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Tragédia de Santo André: a culpa é dos deuses gregos?

por Amálgama (28/10/2008)

por João Paulo Lima * – Uma das coisas que sempre admirei nas tragédias de Shakespeare é o fato da predestinação de seus personagens se transformar em elemento constitutivo da própria narrativa. Assim, nós leitores, que muitas vezes já sabemos o final da estória, temos sempre aquela impressão que algo vai mudar, e, junto com […]

por João Paulo Lima * – Uma das coisas que sempre admirei nas tragédias de Shakespeare é o fato da predestinação de seus personagens se transformar em elemento constitutivo da própria narrativa. Assim, nós leitores, que muitas vezes já sabemos o final da estória, temos sempre aquela impressão que algo vai mudar, e, junto com o impulso narrativo, esperamos que a luta contra o inelutável dos Romeus e Julietas (que configura a trama das tragédias) será retribuído com a vitória do amor em vida.

Ledo engano. Shakespeare sabia que a dimensão propriamente trágica do gênero inventado pelos gregos estava nessa ruptura, nesse fosso existente entre o mundo da vida e suas expectativas mais nobres. O amor em pleno mundo hostil só pode se realizar plenamente ao eliminar sua possibilidade mesma. É preciso destruir os agentes da mediação chamada amor, é preciso matar os amantes. Destino por definição inelutável, obra silenciosa de acasos pré-ocasionados por maldições, por deuses furiosos, por forças conhecidamente desconhecidas às quais homens e mulheres se conformam com ou sem relutância, a tragédia não produziria efeito de força dramática sem o desfecho esperado (apesar de não desejado, nem pelos leitores nem pelos personagens).

Polícia invade apartamento onde estavam Lindemberg e Eloá [Foto: Reprodução/TV Globo/G1]Graças à mídia (sobretudo às coberturas da Globo e da Record), o caso de Santo André trouxe elementos trágicos da ficção para o mundo real. Contudo é preciso reforçar algo: a ficção, por mais realista que seja, não é nunca mais do que a produção de um efeito do real. Ou seja, ela é a produção de um efeito de conformidade ao real fundado na sobreposição formal das normas sociais que aderimos num dado momento como sendo reais. A mídia “jornalística” (sobretudo a televisiva) jogou com esses efeitos da relação entre mundo real e fictício. Mas, a meu ver criminosamente, o fez em sentido inverso. O efeito de ficção, que é bem real, foi nesse caso como em outros bastante desastroso.

O cineasta Bruno Barreto, vendo a centralidade da mídia para entender o seqüestro, disse o seguinte sobre o caso:

“Li tudo a respeito desse seqüestro em Santo André nos jornais. A presença que a mídia tem é muito grande na vida das pessoas, vejo a intersecção das duas histórias por aí. [entre a história de Eloá e a que ele reconta em seu novo filme, o Última Parada 174] A necessidade que Lindemberg [Fernandes Alves] tinha de ser visível também aconteceu com o ônibus, das pessoas verem sua dor. Esse é um dos subtextos presentes no filme.”

Subtexto ao mesmo tempo do filme e do mundo, a mídia agiu de maneira irresponsável no local da crise. Para mim, ela foi – enquanto visão de mídia não apenas um subtexto, mas um pré-texto do crime – agente principal da tragédia, junto com a polícia. Foi a mídia televisa quem deu o tom e contorno de coisa já vista.

Na sua relação corrosiva com o real (porque sensacionalista), trouxe das transmissões ao vivo do caso a arrogância dos que crêem “formar opiniões” ou acreditam “criar ou recriar o real”. A mídia televisiva (novamente, sobretudo Globo e Record), eliminando os registros da linguagem informativa, insistiram na narrativização da situação, tornando a realidade um “mero” efeito de ficção. A responsabilidade da mídia sensacionalista precisa ser discutida e apurada.

 
Narrativa da narrativa

No caso dessa tragédia real não shakespeariana, Eloá não amava mais Lindemberg. Inconformado, o rapaz partiu para o tudo ou nada do sentimento de posse. Como um Paulo Honório¹ urbano, Lindemberg não admitia dividir Eloá com ninguém. Covarde, preferiu colocá-la em cativeiro e depois matá-la a ceder aos desígnios do acaso amoroso. Pressionado por todos (mídia, polícia, entre outros), o amor doentio do jovem se desfez em dor sem volta e sem reparo. Para ele, para ela. De quem é a culpa? Claro, do rapaz.

Mas indo além da obviedade de que Lindemberg deve responder pelos crimes por ele cometidos, existe algo mais a se pensar para compreensão do ocorrido em termos do interesse público no caso: em que medida não foi o próprio criminoso também vítima de uma orquestração de forças (sociais, psíquicas, dos deuses gregos da mídia, da polícia) que o levaram a pôr fim de maneira tão covarde ao amor de sua vida? A essa pergunta nós deveríamos debater para procurar respostas a respeito da irreversibilidade e redundância de nossos destinos de brasileiros miseráveis (miserável aqui no sentido social da palavra). Digo de antemão não crer existir nessa proposição uma intenção de vitimizar o criminoso.

Pessoalmente acredito que os responsáveis institucionais dessa tragédia particular são no mínimo dois: a polícia incompetente que não soube lidar com a pressão da mídia, cedendo à espetacularização do crime, e esta mesma mídia irresponsável, que na ânsia de audiência não soube manter-se em sua função. Borrar as fronteiras entre ficção e realidade, sem mostrar quem está mediando e como está fazendo a estrangulação desses limites, deveria ser considerado crime.

Claro que outras lógicas operaram no caso. Para o Colcha de Retalhos, por exemplo, a questão de gênero mediou o sentimento de posse do rapaz, o que explicaria em certa medida o final trágico. Tudo bem, eu acredito que o fato de ser homem deve ter em alguma instância impactado no tipo de desespero de Lindemberg. Mas volto à inversão da lógica do real pela do ficcional: se considero a origem simples do rapaz, origem real de um jovem pobre saindo da adolescência, fica difícil não acreditar que a mídia não tenha sido o trunfo final do destino trágico dessa história, na sua operação de produzir a ficção do real. Acuado, superdimensionando suas próprias atitudes em cadeia nacional, Lindemberg fez o que fez. Culpado, sim. Deve pagar pelos crimes que cometeu, sim.

Mas a culpa, dizia Camus, tem algo de supra-jurídico. A ignorância a atenua em direito, mas não em consciência, como no caso de Édipo-Rei. Eu diria mais, a culpa tem algo de extra-social (ela é mais social ainda) no que ela tem de social nos indivíduos. Existindo em Lidemberg, não se encerra nele. E é sobre essa culpabilidade extensiva ao mundo social que o debate público deveria se ater mais fortemente. Pois a mídia e a polícia nos devem explicações, assim como os malvados deuses gregos… Afinal, mídia e polícia foram, a meu ver, os representantes modernos da hostilidade do mundo que, como numa peça de Shakespeare, apareciam como mediadores da esperança de um
final diferente, mas foram, final e verdadeiramente, os fatores da obstinação do destino. Destino de Eloá. Destino de Lindemberg. E nosso destino também. Porque o problema para nós cidadãos continua o mesmo: nossa impotência diante de certos deuses…

 
* João Paulo Lima é formado em sociologia. Mestre pela universidade Lyon 2, na França, atualmente faz doutorado na Universidade Federal de Pernambuco, onde estuda a relação entre sociologia e literatura a partir da obra e contexto de produção intelectual de Graciliano Ramos.

¹ Personagem interiorano, autoritário e ciumento do romance S. Bernardo (1934), de Graciliano Ramos. (nota do editor)

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