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Boicote ao Santander: quem são os verdadeiros censores

por Lucas Berlanza (12/09/2017)

Censura é negar o direito de cidadãos se organizarem para repudiar o que consideram repulsivo e criminoso.

O roteiro se repete no caso envolvendo a polêmica exposição “Queermuseu: Cartografias da diferença na Arte brasileira”, exibida pelo banco Santander e patrocinada com verba da Lei Rouanet. Uma vez mais, os obscurantistas, os amantes das seitas mais fanáticas e monopolizadoras da virtude dos tempos que correm promoveram sua sanha persecutória contra a liberdade de expressão. Obviamente, não nos estamos referindo aos religiosos…

Aos fatos, antes dos finalmentes. Uma “exposição artística” bancada pela Lei Rouanet – portanto, pelo Estado, através de renúncia fiscal – se propunha a fomentar a “reflexão” acerca dos “desafios que devemos enfrentar em relação a questões de gênero, diversidade, violência, entre outros”. Essa “reflexão”, profundamente instrutiva através das “obras de arte”, ocorreria no espaço do banco, mas não apenas: o projeto também teria o objetivo de “fortalecer laços com educadores e estudantes”, fornecendo material impresso para alunos e professores da rede pública ou privada.

Tal oportunidade de “reflexão” exporia o público e os infantes alunos a imagens com prática explícita e gratuita de zoofilia, “desconstruções” de símbolos religiosos – porque incomodar os cristãos é sempre visto como algo “revolucionário”, já que não se teme muito receber qualquer homem-bomba sobre as fuças como resposta – e desenhos, sobretudo, grosseiramente medonhos, induzindo a uma percepção sexual das crianças e, por consequência, à pedofilia.

Que foi feito? Grupos como o Movimento Brasil Livre, religiosos e indivíduos em geral, fazendo uso de seu livre arbítrio e seu direito de expressão, se mobilizaram para atacar esse mau gosto repulsivo, arquitetado para afrontar imensas parcelas da população, enfatize-se, com apoio estatal. A pressão foi considerável. Resultado? Ameaçado de ser boicotado e perder clientes, o Santander encerrou a exposição, desculpando-se e admitindo que algumas das obras exibidas “desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas” – esquecendo-se de ir além e dizer que enalteciam e ensejavam patologias mentais e até práticas criminosas.

Muita histeria sucedeu a esse episódio; histeria, lamentavelmente, bastante previsível. Em primeiro lugar, irrompeu aquela que provém da parte da “esquerda prafrentex”, pós-moderna e crente no próprio mandato divino para “desconstruir” o mundo e os “valores da família conservadora neoliberal”. As manifestações obtusas e mal-intencionadas de colunistas, militantes e pregadores inveterados da ditadura do politicamente correto e do pedantismo “bom-mocista” pela “paz, amor, sexo, drogas e rock’n’roll”, sempre programados para vomitar as torpezas enjoativas de suas almas bregas, não poderiam faltar. “Censura! Fascismo! Amantes da ditadura militar avançam contra as conquistas sociais, de gênero, as importantes bandeiras que defendemos para combater dramas relevantíssimos da nossa sociedade!” – que sabemos serem estrovengas como, por exemplo, o direito sagrado de uma mulher se dizer homem e ser assim enxergada por todos em um passe de mágica, caso contrário serão intolerantes trogloditas da época das cavernas.

O mais triste, entretanto, foi que alguns liberais – ao menos assim autointitulados – se somaram ao repúdio dessa patrulha. Mais triste, sim; nem por isso menos esperado. Horrorizar-se com o boicote e as manifestações de protesto contra essa exposição aviltante do Santander é exemplo de uma notória idiossincrasia de certas alas frígidas do liberalismo. Não é nem de longe a primeira vez que vemos isso.

