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O PSOL nas eleições 2010

por Amálgama (04/10/2010)

RAPHAEL GARCIA - Precisamos esperar para saber como se comportará o partido

por Raphael Tsavkko Garcia * – Resultados na mão, continua complicado ter idéia do resultado final do PSOL. Saiu-se vencedor ou perdedor, ou ficou na mesma?

O PSOL manterá seus três lugares na Câmara dos Deputados, com Ivan Valente, Chico alencar e Jean Wyllys (o primeiro homossexual assumido por lá, uma notícia incrível). Perdemos a Luciana Genro, o que não é exatamente ruim, pois todos conhecemos seu sectarismo. O problema foi como ela perdeu. No tapetão. Conseguiu uma excelente votação, ficando em oitavo lugar no Rio Grande do Sul, mas foi derrotada pelo coeficiente eleitoral. O mesmo que garantiu espaço ao Jean.

Me entristeço pela forma como a Luciana Genro perdeu, mas não pela derrota em si.

Em São Paulo tivemos a belíssima vitória do Ivan Valente, eleito com uma margem mito pequena de votos. Por pouco superou o coeficiente eleitoral e só tivemos certeza de sua eleição bem depois da meia noite. Dentre os deputados estaduais Giannazi se reelegeu, mas sofremos uma dura perda com a derrota de Raul Marcelo.

No Rio tivemos grandes alegrias. Chico e Wyllys federais. Chico alencar com a segunda melhor votação. Na ALERJ teremos o Freixo, também segunda maior votação e, pelo coeficiente, Janira também se elegeu estadual.

No Pará, Edmilson foi o deputado estadual mais votado, Nery, ex-senador, entrou na onda e também foi eleito, em um estado em que o PSOL conseguiu ainda uma Senadora, Marinor Brito (resultado que ainda depende do Ficha Limpa). O PSOL conseguiu também outro senador, Randolfe Rodrigues, pelo Amapá. Este de forma indiscutível.

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Difícil decidir, porém, se é para se lamentar ou comemorar a derrota de Heloísa Helena que, de favorita, viu sua votação despencar, no que pode ser considerada uma derrota humilhante. Mas culpa totalmente da própria HH que, sectária ao extremo, se enterrou com críticas destemperadas ao governo, ao Lula e à Dilma, sem raciocinar sobre o efeito que este sectarismo causaria.

Para o PSOL, a derrota de Heloísa Helena pode tanto significar uma vitória quanto uma derrota, e a análise deve ser feita conjuntamente à de Luciana Genro.

Luciana é a principal liderança do MES, Movimento de Esquerda Socialista, tradicionalmente a tendência mais sectária do PSOL e acostumada a tentar rachar congressos e se recusar a discutir os rumos do partido se estes não forem de seu agrado. Heloísa Helena é próxima à tendência e foi sustentada por ela (junto ao MTL), mas me contam fontes internas que esta relação vinha estremecendo.

Heloísa Helena causou enormes danos ao PSOL. Graças à ela a Frente de Esquerda se tornou impossível e o PSOL deixou de eleger alguns nomes, como João Alfredo no Ceará ou a própria Genro, por não alcançar um coeficiente que, se em aliança com PSTU e PCB, poderia ter alcançado.

Não à toa, em São Paulo, o PSOL tinha apenas um candidato ao Senado, Marcelo Henrique, e não conseguiu indicar um segundo, pois perdeu os prazos enquanto esperava pela definição da Frente, abortada por Heloísa Helena, interessada numa aliança com Marina Silva. Contra os interesses do partido.

Para evitar um racha no PSOL, as tendências vitoriosas em seu segundo congresso, que acompanhei de camarote, APS, CSOL e Campo aceitaram que Heloísa Helena continuasse na presidência, pois o MES ameaçava com um racha se isto não ocorresse. Decisão esta que, ironicamente, pode ter custado a vaga da Genro que, com PSTU e PCB, poderia ter sido diferente. Provaram do próprio veneno.

