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Por que o homem não fala? Porque ainda não sabe…

por Amálgama (10/10/2008)

“Nunca sinta vergonha de admitir que não sabe.” Provérbio Árabe   por Daisy Carvalho * – Confio que no princípio era o verbo. Por isso mesmo reafirmo sempre a necessidade óbvia de os homens dialogarem entre si, já que somos a única espécie que tem esta incrível capacidade. E, mesmo se comunicando, há as guerras; […]

“Nunca sinta vergonha de admitir que não sabe.”
Provérbio Árabe

 
por Daisy Carvalho * – Confio que no princípio era o verbo. Por isso mesmo reafirmo sempre a necessidade óbvia de os homens dialogarem entre si, já que somos a única espécie que tem esta incrível capacidade. E, mesmo se comunicando, há as guerras; mesmo cada qual afirmando sua (talvez) posição diante da vida que escolheu viver, ainda assim os conflitos serão inevitáveis; o difícil mesmo é convivermos com a intolerância pertinente a alguns indivíduos, já que ainda nos restam esta confiável necessidade e direito de, nem que seja em alguns aspectos, pensarmos e sentirmos que podemos ser o que nos permite nosso íntimo. Sem regras ou mentiras vãs.

Muitas vezes nos entregamos ao desejo alheio sem pestanejar, acreditando que assim, cedendo em algo que não costumamos ceder, poderemos ser mais altruístas e fazer o outro feliz. O conflito se dá quando percebemos (às vezes tarde demais) que oferecemos mais do que deveríamos, e talvez menos do que na verdade desejávamos.

Segundo Tolstoi o mal que nos acomete é o de não vigiar os pensamentos nossos. É aí, precisamente, que mora o fatal desandar das ações humanas: “Os pensamentos que criam as más ações são muito piores que tais atos em si. Você pode parar de fazer uma má ação, arrepender-se e não repeti-la. Porém os maus pensamentos são sempre repetidos, e causam outras más ações; os maus pensamentos se sucedem uns aos outros.”

Na verdade um ato falho e impensado pode sugerir inocência porque não se deu em função de um pensamento anterior a ele, portanto é necessário que se observe que alguns atos praticados pelo ser humano deveriam ser absolvidos de maiores culpas, já que atitudes tomadas sem pensar deixam claro que estas se assemelham aos atos estúpidos de uma criança.

Provavelmente quando nos dispusemos a analisar uma situação que envolve o outro, segundo Jung, automaticamente o homem usa de projeção no intuito claro de desvencilhar-se de qualquer responsabilidade na relação, seja ela afetiva ou não. É tendência natural estudarmos um caso filosófico ou de comportamento afetivo do nosso ponto de vista, do contrário seríamos todos monges altruístas, algo fatalmente inatingível para a maioria de nós.

Jesus Cristo falou ao léu – se é que falou -, que nos amássemos uns aos outros, porém é fácil (e muito) perceber que amamos primeiro a nós mesmos, um defeito espiritual, a meu ver, incorrigível no ser humano. E isso nada tem a ver com Cristianismo. O homem nasce sempre antes de suas lendas e crenças.

Um dos piores sentimentos pertinentes ao homem é o ciúme. Não o ordinário ciúme de um outro em afeto, mas aquele que sentimos de nós mesmos, provocados pela vaidade de nos sentirmos acima do outro. Mesmo nas relações sexuais há pretensões de superioridade. Até bem pouco tempo atrás, só prostitutas ficavam sobre o macho. Para Proust, o ciúme poderá formar um composto secundário, restaurando a amálgama de elementos marinhos e humanos, mas não mais como um estímulo visual, e sim cardíaco.

Enfim, no dia em que conseguirmos olhar o outro com empatia, com olhos fechados e espírito aberto, talvez seja possível que as relações humanas triunfem na paz e no amor. Mas, por outro lado, se o homem não está preparado para abrir mão de si mesmo em função do outro, dificilmente será feliz, porque a felicidade consiste na empatia e no desapego de nós mesmos. Por isso, muitas vezes relações são frustradas no momento em que um tem que abrir mão do desejo do outro. E pior, se um resolve dar-se ao desejo do outro numa intensidade superior ao desejo dele.

“Das regras, ‘Você deve se comportar exatamente como se comportam os outros’ é uma das mais perigosas; ela quase sempre resulta em você se comportar mal.” – Jean de La Bruyère.

Desta forma acredito, e tenho mesmo que acreditar, que há felicidade sim, numa relação afetiva, mesmo os pólos sendo contrários (melhor); a dificuldade, como disse no início, mora na casa sem diálogos e na intolerância. O velho Sócrates, com sua maiêutica, conseguiu experimentá-lo, porém, nós não compreendemos esta fundamental necessidade de dialogar, entretanto muito fácil torna-se posicionarmo-nos na retaguarda de nós mesmos, e assim proferirmos a última palavra.

A meu ver todos saem perdendo. Precisamos falar mais uns com os outros. É de graça.

 
* Daisy Carvalho estudou filosofia oriental por quatro anos. É roteirista acadêmica de audiovisual especializada em TV e estuda cinema. Escritora amadora, amante da literatura. Autora de peças para teatro e eterna aprendiz das artes. Tem publicação de livro de contos prevista para 2009. Rio de Janeiro, Brazil.

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