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Por que vou votar em Dilma

por Amálgama (24/10/2010)

PAULO NOGUEIRA - Quem é capaz de se emocionar com uma fala de Serra?

por Paulo Nogueira * – Já disse que, em minha vida, só votei no PT em situações de emergência. Claro que fui de Lula contra Collor. Mas votei duas vezes no soporífero Alckmin contra Lula.

Tive uma experiência desagradável com militantes do PT numa eleição para presidente do Sindicato dos Jornalistas em 1980. Papai concorria a presidente, eu era um garoto, não gostei do tom e dos modos de simpatizantes da chapa contrária, do PT.

Papai venceu, mas a marca do desagrado ficou impressa em mim.

Isto posto, assim como declarei meu voto em Marina no primeiro turno, digo agora que minha escolha é Dilma depois de demorada reflexão.

Primeiro, como um eleitor natural do PSDB, entendo que sem uma limpeza profiláxica e a aparição de novas lideranças – ninguém está falando de Aécio, o rosto sem rugas do atraso – o partido minguará sob caciques como Serra. Eleitores de centro como eu ficarão desamparados nas urnas.

Serra tem que sair. Ele já tem idade para isso. Na Inglaterra, o trabalhismo acaba de se reinventar com a saída da geração de Gordon Brown – e ele é mais novo e arejado que Serra – e a chegada de Ed Miliband, 40 anos. Na convenção do partido, vi jovens eleitores trabalhistas – a esquerda inglesa – de lágrimas nos olhos com o pronunciamento humano, solidário, vigoroso de Miliband.

Quem é capaz de se emocionar com uma fala de Serra ou dos demais caciques do PSDB?

Intelectualmente, me sinto impedido, além disso, de votar num candidato que devolveu ao PSDB a desonestidade de promessas obtusas e irrealizéveis . FHC – o maior presidente que o Brasil já teve – rompera com a praga das promessas de ocasião. Que além do mais, não cumpridas, fazem a sociedade descrer ainda mais dos políticos.

Me desagradou profundamente, além disso, a safadeza de Monica Serra ao igualar aborto ao assassinato de criancinhas. É um insulto aos brasileiros porque significa tratar nossa gente simples como débeis mentais. Sem contar que arruína um debate vital para a saúde pública. A notícia de que ela mesma abortara acrescenta abjeção hipócrita à esperteza.

Há um dito mineiro, que Tancredo Neves gostava de citar, segundo o qual a esperteza, quando é demais, morde o esperto. Monica Serra foi mordida pela própria esperteza.

A mim incomoda o egoísmo da classe média brasileira, retrógrada e incapaz de ver nada além de seus pequenos interesses. Tenho visto eleitores da classe média tentarem convencer – sem sucesso felizmente – gente simples a votar contra a administração que lhes deu tamanha atenção.

Tudo isso já seria razão para votar em Dilma, que parece reunir os atributos necessários a fazer uma boa administração. O ponto mais nebuloso é sua saúde. Entendo que uma junta independente de médicos deveria emitir um comunicado aos eleitores. O Brasil teve uma experiência recente mórbida, com um vice que governou – e mal – os brasileiros: Sarney. Não há razão para corrermos o mesmo risco.

O argumento definitivo para meu voto em Dilma veio de um vídeo no qual o centenário Oscar Niemayer diz, com a precariedade física da idade, por que vai votar nela. Porque ela representa o governo de Lula, “que pela primeira vez fez o povo brasileiro sorrir um pouco”.

Não tinha me dado conta dessa coisa tão óbvia.

A gente simples se viu enfim representada e sorriu – não muito, mas mais que antes.

É o argumento definitivo para mim.

* Paulo Nogueira é jornalista e está vivendo em Londres. Entre outros cargos, foi editor assistente de Veja, diretor de redação da Exame e diretor editorial da Editora Globo. Este post foi publicado inicialmente em seu blog, diariodocentrodomundo.com.br, e reproduzido no Amálgama com sua autorização.

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