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Por que apoio o Occupy Wall Street

por Amálgama (17/10/2011)

Os manifestantes chamaram a atenção dos EUA para os desajustes econômicos e desigualdades

Paul Berman, na New Republic / 17 de outubro

 

Ah, os editores da New Republic devem se acalmar. Occupy Wall Street é puro Americana. É o Human Be-In de San Francisco em 1967. É o Be-In do Central Park. É uma extravaganza hippie. É a cena transcendentalista ocorrida em Concord, Massachusetts, nos anos 1840, ou a Chardon Street Convention de 1840, em Boston. Emerson descreveu Chardon Street, e não há como deixar de reconhecer a atmosfera:

A singularidade e extensão dos chamados reuniram, de todas as partes de New England e também dos Estados Centrais, homens de todos os tipos de opinião, da mais reta ortodoxia à mais selvagem heresia, e havia muita gente cuja igreja era uma igreja de um só membro. Via-se uma grande variedade de dialetos e trajes; ocorreu um bocado de confusão, excentricidade e aberração, bem como zelo e entusiasmo. Se a assembleia era desordeira, também era pitoresca. Loucos e loucas, homens barbudos, dunkers, muggletonianos, come-outers, camponeses, batistas do Sétimo Dia, quakers, abolicionistas, calvinistas, unitaristas e filósofos, todos vieram sucessivamente ao topo e aproveitaram sua vez, quando não apenas sua hora, para gritar, rezar, pregar ou protestar.

Slavoj Zizek fez um discurso no Occupy Wall Street? Também o fizeram muitos outros. Os muggletonianos em Chardon Street eram de uma seita dissidente do século dezessete que ainda estava viva em 1840, e tinham lá suas esquisitices. Mas os abolicionistas de Chardon Street – ei, aquele pessoal estava certo.

E há algo correto no Occupy Wall Street. É um carnaval que também é mais que um carnaval. Os manifestantes estão gritando, e alguns estão rezando (judeus religiosos estavam observando o Sucot quando passei por perto), e alguns pregando, e todos protestando. Alguns dos participantes são mais modestos e circunspectos do que se poderia supor. Perguntei a uma médica em Occupy Wall Street sobre a iconografia anarco-sindicalista da cruz rubro-negra na tenda dos médicos. Lamento não ter conseguido registrar seu nome, mas estou feliz em reportar o que ela disse. Ela me disse que, em seu grupo de médicos, os participantes sabiam muito bem que vermelho e negro eram as cores dos anarco-sindicalistas da Guerra Civil espanhola. E as cores lhe pareciam apropriadas. A simples cor vermelha, ela explicou, poderia ser problemática. Afinal de contas, os médicos do Occupy Wall Street não são da Cruz Vermelha. Também, a cor vermelha poderia sugerir comunismo, e os médicos não eram comunistas.

Por outro lado, o anarquismo da Guerra Civil espanhola lhe atraiu. Isso porque os próprios manifestantes estão organizados anarquistamente, sem muita estrutura e sem hierarquia. Minha doutora-informante ainda assim expressou satisfação com o fato do anarco-sindicalismo espanhol do passado ser um movimento cujo dia veio e passou há muito tempo. Um gesto aos anarquistas de outrora não significava fantasias anarco-sindicalistas no presente. Ela entendia o belo jogo em Occupy Wall Street, e isso me pareceu de todas as formas algo esplêndido.

Sim, sim, Occupy Wall Street tem seus loucos e loucas. Os neo-muggletonianos no final das contas terão sua vez, e o movimento será arruinado. Os maoistas do Revolutionary Communist Party já estão operando, junto com Ron-Paulistas, de acordo com outro dos meus informantes. Visitando as manifestações na última quinta-feira eu vi que o Workers World Party (que secretamente controlou algumas das grandes manifestações contra a guerra do Iraque em prol do progresso da causa da Coreia do Norte) já estava em evidência. Os neo-hippies fantasiados e os anarco-sindicalistas não serão páreos para os fanáticos da disciplina leninista. Cedo ou tarde, os grupúsculos destruirão a coisa toda. “Destruição criativa” é originalmente uma frase de Bakunin, mas a destrutividade do Revolutionary Communist Party não será criativa. Então, o movimento cambaleará e cairá, e alguns jovens se sentirão um pouco amargurados e perturbados.

Mas nem todo movimento ou manifestação de rua precisa ser o que enfadonhos leninistas chamam uma “formação pré-partidária”. O Tea Party é uma formação pré-partidária. Occupy Wall Street não é, ainda que algumas pessoas pensem de outra forma. Occupy Wall Street é um festival. Ele está declamando uma verdade, e isso é bom. Wall Street levou o país e o mundo ao precipício. Alguém precisa dizer isso. Os condenáveis bateristas de conga nas ruas do centro da cidade se dispuseram a dizê-lo. O batecum não é muito bem articulado, mas a função de festivais não é ser articulado. (É função de revistas ser articulado.)

De uma forma ou de outra, os manifestantes, em seu espírito anarquista, deixam espaço para outras pessoas, mais sensíveis ou sofisticadas ou, pelo menos, mais idosas, colocarem os protestos em uma forma apropriadamente institucional. Semana passada eu marchei com sindicatos a favor do Occupy Wall Street. Os sindicatos podem não estar sempre certos, mas eles não estavam fantasiados. Estavam expressando o descontentamento de pessoas com empregos comuns, o que é, de fato, a coisa certa a se fazer. Minha delegação era o Jewish Labor Committee. O editorial da New Republic mostra preocupação com uma suposta ameaça ao liberalismo. O Jewish Labor Committee não apresenta o menor perigo ao liberalismo. Pelo contrário!

De forma que há muito de bom em Occupy Wall Street. Nem toda rebelião embriagada e raivosa é um evento medonho. E quando o festival tiver chegado ao seu final, e tiver chegado a hora de encolher os ombros e tirar por cima, talvez porque os muglletonianos ou maoistas terão conspirado para tomar o poder na assembleia geral das manifestações, ou porque homens barbudos estão dando discursos à la Castro, ou qualquer outra dor de cabeça que esteja ocorrendo – bem, ninguém com uma compreensão do passado ficará surpreso.

Esse dia chegará. Mas ainda não! Enquanto isso há realidades a expor e sentimentos a propagar. Occupy Wall Street e seus embarracados neo-hippies, seus fantasiados no teatro de rua, seus cativantes cartazes escritos à mão e, de uma forma geral, suas mostras de excentricidade e impudência chamaram, por um curto momento, a atenção dos EUA para os desajustes econômicos e desigualdades. Que magnífico!

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