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Enfim, na Câmara dos Deputados o PSOL segue na mesma, manteve três deputados, mas o posicionamento do Jean Wyllys ainda é uma incógnita. Em nível estadual tivemos vitórias e derrotas. João Alfredo não se elegeu, Maninha não se elegeu, Raul Marcelo não se elegeu…. Mas vencemos no Rio, no Pará…

É uma análise complicada de se fazer, especialmente porque ficar na mera análise por quantidade não seria justo.

No Senado o PSOL conquistou 2 lugares onde tinha apenas um, o José Nery, agora deputado estadual do Pará. Heloísa Helena seria a terceira mas, devo admitir, felizmente não se elegeu. Pena que Alagoas colocou alguém lastimável em seu lugar, representante de oligarquias e do que há de pior no estado.

Nas votações estaduais o PSOL conseguiu bons números com Toninho no DF, um homem para se ficar de olho; em São Paulo a votação foi pequena para o Bufalo, pouco mais de 70 mil votos, mas ele é também alguém para se ficar de olho, pode ser um político de futuro brilhante. Mas, no geral, as votações do PSOL foram pequenas ou só residuais, mesmo com candidatos de nome até interessantes, como o Pedro Ruas no Rio Grande do Sul.

O fato é que o PSOL continua sendo um partido pequeno. Incomoda, mas muito mais pelo respeito que alguns de seus eleitos tem do que pelo conjunto do partido, ainda muito fragmentado, contraditório.

A superação de alguns sectarismos ao longo da campanha são uma vitória, a eleição de figuras-chave dão força, mas em geral o PSOL me parece estagnado. Como partido nacional, não conseguiu avançar muito, mas não podemos nos esquecer que tivemos eleições bastante polarizadas, tanto local quanto nacionalmente.

Esta polarização pode ter contribuído para dificultar o caminho do PSOL, mas por outro lado vi uma militância entusiasmada e comprometida que, se retida pelo partido, pode crescer e se multiplicar. O fortalecimento a olhos vistos de Freixo, Chico e do Ivan podem ser indícios de que há espaço para crescer e alçar voos maiores.

A Onda Verde não é desprezível e seus efeitos foram muito maiores do que os causados pela Heloísa Helena nas eleições passadas. Muitos já estão analisando este fenômeno, e é preciso cuidado para compreendê-lo; enquanto Heloísa Helena pouco reverteu para o PSOL, Marina fez uma revolução no PV, que agora se tornou um partido de aluguel com passe muito mais caro.

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Precisamos esperar para saber como, internamente, se comportará o PSOL.

As demonstrações de superação de seu sectarismo infantil em algumas esferas podem não ser suficientes para que isto se transforme em um apoio à Dilma no segundo turno, ou mesmo ao Agnelo no Distrito Federal e assim por diante. Imagino que, internamente, Heloísa Helena, ferida, esteja se mexendo para garantir uma neutralidade por parte do partido, neutralidade esta que significa dar vantagem aos fanáticos evangélicos e ao DemoTucanato.

É hora de unificar as esquerdas e buscar puxar o discurso de Dilma, ou suas práticas numa possível vitória, para a esquerda.

Obviamente enfrenta-se um dilema moral. Muitos no PT dão como certa a migração dos votos da Esquerda (PSOL, PSTU, PCB) para o PT. É um erro tático muito grave. Os votos do PSOL até podem, na maioria, migrar, mas PSTU e PCB têm um público diferente e, mesmo pequenos, cada voto contará em um segundo turno apertado.

Estamos diante de uma campanha suja, difícil, baixa, e se a esquerda abandonar o PT ao PMDB de mãos beijadas, veremos barbaridades acontecendo. Às vezes é necessário pragmatismo, responsabilidade.

* Raphael Tsavkko Garcia, São Paulo-SP, é jornalista, formado em Relações Internacionais pela PUC-SP e Mestrando em Comunicação pela Cásper Líbero. Blog: tsavkko.blogspot.com.

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