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O fascismo de Jonah

por Amálgama (27/10/2009)

Scott Horton, na Harper’s Magazine / 17 de fevereiro de 2008 [ resenha de Liberal fascism (Doubleday, 2008), publicado agora no Brasil com o título Fascismo de esquerda (Record, 2009) ] (…) O livro de Jonah Goldberg certamente não é o pior dos piores. Mas é incrivelmente ruim. O fato de ter sido publicado por uma editora de ponta […]

Scott Horton, na Harper’s Magazine / 17 de fevereiro de 2008

[ resenha de Liberal fascism (Doubleday, 2008), publicado agora no Brasil com o título Fascismo de esquerda (Record, 2009) ]

(…) O livro de Jonah Goldberg certamente não é o pior dos piores. Mas é incrivelmente ruim. O fato de ter sido publicado por uma editora de ponta e ser oferecido como assunto para debate em programas de tevê diz algo bastante profundo acerca de nossa cultura – algo não positivo, temo.

Peguei o livro de Goldberg pensando que teria uma análise crítica da esquerda americana, vinda da caneta de uma figura que destacou-se em anos recentes como definidor do que seria um conservador. Goldberg é a figura por trás da National Review Online, versão na internet do farol do conservadorismo americano. Também, mais recentemente, destacou-se como colunista do Los Angeles Times. Mas é difícil dizer o que é exatamente esse livro. Tem pretensões. Goldberg quer vendê-lo como uma obra de história intelectual, localizando as origens “secretas” da “Esquerda Americana” no fascismo. Mas isso está para uma verdadeira obra de história intelectual assim como uma revista Classic Comics sobre Platão estaria para um diálogo platônico. Sua crueza e superficialidade sugerem que Goldberg simplesmente não entende a maior parte dos pensadores que está caracterizando – aliás, suas descrições são primitivas e confusas quando lidam tanto com figuras da esquerda quanto da direita. A obra prossegue com a confiança e arte de um trabalho universitário nota B de uma classe de filosofia política. Não é o tipo de coisa que se esperaria ver publicada em livro.

Mas o principal problema que eu tenho com sua escrita é a linguagem irremediavelmente incontida, que opera em um nível de ambigüidade impermissível em trabalhos acadêmicos sérios ou em um diálogo político sério. Seu livro é um turbilhão de palavras como “esquerda”, “direita”, “liberal”, “conservador”, “socialista”, “comunista” e “fascista”. Esses termos são essenciais para a narrativa de Goldberg, mas chega-se aos capítulos finais do livro convencido de que Goldberg não tem um ponto de referência claro para qualquer deles – de fato, o que é “esquerdista” em uma página se torna “socialista” ou “fascista” na seguinte. Na verdade, a melhor maneira de fazer trabalhar esse argumento é simplesmente assistir Goldberg no programa de Jon Stewart, vendendo seu livro. Você acaba o programa perguntando: Quem é esse cara? Do que mesmo trata seu livro? Essas são as mesmas questões que me pergunto após ler o livro, de capa a capa.

Vamos começar com um dos poucos pontos de Goldberg com os quais concordo, e que parece ter sido o que lhe motivou a escritura do livro.

Não há palavra na língua inglesa que é usada mais livremente por pessoas que não entendem seu significado do que “fascismo”. Aliás, quanto mais se usa a palavra “fascismo” em conversas do dia a dia, menos provável é que se saiba do que se está falando. (p. 2)

Verdade indubitável. Fascismo é utilizado porque é o equivalente político de se jogar um coquetel molotov. Tem a intenção de provocar, de deixar com raiva. Houve um tempo, claro, em que europeus do Centro e do Sul orgulhosamente se erguiam e proclamavam seu fascismo. Mas a ideia foi para sempre coberta com o odor de corpos queimados e alguns dos mais revoltantes atos de barbaridade que a humanidade registrou. Conseqüentemente, hoje ninguém quer ser chamado de “fascista”. E isso inclui genuínos fascistas, claro.

Então nós pulamos algumas centenas de páginas e encontramos o que exatamente inspirou Jonah. “Vamos começar pelo começo”, escreve ele na página 392,

Desde quando me inseri no debate público como um colunista conservador, tenho sido chamado de fascista e nazista por esquerdistas presunçosos, que não sabem de nada, sublimemente confiantes da verdade de seus preconceitos desinformados. Responder a esta calúnia é (…) uma empreitada que vale a pena.

