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Cartógrafos sem bússola

por Daniel Christino (13/09/2017)

O "Queermuseu" desencadeou uma polêmica sem objeto real. Verdadeiramente pós-moderna. Um abraço de afogados.

Manifestação em Porto Alegre contra o fechamento do “Queermuseu” (foto: Zero Hora)

O debate que se seguiu ao cancelamento da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” é um indicador de que a arte ainda incomoda. Resta perguntar se pelos motivos certos.

Em 1917 estreou em Paris o ballet Parade composto por Erick Satie, coreografado por Leónide Massine, com cenários de Pablo Picasso e panfleto de Apollinaire. A obra sumarizava todas as transgressões formais e estilística da arte moderna, mas foi especialmente criticada por um outro motivo. Com um tema aparentemente inocente (um grupo de artistas circenses procurava seduzir o público para assistir sua apresentação num teatro qualquer) o Ballet ignorava, em sua encenação, a guerra que assolava a Europa. Ao final da apresentação – pelos menos é o que reza a lenda – metade da plateia vaiava furiosamente enquanto a outra metade aplaudia entusiasmada[1]; ao mesmo tempo lançavam impropérios uns aos outros.

A Parade é evocada aqui como um evento modelo e resume bem o debate sobre a arte e transgressão no contexto modernista[2]. A primeira metade do século XX viu uma profusão de vanguardas e movimentos dispostos a radicalizar e romper com o arcabouço conceitual da apreciação estética tradicional, em parte porque, com a Primeira Guerra Mundial, o próprio solo cultural do ocidente se abalava. Embora o processo que levou a este rompimento tenha se iniciado no barroco (mais especificamente, segundo Gombrich, no maneirismo) foi apenas no modernismo que ele atingiu maturidade e, neste caso, tal maturidade coincide com as vanguardas[3]. Neste sentido transgressor o vanguardismo modernista, como formulação de uma crise cultural, continua a ser uma referência para a história da arte, mesmo que tenha terminado, melancolicamente, num bidê de galeria. Aliás, um alerta: cito os modernistas não para forçar qualquer simetria com a exposição “Queermuseu”, como se estivesse a insinuar que Adriana Varejão e Leonilson fossem nossos Picassos e Saties, mas para estabelecer um eixo de referência e poder afirmar exatamente a assimetria que vejo entre a Parade e a sua paródia de Porto Alegre.

Ora, estamos no espaço da emulação vicária porque uma bricolage de gosto duvidoso travestida de denúncia social, ou melhor, de experiência estética e crítica, é abraçada por uma censura moralista de carolas mui ofendidos e o debate torna-se uma algaravia cheia de som e fúria, encenada por idiotas de Youtube e social justice warriors de Facebook. A polêmica erra porque discute pressupostos que não estão nem na exposição em si nem na transgressão denunciada. É uma relação neurótica de dependência construída sobre um flatus vocis estético. Uma polêmica sem objeto real. Verdadeiramente pós-moderna. Um abraço de afogados.

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Quando, em pleno século XXI, uma exposição simula como elemento propagandístico as tensões que, na primeira metade do século XX, tinham razão de ser e recebe como resposta corrente e cadeado no portão, já não é mais possível mirar com condescendência um público que se escandaliza com a moralidade agredida e não tem a capacidade de conceber seu escândalo num horizonte histórico, intelectual e estético maior. Ao pedir, metaforicamente, as cabeças dos responsáveis, parte da direita conservadora dá concretude ao que era apenas simulacro, operando o desvio da questão para o campo da política e da moral, para o campo da liberdade.

Neste contexto o debate não poderia ter ido para nenhum outro lado senão o do virtue signalling. De fato, tanto os defensores quanto os críticos constroem seus argumentos a partir de um ponto de vista moral e a terra de ninguém desta guerra cultural é o conceito de liberdade de expressão. Mas como os argumentos partem do moral high ground, i.e., da assunção de que minha posição no debate é moralmente superior – porque estou do lado da liberdade ou do lado da tradição, e meu papel no debate é exatamente estabelecer este pressuposto – o caráter paródico e derivativo da polêmica escapa à análise. O caso não é para censura, mas para a ironia, quem sabe até para o deboche, tonalidades afetivas mais adequadas ao tropo da imitação menor, do derivativo.

Acabamos por reeditar a mesma questão da transgressão de 1917, mas em termos muito menos interessantes. É, realmente, uma cartografia feita sem bússola.

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NOTAS

[1] SEVCENKO, Nicolau. Orpheu extático na metrópole. Cia das Letras : São Paulo, 1993.

[2] Ela fez 100 anos ano passado, e no Youtube há um vídeo que nos dá uma boa ideia do que foi a apresentação original.

[3] GOMBRICH, E.H. Fact and Norm. Chicago University Press : Chicago, 1985. Cf. Também ORTEGA Y GASSET. A desumanização da arte. Ed. Cortez : São Paulo, 2012.

Daniel Christino

Doutor em Comunicação e professor da Universidade Federal de Goiás.