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Não se ofenda, blogosfera

por Amálgama (03/10/2008)

por João Grando * – Todo mundo taca o pau na Rede Globo, nos programas, etc. Muita gente enche a boca para dizer (e falta só bater no peito) que não sabe nada das novelas, que não conhece a dança do quadrado, que não sabe nada do BBB… Ou seja, é uma das poucas ignorâncias […]

por João Grando * – Todo mundo taca o pau na Rede Globo, nos programas, etc. Muita gente enche a boca para dizer (e falta só bater no peito) que não sabe nada das novelas, que não conhece a dança do quadrado, que não sabe nada do BBB… Ou seja, é uma das poucas ignorâncias que as pessoas tratam com orgulho.

Novelas movimentam milhões de reais e geram muitos empregos. Mesmo assim um monte de gente fala mal e diz que não tem tempo para assistir. Aí o Murilo Benício dá uma declaração semelhante sobre blogs e recebe um caminhão de críticas, sustentadas justamente pelo fato de estes gerarem empregos e movimentarem milhões de reais! Disse o ator global: “Sou um homem trabalhador e não consigo entender essas pessoas que chegam em casa e ainda escrevem num blog.”

A internet é uma mídia e como tal somente carrega as coisas, portanto por ela podem passar bobagens e genialidades, com a particularidade de ser aberta e livre, o que potencializa as bobagens e genialidades e muitas vezes as aproxima. É mais óbvio do que eu tenho sido até aqui dizer que é uma ferramenta que deixa o mundo mais pós-moderno, mais igual, distribui melhor o poder (de um para outro e não de cima para baixo – a saber: uma das características-chave do pós-modernismo, baseado em Foucault). Um enorme barco. Um buzão grátis. Uma grande caixa, talvez até um caixão, para idéias serem enterradas, homenageadas e permanecerem disponíveis para visitação. Enfim, apelo para o blá-blá-blá para deixar de lado as metáforas bobas: cabe todo mundo, há espaço (e muito – mega, giga, tera, peta) para todos.

Pós-modernismo de novo: o mundo hoje é um pouco (ou um muito, ou muitos muitos) este saco de gatos mesmo e quem sabe é tudo farinha do mesmo saco: Guimarães Rosa e Mulher-Melão, é tudo informação – tudo pode ser 0 ou 1. E sim, você pode escolher 0 ou 1, sim ou não, ser ou não ser. Ou pegar o 0 e o 1 e fazer uma combinação, misturar o improvável, coisa tão óbvia que até a Coca Zero faz com músicas populares.

Então redundo, repito, só não bato no peito nem encho a boca: para quem gosta de pegar opiniões prontas, também dá para ser manipulado pela rede mundial de computadores, assim como dá para fazer experimentos lingüísticos/artísticos/audiovisuais relevantes; dá para somente se divertir, ver umas fofocas, ter uma Contigo!/TiTiTi gigante e sempre atualizada ou buscar conhecimento erudito numa biblioteca igualmente gigante, do passado, à base de domínio público, do popular, à base de colaborações; dá para achar referências para usar no mundo real (uma hora ou outra é preciso passar na livraria, no sebo, ir ao encontro num shopping e “estarei com um boné vermelho para você saber que sou eu”). A festa é para todos: os reis do baile podem ser nerds, os rótulos podem ser trocados, emprestados, descartados.

Demandávamos uma mídia assim e hoje a temos. Excelente. O mundo precisava da fotografia, demos um jeito, da penicilina, demos um jeito, o cinema, idem, o resto, etc. Para encerrar as obviedades: a internet é uma realidade: ninguém mais precisa (ou pode) questionar o seu poder e de seus rebentos. “Blog” já foi a palavra do ano num certo ano e para uma certa eleição. Capas de revistas, livros, outras mídias: muitos (o equivalente a todos) reconhecem seu (evidente) valor, sua influência na sociedade, no mundo real etc e muitos etc.

Então não se ofenda com críticas como a de Murilo Benício, blogosfera.

Aliás, tome cuidado com a maneira de lidar com elas: o rock ouviu muita coisa também e resistiu, mas hoje virou uma perigosa arma dos “inimigos”: aquele pessoal que quer dizer o que é bom usando a palavra “bom” e assim esquece das sutilezas que podem inutilizá-la; ou que acha que uma coisa que defenderam tanto se torna inqüestionável. É a síndrome do Stálin estragando a Revolução Russa. Tomemos cuidado com isso. A revolução iniciou, não precisamos ser ditatoriais e querermos a adesão de todos. Quem não gosta, não procura e assim não acha.

Alongar-me-ia demais se entrasse nisso, então, para não deixar a hora esfriar e perder o seu calor, bem como para vocês não perderem mais tempo como eu perdi, fico por aqui, jaz minha breve opinião sobre o breve episódio.
* João Grando é funcionário público (filósofo, portanto), escritor não reconhecido, estudante de artes, técnico em administração não praticante, meia-armador amador e amador também para com o resto das coisas da vida. Blog: www.joaogrando.wordpress.com.

[algumas reações a Murilo Benício:
– no Diva Diz
– no Ah! Tri né!
– no Pantufas, Fotos e Baunilha]

Amálgama

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