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Biografia do presidente americano é valiosa por mostrar o modus operandi do magnata antes da política.

“Revelando Trump: A história de ambição, ego e poder do empresário que virou presidente”, de Michael Kranish e Marc Fisher (Alaúde, 2017, 424 páginas)

A chave para entender figuras importantes da política é julgá-los pelo fator predominante na determinação de suas ações. Estudar a fundo as ideias de José Sarney, por exemplo, será tão infrutífero quanto analisar o desejo de Clodovil por mulheres.

O senhor Donald Trump, portanto, deve ser avaliado tendo em vista aquilo que guia suas ações: o seu ego. A biografia Revelando Trump, recém-publicada em português, cumpre bem essa missão.

Para entender o ego de Trump, é preciso retroceder no tempo. O livro explica a história da família desde antes de migrar da Europa para os Estados Unidos. Acompanha o garoto do Queens, o universitário relapso, o jovem empreendedor, o magnata fascinado pelos holofotes, o apresentador de reality show, o político boquirroto.

A obra foi escrita pelos jornalistas Marc Fisher e Michael Kranish num período de três meses em meados de 2016; isso ajuda a explicar a aparente falta de entrevistas com personagens-chave da vida do magnata. O resultado final, entretanto, deixa poucas lacunas.

A campanha presidencial ocupa um sétimo do livro – apenas o trecho final.  Os trechos mais interessantes vêm antes disso. O apanhado de pequenas histórias permite, aos poucos, compreender melhor de onde veio Donald e o que o motiva.

Um dos personagens mais interessantes da obra é John Barron, que surgiu em diferentes momentos da jornada de Trump para plantar notas na imprensa a favor do empresário. Trata-se do próprio Donald Trump.

Os autores são jornalistas do Washington Post – portanto, parte do conglomerado que os seguidores mais leais de Trump se habituaram a chamar de fake news. Mas há pouco o que contestar. A maior parte das histórias relatadas no livro são públicas, divulgadas pelo próprio Trump – o ego não lhe permite desenvolver uma estratégia de sucesso sem que, mais cedo ou mais tarde, ele acaba se gabando publicamente dela.

Distorcer a verdade, por exemplo, funciona. “As pessoas querem acreditar que algo é o maior e o melhor e o mais espetacular – eu chamo de hipérbole verdadeira. É uma forma inocente de exagero – e uma maneira muito eficaz de promoção”, diz Trump, citado no livro.

Quando colocadas em uma mesma obra, em sequência temporal, os fatos revelam um homem apaixonado pela ideia de sucesso – e pouco além disso.

Há espaço para divergência de interpretações, entretanto.

Conservadores pró-Trump (o que não é um pleonasmo) podem enxergar na narrativa a história de um apóstolo Paulo antes da conversão.

Para outros, a obra serve como corroboração de que Trump sempre foi, e continua a ser, uma figura detestável.  Estes, entretanto, têm um consolo: tire as “hipérboles verdadeiras” e o que resta é alguém muito diferente de Benito Mussolini.

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Gabriel de Arruda Castro

Jornalista formado pela UnB e mestre em administração pública pela Universidade da Pensilvânia.