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Filosofando sob o sol

por Amálgama (17/10/2008)

por Paulo Vilmar * – Deixa que a mamãe sirva o teu suco! – Queres um sanduíche diferente? – Vamos pôr uma camiseta, o sol está muito forte… 15h30m de um belo dia ensolarado, nós na piscina, divididos em grandes brincadeiras e eu, mesmo sem querer, comecei a notar o excesso de mesuras com que […]

por Paulo Vilmar *

– Deixa que a mamãe sirva o teu suco!

– Queres um sanduíche diferente?

– Vamos pôr uma camiseta, o sol está muito forte…

15h30m de um belo dia ensolarado, nós na piscina, divididos em grandes brincadeiras e eu, mesmo sem querer, comecei a notar o excesso de mesuras com que as mães tratavam seus rebentos machos. Minha esposa não fugia muito disso, mas era um pouco diferente no trato com o João, o primeiro de nossos temporãos homens. Virei a cabeça, devagar, como o dia requeria e receitava, ajeitei-me melhor na branca cadeira espreguiçadeira e pus-me a filosofar – em português, mesmo.

Casei há bons vinte e dois anos, e há vinte convivo com crianças de minha descendência. Lembrei-me da Carol, nascida tão pequenina e vinda ao mundo sem nenhum manual de instruções anexo. Cada dia era uma aposta que educação é algo empírico, que já vem grudado aos nossos genes e que vamos, por bem ou por mal, aplicando conforme vão aparecendo os dilemas, ou medos, problemas. Não vou aqui declinar o método de educação aplicado a nossa bela estudante de Jornalismo, mas o certo é que quando ela ganhou sua inseparável maninha, aos dois anos, completara-se para nós um ciclo e passávamos a ser pais full time – com a vinda da Mariana, já não havia tempo para experimentos ou amadorismos!

Foram tempos belos e recheados de descobertas tanto para nós quanto para elas, “as meninas”, como as chamávamos, pois compartilhavam de quase tudo juntas. Volta-se, então, para esse período o meu “concatenar de premissas”, pois, ao que me lembre, tenho certeza que ambas foram criadas de forma a serem independentes em tudo! Ouvíamos até uns senões, de avós, tios, madrinhas e afins, sobre o que chamavam de “excessos” na liberalidade da educação das mesmas. Olhando agora, da altura de certa distância, vejo que as criamos, “as meninas”, como pensávamos a mulher moderna. Não nos atamos a antigos dogmas, elas sempre participaram de tudo, da política (Mariana tinha nove meses quando saiu em passeata, com a cara-pintada, exigindo o impeachment de Collor) e da vida social (as levávamos nas festas, quando não tínhamos com quem deixar, sem hora para voltar).

Carolina com cinco anos foi a primeira aluna da escolinha de futebol do professor Tigrão, para espanto dos pais que levavam, também, seus rebentos machos. Elas sempre tiveram suas atividades pautadas nas suas vontades e aptidões, independentes das amarras sociais da dicotomia “coisas de homem”/“coisas de mulher”. Penso que a educação caminhou por estrada aberta, quando as vejo sorridentes, preparando sem estresse ou obrigações suas futuras carreiras, quando escolhem suas roupas, quando cantam, escrevem ou cozinham. São, sem dúvidas nenhuma, mulheres dos novos tempos, independentes e desencanadas, politicamente coerentes e firmes, socialmente felizes, cheias de amigos e, sobretudo, donas de suas próprias idéias e caminhos…

Retorno, então, aos meus temporãos: João resolveu aparecer há sete anos, quando já esperávamos, sinceramente, somente cuidar de netos – e num futuro ainda distante (Carol tinha 14 e Mariana, 12 anos). Não preciso falar sobre o que representou um menininho, àquela altura, em nossas vidas. Aos poucos fomos aprendendo tudo de novo e, sobretudo, eu fui notando que era diferente a forma como as mulheres da família o tratavam. Passou a ser um reizinho, tudo que queria, era prontamente atendido, sua vontade era lei, suas manias, motivos de risos. Mas o destino derrubou o reinado do pobre João – eis que em seu terceiro aniversário, descobrimos nova gravidez.

Médico, exames, pressão alta, gravidez de risco, hospital e novo menino aparece em nossas vidas, o Francisco. Novo reizinho, tudo na família passa a girar em torno do membro júnior. O João, coitado, para se fazer notar, começa a literalmente fazer de tudo! Passados três anos, notei que estava demais e resolvi botar o dedo na ferida.

Não existe uma competição entre os meninos, mas fica claro que da mesma forma que criamos as meninas para serem livres e independentes, criamos “os meninos” para exigirem das mulheres o que nossos avôs exigiam. Ele ainda não se veste sozinho? Coitadinho, tem tanto tempo pela frente! O café? Passa manteiga para ele, cria carinhas nos sanduíches… O bife tem que ser cortadinho em quadradinhos e comido com palito! Uma banana cinco minutos antes do almoço? Por que não? A bicicleta tem que ser cor de prata e da Hot Weels? O lanche do McDonalds? Ora, eles querem! Camiseta Tigor, tênis Seninha? Celular aos sete anos? Ora, eles querem.

Não sei se isso acontecia somente na minha família, mas estava bastante preocupado com a forma como educávamos os meninos. Ao mesmo tempo em que criamos uma mulher que não se submete, de outro lado, colocamos no mercado meninos totalmente dependentes, da cor da roupa ao que almoçar… Pergunto, quem vai fazer sanduichinhos com carinhas para o velho homem que continuamos repondo nas prateleiras? Ele vai querer uma mulher que cozinhe, passe, lave, seja carinhosa e no final o chame de meu rei? Tenho acompanhado as ofertas no mercado e sei (informação privilegiada) que esta mulher está em falta, nem tenho certeza se haverá mais alguma para repor…

É gratificante criá-los para a liberdade, crianças aprendem ligeiro. Baseado nisso, e em horas de conversas com as mulheres da família, consegui convencê-las a darmos a chance dos “meninos” serem felizes. Assim, fomos aos poucos tratando-os como pessoas; o resultado de oito meses é espetacular. Sou um tipo de pai que é presente, estou em todas, choro (até demais), lavo louça, faço almoço, limpo a casa, passo roupa, sempre troquei fraldas e, sobretudo, acredito na palavra, no poder que ela tem e por isso discuto a relação, exaustivamente discuto atitudes, busco o porquê das coisas antes de tomarmos decisões, que em nossa casa são tomadas com o voto de todos, inclusive do Francisco, que tem três anos e meio.

Neste alvorecer em busca da educação que faça “os meninos” homens do seu tempo, busco, acima de tudo, deixar de herança valores e atitudes. É difícil nos policiarmos, posto que às vezes é muito mais fácil um grito do que a compreensão e o carinho. Honestos, livres, respeitadores e contra qualquer injustiça – esse é o caráter que busco para eles. Esta forma de educação tem trazido enormes recompensas, é lindo descobrimos que o João gosta de cozinhar, gosta de presentear as pessoas, não se importa com grifes, não discrimina ninguém na pracinha e ainda sonha com uma bicicleta nova no natal – mas não precisa ser Hot Weels. Pelo que vejo, o Francisco segue o mesmo caminho, já que o herói dele nem sou eu, é o João…

Fique claro que não existe forma estática para a educação de nossos filhos, mas é bom que nos acostumemos a plantar em nosso jardim as raízes do novo homem, se é que queremos, de verdade, um novo mundo possível.

 
* Paulo Vilmar é advogado e mora em Santa Maria-RS. Blog: http://caldodetipos.blogspot.com/.

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