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Para entender Putin, leia Orwell

por Amálgama (05/09/2014)

A propaganda russa diariamente martela dois lados para cada história, ambos falsos

Timothy Snyder, no Politico / 3 de setembro

putin

Qualquer um que queira entender a atual posição russa sobre a Ucrânia faria bem em começar com o clássico de George Orwell, 1984. As conexões são mais profundas do que o adjetivo “orwelliano”: a estrutura e o ensinamento do livro são guias, às vezes assustadoramente precisos, para acontecimentos atuais.

A maneira mais fácil de começar, em vista da agora inteiramente aberta invasão russa, é com “Guerra é Paz”, um dos slogans do império imaginado na estória de Orwell. Afinal de contas, toda tentativa até agora de negociação e cessar-fogo foi acompanhada de uma escalada russa, ao ponto de podermos estar certos de que não se tratam de coincidências. Se o presidente russo Vladimir Putin se encontra com outros líderes, podemos simplesmente esperar que tal ato seja uma cobertura para a mais recente atrocidade, como se deu nas conversações em Minsk, após a entrada de tropas, blindados e armamentos russos no leste ucraniano.

Mas precisamos cavar um pouco mais fundo nesse enredo para encontrar três conceitos necessários para a compreensão dessa guerra estranha, na qual Putin radicalizou a política russa, destruiu uma ordem europeia pacífica, desafiou os pressupostos dos europeus sobre seu futuro – e mesmo ameaçou uma guerra nuclear. Toda razão proferida para explicar uma guerra sem sentido que beira o niilismo será obviamente fajuta ou autocontraditória ou as duas coisas. Para entender essa terrível realidade em que pessoas estão matando e morrendo sem razão discernível, precisamos lembrar de alguns conceitos chave de Orwell: Eurásia, duplipensar e aprender a amar o Grande Irmão.

Em 1984, um dos poderes mundiais é chamado Eurásia. Curiosamente, Eurásia é o nome da principal doutrina da política externa russa. Na distopia de Orwell, Eurásia é um estado repressivo e inclinado à guerra que “compreende toda a parte norte das terras europeia e asiática, de Portugal ao Estreito de Bering”. Na política externa russa, Eurásia é um plano para a integração de todas as terras – exatamente – de Portugal ao Estreito de Bering. A Eurásia de Orwell pratica o “neobolchevismo”; o principal teórico eurasiático russo certa vez classificou-se como um “nacional-bolchevique”. Este homem, o influente Alexander Dugin, há muito tempo advoga que o estado ucraniano seja destruído, e muito recentemente propôs que a Rússia extermine ucranianos.

Orwell pode nos ajudar a entender o que está acontecendo se fizermos um esforço de boa-fé para usar as fontes da mídia oficial russa para tentar entender o mundo. A propaganda russa sobre a Ucrânia é o duplipensar dos dias de hoje: ela exige que as pessoas, como Orwell colocou, “sustentem ao mesmo tempo duas opiniões que se cancelam, sabendo que elas são contraditórias e acreditando em ambas”. A propaganda russa diariamente martela dois lados para cada história, ambos falsos, e cada um dos quais contradiz o outro. Considere as proposições em itálico abaixo – todas, a esta altura, após oito meses de repetição, já soam familiares.

Por um lado, a Rússia deve invadir a Ucrânia porque o estado ucraniano é repressivo. (Na verdade, a Ucrânia é uma democracia com liberdade de expressão e, em todo aspecto, um país mais livre que a Rússia.) Por outro lado, a Rússia deve intervir porque o estado ucraniano não existe. (Na verdade, ele é tão funcional quanto o estado russo, exceto nas esferas problemáticas da guerra, inteligência e propaganda.)

Por um lado, a Rússia deve invadir a Ucrânia porque os russos na Ucrânia são forçados a falar a língua ucraniana. (Isso não é o que acontece: os russos na Ucrânia são muito mais livres para falar como quiserem do que o são os russos na Rússia. De qualquer forma, a maior parte dos falantes do russo na Ucrânia não é russa, não mais do que americanos que falam inglês são ingleses.) Por outro lado, não existe uma língua ucraniana. (Existe. Ela tem uma orgulhosa tradição literária e é falada por dezenas de milhões de pessoas.)

