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1917, o ano que precisa terminar

por Marcel Novaes (04/09/2017)

O regime soviético foi, do princípio ao fim, uma ditadura horrível, mas até hoje personalidades ocidentais se alimentam de sua mitologia.

Por mais que parte da direita tenha dificuldade em aceitar isso, nem todo esquerdista é comunista. Defender as cotas raciais, ou a legalização das drogas, ou o direito dos homossexuais ao reconhecimento civil de sua união, nada disso torna alguém automaticamente um stalinista. Votar no PT, defender direitos trabalhistas, ser contra o desmatamento, não caracterizam necessariamente um amante de ditaduras. Há inúmeros temas polêmicos que podem ser discutidos de forma razoável desde perspectivas de esquerda e de direita. Entretanto, é difícil que isso aconteça sem que em algum momento apareça alguma das inevitáveis listas, quais sejam, as que começam com “União Soviética, Cuba, Coréia do Norte…” ou “Stalin, Mao, Pol Pot…”.

O uso generalizado das palavras “comunista” ou “stalinista” para designar pessoas de esquerda é tão tolo e injusto quanto o uso das palavras “fascista” e “nazista” para designar pessoas de direita. Assim como um conservador revira os olhos ao ser comparado a Hitler, também a maioria dos esquerdistas fica perplexa com a sugestão de que admirariam Stálin.

Não obstante, é preciso reconhecer: mais inacreditável do que o mau uso desses rótulos é o fato de que stalinistas realmente existem! Existem e existiram aos montes.

Neste ano, a Revolução Russa de 1917 comemora seu centenário. Em contraste com as previsões marxistas, o socialismo não começou nas nações em que o capitalismo estava mais desenvolvido, onde suas “contradições” estavam supostamente mais acirradas. Em vez disso, começou em um país majoritariamente campesino. Como consequência, o nascimento prematuro precisou ser feito a fórceps. Lênin, Trótski e seus camaradas criaram um regime centralizado e ultra-repressor, por meio do qual iriam ajudar a história a atravessar a rua.

Poucos anos depois, o controle do governo russo passaria às mãos do notório Joséf Stálin. Esquerdistas mundo afora até hoje choram a morte de Lênin, evento que, segundo eles, teria marcado um desvio do correto caminho socialista. A esse respeito, basta notar que Viatcheslav Molotov (famoso pelo pacto que leva seu nome, junto do ministro nazista Ribbentrop) uma vez comentou que “comparado a Lênin, Stálin era um cordeiro”. O fato é que o governo Lênin já continha, em menor escala, os ingredientes pelos quais o de Stálin ficaria famoso: as prisões em massa, as execuções, os crimes de opinião, a polícia secreta, a supremacia do partido sobre a sociedade, tudo. O próprio Noam Chomsky reconhece isso, ao dizer que Lênin era um “desvio à direita” do marxismo convencional. Na peculiar linguagem dele, isso significa basicamente que Lênin era autoritário – nisso, ele está certo.

O fato é que o regime de governo na União Soviética foi, do princípio ao fim, uma ditadura horrível. Não precisamos nos alongar a esse respeito – o mundo já teve 100 anos para chegar a essa conclusão. O que merece atenção, como dito, é que ao longo desse tempo sempre houve quem defendesse o comunismo. Não aquela sociedade igualitária, sem contradições, prometida por Marx e Engels, mas o comunismo real, que vigorava na URSS, na China e em outros países menores. Tais apoiadores não estavam só nos próprios países comunistas, onde aliás uma crítica ao governo valia uma certidão de óbito, mas nas democracias ocidentais.

Em 1934, recém-emigrado aos Estados Unidos, Albert Einstein se recusou a assinar um manifesto que condenava Stálin por executar inimigos políticos. Segundo ele, “os russos provaram que seu único objetivo é a melhoria das condições de vida de seu povo”. No mesmo ano, o escritor inglês H.G. Wells escreveu sobre Stálin: “Nunca encontrei um homem mais sincero, justo e honesto, e é a essas qualidades e não a qualquer coisa oculta e sinistra, que ele deve sua tremenda e indisputada ascendência sobre a Rússia”. Pouco depois, também o escritor irlandês George Bernard Shaw teve oportunidade de demonstrar sua ingenuidade ao declarar que os julgamentos de fachada realizados em Moscou em 1936, que condenaram à morte vários veteranos bolcheviques, “demonstravam claramente a existência de conspirações contra o regime”.

