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Como lidar com o desejo em uma relação?

por Amálgama (22/10/2009)

por Gabriel Innocentini * – É essa a pergunta que Lev Tolstói desenvolve no mais recente lançamento do autor russo aqui no Brasil, com tradução, notas e posfácio de Boris Schnaiderman. Publicado em 1859, Felicidade conjugal é considerado pelos críticos como o primeiro livro importante de Tolstói. A novela narra a descoberta da paixão de […]

felicidade-conjugal_tolstoipor Gabriel Innocentini * – É essa a pergunta que Lev Tolstói desenvolve no mais recente lançamento do autor russo aqui no Brasil, com tradução, notas e posfácio de Boris Schnaiderman. Publicado em 1859, Felicidade conjugal é considerado pelos críticos como o primeiro livro importante de Tolstói.

A novela narra a descoberta da paixão de Maria Aleksândrovna por Sierguiéi Mikháilitch, que tem quase o dobro de sua idade. Composto por duas partes, o livro principia com o surgimento de Sierguiéi na vida de Maria. Não é à toa que Tolstói escolhe a “Sonata ao Luar”, de Beethoven, para pontuar essa cena – a composição do gênio alemão tinha a indicação “quasi una fantasia”. A partir daí, um novo mundo de beleza se revela para Maria, graças a Sierguiéi:

“Ele desvendou para mim toda uma existência de alegrias no presente, sem alterar nada em minha vida, sem acrescentar nada, além de si mesmo, a cada impressão. À minha volta, tudo era quieto, como o fora desde a minha infância, mas bastava que ele chegasse, e tudo passava a falar, todas as coisas pediam entrada em minh’alma, uma de cada vez, e enchiam-na de felicidade.”

Tolstói explora sutil e engenhosamente os sentimentos a partir da voz da protagonista, fornecendo um vasto painel daquilo que Sthendal chamou de cristalização do amor – isto é, como ele nasce, se desenvolve e cresce até ocupar o pensamento e o coração de uma pessoa: “Todos os pensamentos, todos os meus sentimentos de então não eram meus, eram pensamentos e sentimentos dele, que de repente se tornaram meus, passaram para a minha vida e iluminaram-na”.

Já a segunda parte é mais sombria e revela os desentendimentos entre o casal. Não mais contente com sua rotina conjugal, Maria deseja que sua vida tenha movimento, algo típico de uma jovem, ansiosa por viver experiências radicais. A fantasia se desvanece: amor apenas não basta; é a juventude que clama por ação: “Amar era pouco para mim, depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por ele. Eu queria movimento, e não uma fluência tranqüila da vida. Queria inquietação, perigos e autossacrifício em prol do sentimento. Havia em mim um excesso de força que não encontrava lugar em nossa vida sossegada.”

Maria atende aos chamados da vida social – e também do orgulho e do amor-próprio –, o que gera rusgas na relação. Os conflitos dão o tom e os diálogos entre os dois se sobressaem, em intensidade dramática, à narração de Maria.

Tolstói tem uma visão pessimista sobre o casamento – ele só seria possível com a aniquilação da paixão. Há uma grande dose de estoicismo nesse pensamento: é um certo pragmatismo dos sentimentos, personificado em Seguiéi Mikailovitch, quase o tempo todo detentor da razão nas discussões com a esposa.

Não deixa de ser interessante observar um ponto de vista talvez até mesmo antiquado e moralista: a conservação de um casamento passa pela falência do desejo ou, como afirma Maria, por um tipo de “felicidade completamente diversa”. Ainda bem que não é preciso compartilhar das ideias do autor para admirar o seu talento.

::: Felicidade conjugal ::: Lev Tolstói ::: Editora 34, 2009, 128 páginas :::
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* Gabriel Innocentini, Bauru-SP, estuda jornalismo na Unesp.

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