PESQUISA

Sobre xixis, banimentos e punições

por Amálgama (01/10/2008)

por Paulo Vilmar * – Ela levantou a saia, saia azul em dégradé, com bordados de miçangas e espelhos, baixou as calcinhas, apoiou as mãos nos joelhos e fez o seu xixi, ali, na beira da calçada, à 01h30min de uma madrugada quente e clara! Assim era Mara, morena linda, dona de um sorriso maroto […]

[imagem: stockxpert.com]por Paulo Vilmar * – Ela levantou a saia, saia azul em dégradé, com bordados de miçangas e espelhos, baixou as calcinhas, apoiou as mãos nos joelhos e fez o seu xixi, ali, na beira da calçada, à 01h30min de uma madrugada quente e clara! Assim era Mara, morena linda, dona de um sorriso maroto e ingênuo, que com aquele ato provocou em nós, meninos da turma, não o desrespeito, mas a total cumplicidade… (ao contrário do que apostavam as outras meninas).

É claro que não tínhamos entendimento do que estava acontecendo, o olhar para trás é que nos dá hoje esta visão sobre algumas nuances que reviraram o mundo, silenciosamente, na década setenta e oitenta. Vivíamos novos tempos. Primeiro, a mudança comportamental das meninas, nossas amigas (tão diferentes do apregoado por nossas mães, como qualidades femininas), mas a verdade é que elas já não ficavam a espera de príncipes encantados nem elegiam o fogão como uma de suas especialidades. Penso que íamos autodidaticamente nos educando, principalmente pela convivência, que já nos mostrava como seria a nova mulher, como ela deveria ser tratada, como ela nos trataria e como girava o mapa astral de cada um: pensavam em carreira profissional, em autonomia financeira, em liberdade de ir e vir, em serem donas, não só de seus narizes, mas dos seus próprios corpos (máxima ousadia!).

Eu tinha quinze anos, dezesseis, dezessete e dezoito era a idade dos outros membros de uma turma que reunia, ainda, nove meninas, também nesta faixa. No colégio éramos vistos como estranhos, por uns, ídolos por outros e “maricas” pela maioria dos nossos colegas do sexo masculino, mas sabíamos que éramos populares e que muitos vinham nos procurar, porque estavam a fim desta ou daquela garota. Aos sábados, ao invés do futebol ou da catequese, nos reuníamos à tarde para ouvir rock and roll a todo volume, em bolachões de vinil! Dali foi um passo para formarmos, aí sim só os meninos da turma, um grupo para, na nossa definição, “botar som em festas”.

Chamava-se Sckórpius e tinha um arremedo do que hoje chamamos de Banner, pintado pela Vera e pela Lúcia, com um belo escorpião negro e “sckórpius” em verde fluorescente, que colocávamos à nossa frente. Compramos aparelhos de som Gradiente, usávamos agulhas Shure nos toca discos e, supra-sumo da época, tínhamos um gravador de rolo!

Novidade absoluta, nossas festas eram sempre um sucesso, pois além de nossa turma, as amigas das meninas acabavam indo, junto conosco, mais cedo (depois de passarmos a tarde montando o aparato de som e luz). Era, então, natural nossas festas começarem com dez ou quinze meninas dançando o mais puro rock and roll enquanto dois de nós ficavam “nos pratos”, como dizíamos, e os outros dois fossem dançar e beber…

Assim, acabei gostando de dançar e perdendo totalmente a vergonha, amiga natural da maioria dos meninos da época, que no fundo nos admiravam, mas que à época ficavam num canto bebendo e dizendo que não dançavam “separado”, somente “junto”. Face aos pares que acabavam inevitavelmente se formando, tivemos que fazer concessões e acabamos por colocar também rock romântico e posteriormente pop, MPB, baladas, etc. Só não chegamos a tocar música gaúcha, que, daí sim, seria a entrega total…

Com o sucesso começou os convites para “colocarmos som” em festas de aniversário, festas de turmas de escola, até do clube. Isso fez com que convivêssemos com negociações, pais furiosos com o volume do som, tentativas de que tocássemos o disco tal, que a mãe da aniversariante tanto gostava ou algum bolero que o pai ouvia em suas bebedeiras semanais. Hoje vejo que estávamos a fazer um MBA em capitalismo selvagem e concessões idem.