Ora, os próprios bolcheviques nunca esconderam a natureza de suas intenções e de suas ações. “A baioneta é uma necessidade essencial para se introduzir o comunismo”, disse Karl Radek. “Temos que acabar de uma vez por todas com essa baboseira papista-quaker de sacralidade da vida humana”, disse Trótski. “Não devemos executar apenas os culpados; a execução de inocentes impressionará as massas ainda mais”, disse Krylenko. “A substituição do estado burguês pelo estado proletário não é possível sem revolução violenta”, escreveu Lênin.

O que explica então a cegueira ocidental? Alguns mecanismos podem ser propostos. O mais simples é a pura ignorância, que parece ter sido o caso do cientista e dos artistas mencionados acima, cuja opinião só tinha repercussão pela notoriedade que obtiveram em suas áreas de atividade. Se pelo menos celebridades se abstivessem de falar do que não entendem… mas não parece que isso vá acontecer tão cedo.

Entretanto, nem todos os defensores do stalinismo eram ignorantes. Walter Duranty, repórter do New York Times que ganhou o prêmio Pulitzer, morava em Moscou na época do Holodomor, a grande fome que vitimou milhões de pessoas, principalmente ucranianos, entre 1932 e 1933. Duranty não podia alegar ignorância ao escrever reportagens que minimizavam a situação. “Qualquer notícia de fome na Rússia hoje é exagero ou propaganda maliciosa”, escreveu ele. A opinião do historiador Eric Hobsbawm sobre a invasão soviética da Hungria em 1956 foi a seguinte: “Ainda que aprovemos, com o coração pesado, o que está acontecendo na Hungria, devemos dizer francamente que a USSR deveria retirar suas tropas do país assim que possível”. Ele aprovava, mas com o coração pesado… e fazia uma exigência! Que os tanques fossem embora — assim que possível. Che Guevara, em 1957, escreveu que “devido à minha formação ideológica, sou dos que acreditam que a solução dos problemas do mundo está atrás da chamada cortina de ferro”.

Hobsbawm e Guevara sabiam do que estavam falando. Nesses casos, o mecanismo em funcionamento não é a ignorância, mas a esperança. O sonho comunista, de uma sociedade sem classes e sem miséria, cega o sonhador para a realidade e o faz aceitar cada vez mais injustiças no presente em nome da grande justiça futura que ele espera. Jean-Paul Sartre, por exemplo, demonstrou estar disposto a aceitar uma boa dose de realismo no caminho para o futuro. Segundo ele, “um regime revolucionário precisa se livrar de um certo número de indivíduos que o ameaçam e não vejo outra maneira que não a morte; sempre se pode escapar da prisão”.

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Pessoas afetadas por esse mecanismo acreditam que, por mais percalços que haja no caminho, pelo menos as coisas estão indo na direção certa. Graham Greene resumiu esse sentimento: “Comunistas cometeram grandes crimes, mas pelo menos não ficaram de lado (…) indiferentes. Prefiro ter sangue nas mãos do que lavá-las como Pilatos”. O poeta Pablo Neruda, por seu lado, ainda encontrava inspiração em 1953 para compor uma Ode a Stalin (que o leitor pode encontrar procurando pela primeira linha: “Camarada Stalin, yo estaba junto al mar en la Isla Negra”).

Mas ninguém ilustra esse caso melhor que Hobsbawm, filiado ao Partido Comunista Britânico até 1991. Em uma entrevista realizada em 1994, aos 11 minutos, ele é perguntado: “se [naquela época] você soubesse que milhões de pessoas estavam morrendo no experimento soviético, isso faria diferença em seu apoio ao comunismo?”. O homem hesita, reflete, não quer dar uma resposta apressada. Finalmente, diz que “provavelmente não”, baseado no argumento de que “assassinatos em massa e sofrimento em massa são universais” e que a chance de um novo mundo nascer ainda valeria a pena. O entrevistador, incrédulo, tenta esclarecer: “O que você está dizendo é que, se o futuro radiante anunciado pelo comunismo tivesse mesmo aparecido, a morte de 15 ou 20 milhões de pessoas teria valido a pena?”. Tendo já levado a cabo toda a reflexão que julgava necessária, Hobsbawm responde de forma rápida e taxativa: “Sim”.