Aqui Goldberg dá a mais intelectualmente honesta desculpa por sua obra. Ela é um ato de desafio e retaliação. Um golpe de revide em todos os esquerdistas de efeito que arremessaram-lhe a pecha de “fascista”.

Não acho que Goldberg seja fascista. E também concluo, após percorrer seu livro, que ele tem pouco entendimento do que venha a ser fascismo. Na verdade, estou convencido de que ele não se importa. Seu propósito é apenas fazer o que aqueles presunçosos esquerdistas fazem – arremessar-lhes os insultos de volta, como uma bomba.

O problema é que fascismo é uma coisa mortalmente séria. É, como Albert Camus disse naquelas famosas linhas próximas ao final de La peste, uma bactéria na nossa sociedade que repousa no meio de nossos lençóis e móveis, e mais significantemente na psique humana, pronta para saltar e causar o mal nas gerações futuras. A única inoculação contra ela, novamente como Camus escreveu, é estar consciente de seu verdadeiro passado e dos danos que um dia causou. Usar o rótulo de “fascista” no debate político atual como uma réplica casual, acaba tirando o valor desse rótulo, nos faz esquecer da ameaça, mina a inoculação.

É surpreendente para mim que Goldberg, em uma obra tão extensa, nunca tente seriamente lidar com o fascismo enquanto conceito. Ele prefere trabalhar não no campo das ideias, mas numa exposição de personagens – pobremente desenhados, por sinal. Passei meu próprio tempo estudando o fascismo, quando era um universitário morando em Munique, e tinha que conseguir autorização para adentrar nas entranhas da Biblioteca do Estado da Bavária para ler cópias antigas do Der Stürmer e o völkische Beobachter. Lembro da fragilidade do papel amarelo quebradiço, o enjoativo odor de ácido que o acompanhava, a linguagem chata, histérica do discurso, a crueldade e o ódio que vazavam daquelas páginas repletas de estereótipos e malucas teorias de conspiração. Tudo aquilo era uma demonstração do poder de ideias não-liberais de causar horrores. Elas destruíram a democracia de Weimar, mas aquele foi apenas o ponto de partida.

Há pouco tempo me vi pensando em uma daquelas tardes cinzas e chuvosas passadas na biblioteca lendo antigos jornais nazistas. Porque me vi diante de uma compilação de escritos de um proeminente colunista:

O número de muçulmanos na Europa está se expandindo como “mosquitos”.
Muçulmanos vivendo no Ocidente são incapazes de ser cidadãos leais de sociedades ocidentais.
Os muçulmanos europeus são os “novos donos” da sociedade europeia, e estão se comportando como “inquilinos com licença para comprar”.
Os muçulmanos têm uma agenda coletiva de conquistar o mundo, incluindo o Ocidente.
Os muçulmanos inevitavelmente tomarão a Europa; a única questão a ser definida é o quão “sangrenta” será a transferência de poder na Europa.
A Bélgica não pertence mais ao belgas: ela já foi tomada pelos muçulmanos.

A fonte é Mark Steyn, e ele é um dos escritores que Jonah Goldberg recrutou para o National Review. Seria um tremendo eufemismo chamar essa linguagem de “intolerante”. Na verdade ela pode ser facilmente comparada com a estigmatização étnica que ocorreu nas mais viciosas sociedades dos tempos modernos.

Há um número de excelentes tratamentos ao fascismo, e uma obra recente se destaca. É The anatomy of fascism, de Robert O. Paxton (2004). Paxton, um historiador de Columbia, representa o ponto de vista mais aceito pela academia, e uma passagem que vale a pena citar é sua definição de fascismo:

O fascismo pode ser definido como uma forma de comportamento político marcado por uma preocupação excessiva com o declínio da comunidade, sua humilhação, vitimização, e por cultos compensatórios de unidade, energia e pureza, nos quais um partido com base nas massas e de militantes nacionalistas comprometidos, trabalhando em colaboração incômoda mas efetiva com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e persegue com violência redentora e sem limitações éticas ou legais objetivos de limpeza interna e expansão externa.

