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Um prêmio não merecido

por Amálgama (15/10/2008)

[Foi anunciado ontem (14) o vencedor do Booker Prize, uma das mais importantes premiações do mundo de língua inglesa – o indiano Aravind Adiga, com o romance The White Tiger, que agora fatalmente será traduzido no Brasil está sendo lançado no Brasil pela Nova Fronteira, com o título O Tigre Branco. O Amálgama publica a […]

[Foi anunciado ontem (14) o vencedor do Booker Prize, uma das mais importantes premiações do mundo de língua inglesa – o indiano Aravind Adiga, com o romance The White Tiger, que agora fatalmente será traduzido no Brasil está sendo lançado no Brasil pela Nova Fronteira, com o título O Tigre Branco. O Amálgama publica a seguir uma resenha da obra.]
 

Aravind Adigapor John Self * – Aravind Adiga foi um dos cinco romancistas estreantes no Man Booker Prize deste ano, e um dos quatro que são do subcontinente indiano. (E aquela conversa sobre “balanço geográfico”, como fica?) Se você acha que estou fazendo aqui uma insinuação não tão sutil, ao tratá-lo como um entre tantos outros, você não está completamente errado.

Para descrevê-lo em relação aos títulos do Booker Prize do ano passado, The White Tiger (Free Press, 304 págs.) tem semelhanças superficiais tanto com Animal’s people (uma “esquisita” narrativa em primeira pessoa) como com The reluctant fundamentalist (um diálogo desigual entre duas pessoas). Aqui, nosso narrador é Balram Halwai, um “empresário social” indiano e o Tigre Branco do título. Ele cresceu em uma família pobre o bastante para sequer dar-lhe um nome apropriado, então seu professor o chama de Balram (“he was the sidekick of the gog Krishna”), e um inspetor escolar, impressionado com a habilidade de Balram, lhe dá a identidade que irá energizar sua estória.
 

The inspector pointed his cane straight at me. “You, young man, are an intelligent, honest, vivacious fellow in this crowd of thugs and idiots. In any jungle, what is the rarest animal – the creature that comes along only once in a generation?”

 

I thought about it and said:

 

“The white tiger.”

 

“That’s what you are, in this jungle.”

 
E assim Balram vê a si mesmo: como um animal lutando por sucesso em um fosso do qual deve erguer-se – a vila de Laxmangarh. (“I wonder if the Buddha walked trough Laxmangarh – as some people say he did. My own feeling is that he ran through it – as far as he could – and got to the other side – and never looked back!”) Balram está contando tudo isso em uma série de cartas para o presidente chinês, Weng Jiabao, a partir de sua posição de empresário bem sucedido.
 

Apparently, sir, you Chinese are far ahead of us in every respect, except that you don’t have entrepreneurs. And our nation, though it has no drinking water, electricity, sewage system, public transportation, sense of hygiene, discipline, courtesy or punctuality, does have entrepreneurs. Thousands and thousands of them.

 
Balram conta ao premiê Jiabao como chegou até onde está hoje, desde quando se encontrava no mais baixo degrau. Essas cenas formam a parte mais extensa do livro, detalhando as misérias e horrores dos sistemas de classe e casta na Índia moderna. Filho de um empurrador de carros-de-mão (“my father’s spine was a knotted rope”), Balram consegue um emprego como motorista do negociante Sr. Ashok. É aqui, ainda bem cedo no livro, que a obra de Adiga começa a desanimar.

O principal ponto é o da caracterização, ou da falta dela. É fato que um livro não precisa ter personagens “inteiramente redondos” (nem mesmo sei o que o termo significa) para que eu me divirta. Discuti recentemente em meu blog a respeito de personagens não-realistas, com fôlego maior que a vida, particularmente nas literaturas indiana e do Oriente Médio. Mas Adiga está contando uma estória completamente ocidentalizada, um romance do tipo A-para-B, e o problema é que seus personagens não são nem caricaturas bem impressas; elas são pequenas demais para se ver.

Em termos de comportamento e – especialmente – diálogo, a maioria dos participantes no enredo são indistinguíveis uns dos outros. Ignore os nomes, e Ashok e Pinky Madam e Mongoose e Stork não terão nada para diferenciá-los. Isso é importante, porque o livro em seu conjunto retrata o ressentimento de Balram para com seu patrão, que, até onde pude ver, nunca fez nada que justificasse tão dramáticas conseqüências. O problema também acaba enfraquecendo as idéias centrais, algumas das quais são interessantes, como a da subserviência e o contexto político com o Grande Socialista. Elas acabam não sendo exploradas em profundidade, e nem o é a ironia da transformação de Balram deixá-lo ao final parecido com o que ele mais odeia. O pior crime é que, na maior parte do livro, esse potencialmente fascinante enredo é reduzido a uma chatice de matar.

O desfecho é revelado no começo, então não há tentativa de manter o leitor em suspense, a não ser através da busca de uma explicação para a vingança de Balram contra seu mestre, que ainda por cima não é convincente. Para um estudo do balanço de poder numa relação mestre-servo leia The assistant, de Bernard Malamud, que é tão superior a The White Tiger que fico constrangido só de mencioná-los na mesma sentença. Para o que o Sunday Times escreveu do livro – “um retrato corajoso, revoltado e sem adornos da Índia” -, leia Animan’s people, de Indra Sinha.

Porque, para retornar às comprações que fiz no início, entre as obras do Booker do ano passado, a que The White Tiger mais lembra é Gifted, de Nikita Lalwani – um livro que encanta no começo mas depois perde o interesse, uma estréia esquecível para a qual a pergunta mais notável não é “como é que ele foi parar entre os finalistas do Booker?”, mas “como é que ele conseguiu ser publicado?”

 
* John Self é advogado e crítico. Mora em Belfast-Irlanda do Norte. Seu blog – Asylum – é ponto obrigatório para quem quer ler sobre as novidades da literatura em língua inglesa. [a reprodução desta resenha foi gentilmente autorizada pelo autor; tradução: Daniel Lopes]

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