Há pelo menos mais um mecanismo, que não é baseado nem na ignorância nem na esperança, que merece ser notado. Mesmo alguém que conhece os fatos e não acredita na utopia marxista pode ser levado a apoiar o comunismo, mesmo em suas formas mais ditatoriais e violentas, se o seu ódio ao capitalismo, ou ao cristianismo, ou ao consumismo, ou a qualquer característica identificada com as sociedades ocidentais, for grande o bastante.

Nesse contexto, vale contrapor a Neruda um trecho do poema “O guardador de rebanhos”, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa:

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

O poeta identifica com precisão a presença do ódio como motor do sentimento de indignação no homem que lhe fala. E o teria percebido também na seguinte frase de Che Guevara: “Eu tenho provavelmente mais em comum com uma baleia do que com um casal burguês (…) que eu varreria da face da terra se pudesse”. E na seguinte declaração de Sartre, em uma carta a Albert Camus, sobre os campos de trabalhos forçados soviéticos: “Acho esses campos inadmissíveis, mas acho igualmente inadmissível o uso que se faz deles na imprensa burguesa”. Ele acha campos de concentração e reportagens de jornal coisas igualmente inadmissíveis! Não acredita que os campos estejam construindo o sonho socialista, mas seu ódio pela imprensa burguesa fala mais alto. Michel Foucault também encontrava justificativa para apoiar ditaduras no fato de que “o capitalismo industrial do ocidente é a sociedade mais opressora, desonesta, egoísta, selvagem e impiedosa que se possa imaginar”.

Qualquer coisa é melhor do que o que temos atualmente, é o que parecem pensar aqueles que operam nesta chave. O deputado britânico George Galloway, ícone de extrema-esquerda, afirmou em uma entrevista em 2002: “Se você está me perguntando se eu apoiei a União Soviética, sim, apoiei. Eu apoiei a União Soviética e acho que o desaparecimento da União Soviética é a maior catástrofe da minha vida. Se houvesse uma União Soviética hoje, não estaríamos tendo esta conversa sobre ir à guerra no oriente médio, e os Estados Unidos não estariam vandalizando pelo mundo”. Tudo, menos os Estados Unidos! Tudo, menos o ocidente! Como perguntou Lukacs ainda em 1919, “quem nos salvará da civilização ocidental?”. Muitos procuram esse salvador, e há vários candidatos.

Não poderíamos terminar um texto sobre estupidez política sem citar o arquiteto Oscar Niemeyer, segundo quem “a Revolução Russa de 1917 fez de um país de mujiques a segunda potência mundial. Foi fantástico. Setenta anos de glória e a vitória definitiva contra o nazismo. Não podemos esquecê-la. Sabemos que é o caminho a seguir”. Isso foi dito em 2005. Quatro anos depois, o homem ainda lamentava que a figura de Stálin fosse “tão deturpada e injustamente combatida pelo mundo capitalista”.

Voltando ao início, insisto que é injusto associar todo esquerdista à defesa de ditaduras. Mas é preciso reconhecer que a esquerda poderia fazer mais para se distanciar dessa imagem. Basta olhar as reações provocadas pela morte do ditador cubano Fidel Castro no ano passado. “O maior de todos os latino-americanos”, segundo Lula; “Um visionário que acreditou na construção de uma sociedade fraterna e justa”, segundo Dilma; “Amigo do Brasil e do PT”, segundo Rui Falcão; “Embalou os sonhos daqueles que acreditam que esse mundo tem jeito”, segundo Luciana Santos, presidente do PCdoB, partido que tem como um de seus principais objetivos “a derrocada do capitalismo e a conquista do socialismo”.

Se alguém sai à rua hoje em dia carregando uma bandeira vermelha com uma suástica, as pessoas de direita ao seu redor dirão: “Ali vai um demente”. Por que as pessoas de esquerda, ao verem uma bandeira vermelha com a foice e o martelo, ainda dizem “ali vai um bravo”? A Revolução Russa começou em 1917. Deixemos que ela termine. Até para que a esquerda possa se livrar do peso dessas gerações mortas, que oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.

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Marcel Novaes

Professor, autor de Do czarismo ao comunismo (Três Estrelas, 2017) e O grande experimento (Record, 2016), sobre a revolução americana.