Paxton prossegue então para isolar uma série de “paixões mobilizadoras” que podem ser utilizadas para identificar um movimento político como fascista. Sua lista é um dos maiores tesouros sobre fascismo da academia atual:

  1. senso de crise esmagadora, além do alcance de soluções tradicionais;
  2. primazia do grupo, diante do qual todos têm deveres superiores a qualquer direito, seja individual ou universal, e a subordinação do indivíduo a ele;
  3. crença de que seu grupo é uma vítima, sentimento que justifica qualquer ação, sem limites legais ou morais, contra seus inimigos, tanto internos quanto externos;
  4. medo do declínio do grupo diante dos efeitos corrosivos do liberalismo individualista, do conflito de classes, de influências externas;
  5. necessidade de uma integração mais próxima de uma comunidade mais pura, por consentimento se possível, ou por violência excluidora se necessário;
  6. necessidade da autoridade de chefes naturais (sempre homens), culminando em uma chefatura nacional que, apenas ela, é capaz de incarnar o destino histórico do grupo;
  7. superioridade dos instintos do líder em comparação com a razão abstrata e universal;
  8. beleza da violência e eficácia do desejo, quando devotadas ao sucesso do grupo;
  9. direito do povo eleito de dominar outros sem restrições de qualquer lei humana ou divina, direito decidido pelo único critério da proeza do grupo dentro de uma luta darwiniana.

Não há movimento “fascista” nos Estados Unidos de hoje. E nem há significativos candidatos “fascistas”. Por outro lado, um conjunto de ideias fascistas se esgueirou e influencia o diálogo político nacional. Essas ideias não deveriam ser suprimidas ou excluídas, porque seria impossível fazer isso e ao mesmo tempo manter a integridade de nossa democracia. Mas é de vital importância para a população entender a afiliação histórica e as raízes dessas ideias.

Para Goldberg, a “esquerda” tem sua gênese na Revolução Francesa, e Jean-Jacques Rousseau é o “pai do fascismo moderno” (p. 38). Ele então vai a Mussolini, um “socialista”, que leva o conceito de fascismo de suas raízes revolucionárias francesas ao século XX. Mussolini importa um bem-conhecido símbolo “socialista”, asfasces, para identificar seu movimento. (Temos sorte de Cícero e Livy não estarem por perto pra ler isso, eles ficariam chocados ao saber das origens socialistas das fasces). Nos EUA, o pragmatismo wilsoniano e o New Deal de Franklin Delano Roosevelt não passam de outras manifestações do fascismo. E então chegamos ao movimento dos estudantes que culminou nos levantes de 68. Você poderia pensar que eles eram pacifistas ou anarquistas, mas estaria errado. Eram apenas outra manifestação do fascismo.

Com poucas exceções, Goldberg nos diz, os conservadores têm sua herança cultural direta no Iluminismo (não se preocupe, Rousseau, Diderot e Voltaire foram excluídos dele). Heidegger proveu o modelo para o assalto fascista da academia que o movimento estudantil estava emulando em 1968. Nenhum conservador reflete a influência de Heidegger. Carl Schmitt é um queridinho da esquerda, a começar por Joschka Fischer. Novamente, essa é uma abordagem de história intelectual a nível de história em quadrinhos, que revela uma ampla ignorância dos diferentes tipos de conservadorismo que distinguem a Grã-Bretanha, por exemplo, do Continente – as tradições protestantes das católicas, etc. O tipo de conservadorismo de Domatde Maistre. Goldberg expõe uma lista de conclusões e observações de indivíduos tolos que o catapulta para fora de qualquer discussão acadêmica séria.

(…)

É muito difícil identificar um conjunto de princípios políticos animadores em qualquer coisa que Goldberg escreve. O espírito de sua obra se alinha na tradição de Ann CoulterDinesh D’Souza. Ele dá uma série de golpes ad hominem, a maioria abaixo da cintura. Eles podem valer um riso contido aqui e ali. Mas nunca proverão o combustível para se levar um governo adiante. Enquanto matéria intelectual, são vazios.

::: Fascismo de esquerda ::: Jonah Goldberg ::: Record2009546 páginas :::
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para refletir mais a edição brasileira, sempre que possível a tradução acima, de Daniel Lopes, trocou o termo “liberal” por “esquerdista”, e refere-se ao livro por seu título brasileiro. a numeração das páginas, no entanto, está de acordo com o original ]

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