Iniciamos ouvindo discos de Rock e bebendo cerveja nos quartos de nossas casas, por puro prazer. Em nome do mesmo prazer – somado ao fato de podermos dançar, beber, ganhar uma graninha e ficar com as gatinhas que estivéssemos a fim – começamos as festinhas. Depois, por dinheiro, trabalhávamos sábados, domingos e algumas quartas, colocando inevitavelmente as músicas que quem pagava queria ouvir! Ganhamos tanto, à época, que o Ernesto, que já tinha dezoito anos, comprou uma moto – cinqüentinha, o sonho de consumo de dez em cada dez meninos da época.

Para deslocar nosso equipamento para as festas, tínhamos que alugar uma Kombi, pois já não dava para levar nas mãos, como fazíamos quando começamos, e podíamos fazer duas festas simultâneas, sem prejuízo da “qualidade”. Foi numa dessas festas que o desentendimento começou, por causa de uma música colocada errada, um brigou com o outro, formou-se uma discussão, o pai da aniversariante mandou todos calarem a boca e terminou com a festa… Na praça, o desentendimento continuou, o prazer virara obrigação e tédio! Dissolvemos o Sckórpius, ali mesmo, Ernesto ficou de comprar a parte que cada um tinha em equipamentos, iria continuar, contratando empregados, todos concordamos, valeu a experiência de oito meses.

Foi nesta noite que Mara fez xixi no meio fio da calçada, com sua saia azul levantada. Achei aquilo muito louco, mas aos poucos me acostumei, tanto que em duas semanas já nem virava a cabeça, disfarçando, só para olhar a Mara e o xixi. Estava entregue a este e outros devaneios quando recebi o recado de que deveríamos procurar o pai da menina cuja festa havia terminado mais cedo por conta da nossa discussão. Fomos, todos, morrendo de medo, afinal ele era comandante do Quartel da cidade, Tenente-coronel Ruy Castro, nunca esqueci o nome, pois na hora em que ele estava exigindo de nós a devolução do dinheiro que havíamos recebido, chegaram quatro Coronéis, mais alguns Sargentos da Polícia do Exército e, sem qualquer constrangimento, levaram o homem preso, na nossa frente, por ter escrito certo artigo, foi o que disseram para ele.

Nunca devolvemos o dinheiro e nunca mais vimos o Coronel, que foi transferido para o Rio de Janeiro. Anos após este episódio, já nos anos oitenta, ao abrir uma Playboy, deparei-me com uma entrevista do Coronel “linha dura” que ousou questionar os militares em 1969, exigindo candidato civil para a presidência, e que por isso fora banido (punido) para o comando de um pequeno quartel de uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul. Lá ficou até 1973, quando foi preso por 30 dias por ter escrito um artigo para a Tribuna da Imprensa, no Rio, chamando de ditadura o governo que vinha sendo exercido pelos militares. Após a prisão foi transferido para o Rio e obrigado a reformar-se!

Após um ano do fim do Sckórpius fui embora da cidadezinha que representava banimento e punição no centro do poder. Nunca mais voltei e nem vi mais a Mara, minha primeira professora em entender melhor a nova mulher que nascia, naqueles anos que pareciam pacatos, mas que trazia uma efervescência escondida na aura normal das pessoas!

Fico imaginando qual terá sido a trajetória de vida de minhas amigas, se acabaram donas de casa ou se foram em busca de seus sonhos. Continuo até hoje achando poético um xixi de mulher, no meio fio de calçada, nas madrugadas quentes e claras, mas, infelizmente, nunca mais vi alguém fazer isso com a naturalidade da Mara…

 
* Paulo Vilmar é advogado e mora em Santa Maria-RS. Blog: http://caldodetipos.blogspot.com/.

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.