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Serra: nem braços dados, cabeça erguida ou coração leve

por Amálgama (29/10/2010)

FABRICIO VASSELAI - Quem é que optou por fazer uma cruzada moral?

por Fabricio Vasselai * – Ao longo dos debates eleitorais e dos poucos comícios que fez, José Serra foi criando o slogan “braços dados, cabeça erguida e coração leve”. Infelizmente, porém, para ele e para parte significativa de seus apoiadores militantes, creio que ao fim destas eleições apenas a imagem dos braços dados poderia ter alguma chance de ligação com a verdade – e olhe lá, já que sua candidatura foi marcada por traições, defecções e fogo amigo de todos os lados e colorações políticas, entre os que em tese lhe apoiavam.

De todo modo, não resta dúvida que “cabeça erguida” e “coração leve” são matérias de pura ficção. Ou, no linguajar desrespeitoso de Serra, trololós tucanos. Em se tratando do histórico pré-eleitoral, não faria sentido: a cabeça erguida de Serra não deve estar elevada o bastante para enxergar Paulo Preto ou as fraudes nas licitações do metrô de São Paulo – que ele julga extremamente irrelevantes. Ou quem sabe foi enquanto erguia sua cabeça que enterrou toda e qualquer CPI no governo de São Paulo que tentasse investigar toda e qualquer suspeita sobre os governos tucanos do estado. Ou talvez não! Tão altivas e superiormente erguidas estão as cabeças do candidato e da sua militância mais aguerrida, que se ergueram elas a tal ponto de acabar perdendo de vista o passado de Serra. Esqueceram a fábrica de dossiês ilegais e apócrifos que já o beneficiaram ao longo de toda sua carreira política da última década, mas de que agora acusam o PT de ser pecador máximo e exclusivo (sic). Olvidaram as alianças dele e dos governos que orgulhosamente representou, e que incluíam as mesmas personalidades toscas da política nacional que agora condenam em Lula ou Dilma – do alto de sua pureza tucana, é claro. Como se o lulismo fosse também disso pecador máximo e exclusivo (sic). Quando precisam parecer mais com o projeto lulista, apagam do passado as defesas de Serra pelas privatizações, que ele planejou como Ministro do Planejamento (oh!), fazem vista grossa às inúmeras e mesmo recentes declarações de Serra sobre o famoso corte de gastos neoliberal. Cabeça erguida por ter duas caras, ah sim, de que também acusam Dilma de ser a representante máxima e exclusiva (sic)?

Mas deixe-se para lá: esqueçamos o mar de lama no qual Serra também tem seus castos e galegos pés – e que certamente frustraria a opulenta cabeça erguida dele e de seus fervorosos. Finjamos por um breve segundo que existe esse mundo idílico, esse paraíso tucano, pepessísta e demo (!!!), povoado pelo maniqueísmo do bem contra o mal, dos santos de Higienópolis contra os sindicalistas conspurcadores da política. Vamos considerar o lema de Serra apenas da perspectiva do agora, das eleições, a que ele parece se referir mais diretamente com seu slogan “do bem”. Ora, é exatamente o fato de “coração leve” durante esta campanha eleitoral ter sido ficção da mais risível, que torna a campanha tucana tudo, menos digna de “cabeça erguida”. Todos sabem, não é segredo e tampouco motivo de controvérsia, que a campanha de Serra jogou sujo até não poder mais, disseminou boatos, usou e abusou das religiões, tentou ganhar pelo medo. Coração leve? Quem joga com o aborto e dissemina o ódio religioso? Quem coloca Silas Malafaia na TV para fazer terrorismo evangélico? Quem distribui santinhos dizendo que só Jesus Salva? Quem finge que não vê a própria mulher acusando Dilma de matar criancinhas? Quem veicula vídeos sugerindo a ditadura dilmista? Coração leve tem a militância que propaga emails chamando Dilma de lésbica como se, aliás, isso fosse uma ofensa? A militância que a tudo chama de fascista, que diz o que quer sobre PT, petistas, Dilma e dilmistas, mas sobe nas tamancas quando ouve o que não gosta?

Não senhores, não houve coração leve. Serra ser hipócrita quanto a isso faz parte do jogo eleitoral de qualquer candidato. Mas que tal deixarmos a hipocrisia só para eles, todos os candidatos, que ganham alguma coisa com isso? É claro que muitos simpatizantes do tucano poderiam defender-se dizendo que Dilma também jogou lama de Serra no ventilador – embora, curiosamente, critiquem quando petistas defendem-se de denúncias usando a tática do “você também faz” porque o erro de um não justificaria o do outro. Mas ok, aceite-se a observação de que Dilma também partiu para cima e para campanha negativa usando escândalos serristas. Ainda assim, algum tucano jurando com a mão sobre suas novas bíblias, seria capaz de afirmar que Dilma jogou sujo como Serra? Os colunistas da imprensa vêm dizendo que esta campanha foi baixa e suja, talvez como nunca antes na história deste país. Mas é gozado não terem coragem de dar nomes aos bois (prática típica, aliás). Tratar Serra e Dilma simetricamente, neste caso, é tratá-los com desigualdade

