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por Estêvão dos Anjos * – Diz o ditado: “em terra de cego quem tem um olho é rei”, na composição de Oswaldo Montenegro com Zé Ramalho (“Do muito e do pouco”), é acrescentado ao dito popular o questionamento: “imaginem quem tem os dois?”. Àqueles quem têm olhos (e estômago) para assistir ao novo filme […]

por Estêvão dos Anjos * – Diz o ditado: “em terra de cego quem tem um olho é rei”, na composição de Oswaldo Montenegro com Zé Ramalho (“Do muito e do pouco”), é acrescentado ao dito popular o questionamento: “imaginem quem tem os dois?”. Àqueles quem têm olhos (e estômago) para assistir ao novo filme de Fernando Meirelles, Ensaio sobre a cegueira (lançado há algumas semanas no Brasil), logo constatará que o ditado não é bem assim.

Baseado na obra homônima de José Saramago, o filme relata os fatos seqüentes a uma epidemia que deixa cega a população de uma cidade inteira. A epidemia teve início com um homem (assim como no livro, os personagens não têm nomes) enquanto ele ia para casa de carro. Porém esta cegueira, diferente das outras, é uma cegueira branca, e é nesse ponto que o filme assume outro valor.

A cegueira que ouvimos falar é caracterizada pela escuridão ou ausência de luz, diferente da cegueira que a população da cidade do filme é atingida. O período da Idade Média ficou conhecido como a Idade das Trevas pelo fato do conhecimento humano não ter evoluído e por ter ficado preso às amarras do pensamento católico. Em contrapartida, o período seqüente, o Iluminismo, ficou conhecido por ser combativo aos ideais da Idade Média e por ser o período que trouxe grandes avanços no conhecimento para o homem. Foi apoiado nessa dicotomia que o argumento do filme foi construído: a cegueira branca torna-se uma metáfora para revelar um aspecto humano até então desconhecido.

Os instintos básicos do ser humano e sua luta pela sobrevivência são mostrados por uma ótica realista – naturalista, revelando de forma grotesca a precariedade humana e sua degradação mostrando-o em situações miseráveis.

Diante de tudo isso, apenas uma mulher não é atingida pela doença (Julianne Moore), sendo a única a enxergar em uma população de cegos, e será ela o elemento de ligação entre o lado humano do homem em meio aos vários homens que deixam o seu lado mais animalesco aparecer. É nítida a brincadeira que Saramago faz com o dito popular, característica de suas obras, colocando o que seria um rei numa posição de súdito dos outros seres humanos.

Outra característica de Saramago presente no filme é a falta de um personagem principal, e nisso Meirelles foi muito bem sucedido. Em um elenco no qual que figuram grandes nomes como Gael Garcia Bernal, Danny Glover e a já mencionada Julianne Moore, o diretor colocou-os em igualdade com atores desconhecidos ou que despontam agora, como a brasileira Alice Braga e o conhecido, mas não muito, Mark Ruffalo. Para alguns que não leram a obra pode parecer estranho, mas é justamente assim que Saramago trata os seus personagens, sem atores principais, sem estrelismo, reduzindo-os, enfim, a seres humanos.

Como na grande maioria das adaptações, a obra original é superior e com esta não é diferente. Faltou ao diretor explorar mais a degradação humana com cenas que buscassem captar até que ponto o ser humano pode ir, pois é retratando este aspecto que Saramago fez sua obra marcar. Em entrevista concedida dias antes do lançamento do filme no Brasil, Meirelles conta que houve a necessidade de se retirar duas cenas de estupro do filme original, que teriam três horas de duração ao invés de duas, com o intuito de deixá-lo mais leve para o público. O fato de preferir fazer com que o filme fosse mais agradável fez com que ele perdesse um pouco de ligação com a obra original. Mas isso não compromete sua qualidade.

Outro fator de distanciamento entre as duas criações, e esta sim diz respeito à qualidade da obra cinematográfica, foi a falta de reflexões e discussões com esta característica, ferramenta muito bem utilizada pelo português no romance. Em apenas uma das cenas isso ocorre, mas apenas sutilmente: é o diálogo travado sobre o porquê das imagens sacras de uma igreja estarem com os olhos vendados. Apesar de esboçar uma discussão acerca disso, no filme apenas uma interpretação do ato é jogada, e nesse ponto ficou claro que Meirelles teve que conter um pouco as idéias de Saramago, apresentando a mais simplória e a menos polêmica, talvez pensando em não chocar a platéia.

No romance, ao presenciar, dentro de uma igreja, imagens de santos com vendas nos olhos, um dos personagens levanta a problemática em relação à interação entre Deus e o homem. Dentro de algumas visões, Deus é uma extensão divina do próprio homem, assumindo feições próximas das humanas, isso explicaria o porquê dos deuses negros serem negros, o dos asiáticos, asiáticos e assim por diante. O que Saramago e sua visão atéia propõem é a inexistência de um Deus, atribuindo a ele uma criação que corresponde aos caprichos humanos. Dessa forma, nada mais justo que o deus dos cegos ser também cego.

Creio eu que análises comparativas de valor não são de grande relevância, pois cada obra é fruto de um criador, mas servem com suportes para discussões sobre a forma da construção do enredo e da apresentação de seu conteúdo. No caso de Ensaio sobre a cegueira, apesar da qualidade da obra literária ser superior – por vários fatores que vão desde a linguagem de Saramago ser restrita à literatura e impassível de adaptação até as grandes construções de raciocínio –, isso não faz a obra cinematográfica ruim, pelo contrário, dentro da proposta comercial, que é corrente nos filmes hollywoodianos, o filme de Meirelles passará a integrar a lista dos melhores produzidos nos útimos tempos.

 
* Estêvão dos Anjos nasceu em Palmeira do Índios-AL e, desde 2000, reside na capital Maceió. É estudante de jornalismo com interesse na área cultural. Desde pequeno é apaixonado por literatura. Tem receio de se apresentar como poeta mas escreve frequentemente poesias e as veicula no blog em assina – www.artenaarteria.blogspot.com.

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