Por um lado, ucranianos são todos nacionalistas. (Na verdade, a extrema-direita ucraniana conseguiu 2 por cento dos votos nas últimas eleições presidenciais, muito menos do que em qualquer outro país europeu cujo nome você conseguir lembrar.) Por outro lado, não existe uma nação ucraniana. (Na verdade, pesquisas de opinião sempre mostram o contrário, mesmo nas regiões atualmente sob ocupação russa. Milhões de ucranianos estiveram dispostos a se arriscar por sua nação na recente revolução, e milhares de voluntários escolheram arriscar suas vidas nas trincheiras – o que é mais do que pode ser dito da maior parte das pessoas nos Estados Unidos ou em outro lugar que se veem como patriotas.)

Já está se sentindo tonto? Mais uma: a Rússia está fazendo guerra para salvar o mundo do fascismo. (Na verdade, é na Rússia que a extrema-direita exerce poder ditatorial, e onde o chefe de estado anuncia uma doutrina hitleriana de invadir outro país para proteger irmãos étnicos. Os aliados políticos da Rússia são os partidos de extrema-direita da Europa, incluindo fascistas e neonazistas.) Enquanto isso: fascismo é bom. (Na Rússia, Hitler está sendo reabilitado como um estadista, judeus estão sendo culpados pelo Holocausto, gays apresentados como uma conspiração internacional, nazistas russos marcham no Dia do Trabalho e nazistas russos na Ucrânia são apresentados como heróis.)

A propaganda russa apresenta dois lados da história. Assumimos que a verdade esteja no meio. Mas não existe verdade no meio de proposições que são individualmente falsas e mutualmente contraditórias. Existe apenas insanidade – ou, como Orwell coloca, o aprendizado de amar o Grande Irmão, o líder totalitário distante e impessoal do romance. Em 1984, aprende-se a amar o Grande Irmão sacrificando o que mais se ama. Na Ucrânia, o sacrificado seria o estado, como Putin acaba de exigir ao endossar a partilha do país e a formação de uma Novorossiya (Nova Rússia) em seu sudeste; na Europa, o sacrifício seria da integração pacífica, conquista ameaçada por Putin; para todos nós, o sacrifício seria da razão.

Muito frequentemente, tentamos adivinhar o que se passa na cabeça de Putin. Tentamos mergulhar na mente do Grande Irmão ao invés de mergulhar no mundo dos fatos discerníveis. Mas, fundamentalmente, quem realmente se importa com o que está na cabeça de Putin? Alguém realmente sabe, incluindo o próprio Putin? Mesmo se soubéssemos o que está na cabeça de Putin hoje, isso seria um guia confiável para o que estará em sua cabeça amanhã? E que chance teríamos de defender a liberdade e a decência se partíssemos da cabeça de tal indivíduo? Afinal de contas, este é um homem que intervém em desenhos infantis e supervisiona programas de tevê que levantam a questão de sua possível divindade.

Ao final de 1984, um membro do regime do Grande Irmão, enquanto conduz uma sessão de tortura, admite algo: “o poder não é um meio, é um fim”. O que quer que esteja na cabeça de Putin, o que quer que ele diga e faça, tudo que ele está defendendo é seu próprio poder, algo que terá um fim cedo ou tarde. Opressão na Rússia, guerra na Ucrânia e desestabilização no Ocidente é um preço grotescamente alto a se pagar pelas preferências de um homem. Ao invés de partir dessa base, ao invés de olhar nos olhos do duplipensador, seria melhor se pensássemos sobre o que valorizamos e o que podemos fazer para protegê-lo. Se a Ucrânia se tornar Novorossiya, a Europa se tornar Eurásia e o Ocidente entrar em colapso, não terá sido por causa da força física da Rússia, mas por causa da nossa fraqueza mental.

* tradução: Daniel Lopes

Amálgama

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