Explico. Peguemos o caso da instrumentalização política das religiões. Uma vez que a candidatura Dilma se tornou alvo do preconceito religioso, do fundamentalismo e de toda sorte de boatos ultra-conservadores sabidamente encorajados e patrocinados por Serra, seu vice, sua esposta e sua campanha, é evidente que a ela não restava outra saída se não o moralismo para recuperar os votos. Já Serra optou, deliberadamente, por transformar a disputa nisso. Qualquer candidato no mundo buscaria o conservadorismo para não suicidar a candidatura depois de ter sido pego em uma armadilha. Como Dilma lamentavelmente fez. Mas raros candidatos adotam o expediente de fazer esse tipo de armadilhas que coloca em xeque o Estado. Como Serra fez. O uso da intolerância religiosa não é algo que os partidos costumem fazer no mundo todo. Portanto, em uma situação dessas, a indignação equânime para com as duas campanhas acaba sendo no fundo indignação seletiva. Todos os colunistas e analistas criticam, mas não lembram que foi Serra quem colocou a pauta. Ao culpabilizar as duas candidaturas, é como se no fundo se esperasse outra postura tanto de Dilma como de Serra não é? Pois vejam como isso é seletivo: tendo sido Serra quem introduziu a armadilha, a postura diferente solicitada coloca apenas o pescoço de Dilma na forca já que Serra é o queridinho das Igrejas neste momento. Fazer crítica sem nome é uma ótima forma de abrir as porteiras para que Serra hoje, e outros no futuro, utilizem desse caminho da exploração religiosa para ganhar eleições. Análise pode ser feita sem crítica, mas crítica sem criticar, é invenção destas eleições.

Mas faço mais essa concessão a Serra e a seus simpatizantes. Finjamos também que realmente o baixo nível foi igual dos dois lados. Só que eles querem mais, querem pregar que foram limpinhos e paz-e-amor. Voltemos ao slogan do candidato: somente ele e seus seguidores têm a audácia de, mesmo em uma campanha sórdida, violenta e radical, pintarem-se como de “coração leve” e de “cabeça erguida”. Aí é concessão demais. Tudo bem que, como venho dizendo em meu blog, radicalização e dureza são normais em campanhas mais apertadas. Mas só Serra transforma em mote algo que absurdamente não praticou, ao ponto de soar uma ofensa. Só seus seguidores têm a coragem de tentar defender que a campanha Serra foi limpinha. Ou não, posso estar equivocado: vai ver é verdade, vai ver a “cabeça erguida” tenha significado outra coisa, essa sim muito mais crível em se tratando desse Serra e dessa parte considerável de sua militância. Vai ver tenha sido no fim das contas uma bela imagem da arrogância e auto-louvor com que vêm se apresentando. Estão mesmo de cabeça erguida, como se estivessem e se enxergassem acima dos outros e do bem ou do mal. Nariz empinado no mesmo grau de inclinação da cabeça: a arrogância do Serra “faço e aconteço porque sim”. Do “somos mais puros do que esses que estão aí”. Da lógica dos santinhos contra pecadores, do bem contra o mal, do Serra-limpinho versus PT-inventor-da-safadeza. A arrogância de acusarem os outros, o tempo todo, de tudo que também praticam: virulência, radicalismo, agressividade, intolerância, desvios públicos, escândalos, incoerências, más alianças, passados duvidosos.

Sublinho com mais clareza: nenhum desses defeitos é exclusividade tucana. Há gente assim e assado no PSDB, no PT, no PPS, no PSB, na candidatura Dilma e na Serra. Como bem disse o governador petista da Bahia em entrevista recente ao Roda Viva, partido não dá atestado prévio de retidão moral a ninguém. O mundo, e menos ainda a política, é feita só da briguinha de bonzinhos perfeitos contra os atavicamente maus. Mas quem é que optou por, no lugar de discutir conteúdo de governo, fazer uma cruzada moral, quando não a Cruzada Religiosa das Bananas? Quem optou por trocar debate sobre linha de governo a ser seguida pela pauta do correto versus fraudulenta? Pauto dos morais versus imorais, dos sacramente não corruptos contra os geneticamente corruptos? O que a cabeça erguida de Serra e parte de seus seguidores demonstra é que são arrogantes o bastante para acharem que eles sim estão acima do bem e do mal. E que são arrogantes o bastante para acharem que seus eleitores e seus interlocutores caem na hipocrisia e na mentira mais descarada destas eleições: a do coração leve da campanha Serra. E a do coração leve da militância. Realmente, estão de cabeças muito erguidas, erguidas demais.

* Fabricio Vasselai, São Paulo-SP, é graduado e mestre em Ciência Política pela USP. Blog: politicando.blog.br.

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