhar de Aquiles do regime.

A violência criminal desenfreada e erosão das liberdades civis, combinadas com uma grave crise econômica, parecem cada vez mais insustentáveis para os venezuelanos. Os estudantes, seguidos por cidadãos de todas as idades, foram às ruas massivamente e ficaram lá por semanas, bravamente desafiando balas, espancamentos e gás lacrimogêneo. Até o momento, pelo menos quarenta e dois foram mortos como resultado direto das manifestações, e dezenas foram torturados, centenas feridos, inúmeros presos e dezenas de bombas de gás lançadas dentro de casas. A extensa evidência gráfica da brutalidade é convincente e foi amplamente exposta nas mídias sociais e tradicionais. Ao invés de conter a agitação, ela tem alimentado o protesto e a resistência; além disso, tem gerado ampla indignação internacional.

Para extinguir a revolta, o regime de Maduro intensificou táticas repressivas através de formas de violência sem paralelo patrocinadas pelo Estado. Mas as condições na Venezuela representam um desafio para o qual os mestres da repressão cubanos ainda não têm experiência. Essa é a vantagem da oposição; qualquer chance de salvar a Venezuela do controle totalitário requer uma compreensão clara da natureza da luta e uma busca de respostas estratégicas eficazes.

* Maria C. Werlau é diretora-executiva do projeto sem fins lucrativos Cuba Archive,
com sede em New Jersey. [tradução: Daniel Lopes e Maurício Vieira de Andrade]

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