Vêm-nos à mente o episódio de 2015 em que motivos cristãos, inclusive a representação do próprio Jesus Cristo, foram achincalhados em uma Parada Gay, para todo mundo ver, também com verba pública envolvida e figurando a religiosidade tradicional como a grande vilã opressora. É o ofendido, em suma, obrigado a financiar o escárnio contra si mesmo.

À época, estivemos entre as vozes que condenaram a “micareta cristofóbica”. Incentivamos a agressão dos envolvidos e destruição dos objetos usados? A violência, o vandalismo? Em momento algum. Rechaçamos com veemência qualquer recurso à destruição e à intimidação física. A despeito de o artigo 208 do Código Penal estabelecer que esse tipo de afronta pública à religião é crime, não formulamos uma palavra pela censura ou pela imposição. Tudo que fizemos então foi exercer nosso direito de repudiar, de opinar, de expressar nossa percepção e de exigir que nossos recursos – pois os recursos do Estado são os nossos e, se o Estado age, é na pretensão de nos representar – não subvencionem esta bizarria.

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O mesmo se fez agora. Por deliberação inteiramente privada, cidadãos se organizaram para manifestar sua indignação com o conteúdo na galeria – se parte dele ou a sua íntegra, é irrelevante – e pontuaram que não permaneceriam clientes de quem apoia tal gênero de ofensa. O banco, entendendo o prejuízo que ele próprio teria, tomou uma decisão, também ela, inteiramente privada; não se viu, em momento algum, o bedelho do Estado sendo metido nessa história, a não ser em seu começo, quando facilitou a realização da própria exposição. De novo: tudo inteiramente de iniciativa privada. A não ser que estejamos inaugurando uma nova concepção “liberal”, ditando que algo que alguém faça por livre vontade deixa de ser uma iniciativa privada apenas por estar sendo feito também por várias outras pessoas ao mesmo tempo – raciocínio mais que ridículo, por uma lógica básica para aluno de primário: um mesmo tipo de produto só poderia ser vendido uma única vez para um só comprador, e também só uma pessoa poderia assistir à exposição.

Tal obviedade não mudou o fato paradoxal de que os esquerdistas saíram em defesa de um banco, eles que vivem a grasnar contra a “poderosa elite banqueira”, e uma estranha e persistente parcela dos liberais execrou manifestações livres de desagrado e um boicote honesto e completamente legal como monstruosidades censoras. Ao fim e ao cabo, o discurso de respeitar a diferença e a livre expressão, absorvido como retórica vazia, é confundido por uns e por outros com uma suposta obrigação de calar a boca quando se trata de exercer o direito fundamental de formular uma crítica, ou contestar imoralidades e afrontas à civilização, individualmente ou em grupo.

Nessa polêmica, tanto esquerdistas quanto liberais que se unem nesse repúdio irracional ao direito de repúdio falam em nome da “liberdade”. Os primeiros, no entanto, sabem bem o que desejam: a dominação total da esfera simbólica, da linguagem, da geração de referências perante a sociedade, com a criminalização de toda e qualquer divergência, mesmo – e principalmente – aquela fundamentada nos valores mais medianamente caros ao cidadão comum. Invadir eventos acadêmicos e impedir que escritores e professores com ideias liberais e conservadoras – às vezes até sociais democratas como Demétrio Magnolli – consigam concluir suas explanações em colóquios, para eles, são gestos de extrema envergadura moral. Expressar a intenção de não consumir mais determinado produto ou não ser mais cliente de determinada empresa é uma aberração pré-histórica.

E quanto aos segundos, os “liberais” que se somam à sua cantilena? Bem, esses na verdade não sabem patavinas acerca da liberdade que dizem defender, e se permitem converter em nada mais que agentes muito úteis – “idiotas úteis”, em aplicação precisa do jargão – da tirania que dizem combater. Que cesse essa infantilidade, ou nem precisarão de adversários a quem se opor; farão o trabalho sozinhos.

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Lucas Berlanza

Jornalista, colunista do Instituto Liberal e editor da Sentinela Lacerdista. Autor do Guia bibliográfico da Nova Direita.