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Alguns livros mais

por Amálgama (31/10/2012)

José Bonifácio. Escravidão. Imigração para o Brasil. JK e a ditadura. Segunda Guerra. Ceausescu.

(outros lançamentos que merecem sua atenção, em rápidos comentários – por Daniel Lopes)

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Uma personalidade em que sobressaíam os aspectos negativos, posta a serviço de um ideário político essencialmente reprovável, mesmo para os padrões da época. Eis nosso “Patriarca da Independência”. Que foi também um entusiasta de Portugal, quase que literalmente até o último segundo antes da independência brasileira. Eu estou, claro, colocando José Bonifácio em uma luz mais desfavorável do que ele merece. Mas é proposital. Só para contrabalancear o retrato positivo de Miriam Dolhnikoff nesta excelente biografia, que se destaca em meio aos já excelentes volumes da coleção Perfis Brasileiros da Companhia das Letras.

Miriam não omite fatos. Mas, a partir desses fatos, o leitor pode chegar a conclusões opostas às da autora (o que conta como ponto a favor desta, que escreveu um texto que instiga a curiosidade e permite juízos diversos sobre o biografado). Por exemplo: seria Bonifácio um oportunista e desonesto? Em março de 1821, de volta ao Brasil depois de muitos anos de estudo e trabalho por Portugal e outros países europeus (período durante o qual, inclusive, ele lutou no exército lusitano contra as forças francesas), Bonifácio estava já preparado a levar uma vida calma em Santos quando viu a chance de achegar-se mais ao centro de poder e colocar em prática, na América, seu antigo sonho de um projeto reformista-autoritário. Sua intenção aí era “civilizar” o Brasil, ainda pensado como parte do império luso-brasileiro, e não como país independente. Apenas três anos antes ele fazia elogios à absolutista Maria I, e agora se mostrava como um defensor da monarquia constitucional. Miriam Dolhnikoff diz que Bonifácio tecera loas ao absolutismo português apenas porque este era quem bancava seus estudos, e que o verdadeiro Bonifácio era esse mais moderado, que havia aderido inclusive ao movimento vintista. Quer a autora esteja correta ou errada, a verdade é que o Patriarca não sai muito bem na foto – um aproveitador desonesto, capaz de se adaptar aos ventos políticos para ficar próximo a mandatários. Em agosto de 1822, Bonifácio, já defensor de um Brasil independente com D. Pedro I no comando, soltava seus panfletos contra Portugal, acusando os portugueses até do que eles não haviam feito contra o Brasil.

Bonifácio pode nunca ter sido um absolutista convicto, mas com certeza aproveitou as oportunidades que teve de se mostrar um autoritário. Quando era o braço direito de D. Pedro no pós-7 de Setembro, elaborou uma lei de imprensa draconiana e providenciou para que críticos de seu projeto ultra-centralizador fossem presos ou exilados – o que, uma década depois, quando tentava reescrever seu passado, negou cinicamente ter feito.

Agora, isso não quer dizer que o biografado não tenha sido uma figura sem complexidade. Ele teve também posturas progressistas. De fato, uma das questões que mais colaborariam para sua queda e ocaso foi sua defesa do fim do tráfico negreiro e abolição da escravidão, o que obviamente lhe colocou em atrito direto com as oligarquias brasileiras – que pregavam, ainda, uma “monarquia federativa” com ênfase no Legislativo, em oposição ao projeto bonifaciano de uma monarquia altamente centralizada no Rio e com ênfase no Executivo.

A relação de José Bonifácio com D. Pedro I foi simplesmente surreal. Artífice de uma Independência com D. Pedro, pouco mais de um ano após aquele momentoso mês de setembro Bonifácio já se encontrava em desgraça junto ao imperador, condenado junto com outros ao exílio europeu. Do exílio, Bonifácio praguejou contra D. Pedro, chamando-o, entre outras coisas, de “mau filho, mau marido, mau pai, só o despotismo e o egoísmo são as divindades que adora e a quem sacrifica”. No entanto, com Bonifácio retornado ao Brasil, o imperador fugido para a Europa em 1831 o nomeou como tutor de seu filho. Pensando em retrospectiva, foi até bom Bonifácio ter perdido pouco depois a tutela sobre o futuro D. Pedro II, tendo tido pouco tempo para plantar ideias mais autoritárias em sua cabecinha. / José Bonifácio, Miriam Dolhnikoff, Companhia das Letras, 2012, 352 páginas

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Fruto de anos de pesquisa, A força da escravidão aborda as engrenagens econômicas, políticas e culturais que permitiram que o instituto da escravidão atravessasse o século 19 brasileiro. A escravidão era tão forte que os senhores do Brasil imperial conseguiram tocar adiante todo um sistema que era uma afronta direta à política britânica de extinção do tráfico negreiro e da escravidão em si. Sidney Chalhoub tem em mente o tempo todo o quão caro esse nefasto sistema causou ao futuro do país. / A força da escravidão: Ilegalidade e costume no Brasil oitocentistaSidney Chalhoub, Companhia das Letras, 2012, 344 páginas

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O trabalho anterior de Fábio Koifman (UERJ), Quixote nas trevas (2002), traçou um perfil do embaixador Souza Dantas na França e lembrou seus atos corajosos que salvaram a vida de inúmeros perseguidos pelo nazismo. Este novo livro, Imigrante ideal, ajuda a entender por que o número de perseguidos salvos pelo Brasil não foi maior. Cobrindo um período que vai de 1941 até o final da Segunda Guerra, Koifman levanta o pano de fundo jurídico e o racismo de altas esferas do governo Vargas que virtualmente fecharam as portas do Brasil a europeus, além de perseguidos, muitos altamente qualificados.

Koifman se detém especialmente na análise do Decreto-Lei nº 3.175, de 1941, nas raízes do eugenismo brasileiro e sua face estado-novista, e na abjeta figura de Francisco Campos, ministro da Justiça e Negócios Interiores de Getúlio Vargas. / Imigrante ideal: O ministério da Justiça e a entrada de estrangeiros no Brasil (1941-1945), Fábio Koifman, Civilização Brasileira, 2012, 446 páginas

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JK e a ditadura é a nova edição do livro de Carlos Heitor Cony publicado inicialmente em 1982 com o título JK: Memorial do exílio. Na verdade, a obra não trata nem apenas dos atritos de Kubistchek com os golpistas, nem apenas de seu período de exilado. A não ser que tomemos “exílio” no sentido poético proposto por Cony na introdução a esta nova edição – exílio como afastamento do país, sim, mas também exílio no sentido camusiano de que o homem é um eterno exilado. Os capítulos seguem cronologicamente da posse do sucessor de JK, Jânio Quadros, até a morte do construtor de Brasília, em agosto de 1976. / JK e a ditadura, Carlos Heitor Cony, Objetiva, 2012, 240 páginas

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Poucos meses após colocar no Brasil o livro de Andrew Roberts sobre a estratégia do Eixo na Segunda Guerra, A tempestade da guerra, a Record publica o igualmente de fôlego e espetacular trabalho de Roberts sobre a estratégia aliada, Mestres e comandantes (que na verdade, em inglês, saiu um ano antes do Tempestade).

Mestres e comandantes centra nas figuras de FDR, Churchill, Alan Brooke (chefe do Estado-maior britânico) e George Marshall (Estado-maior dos EUA). As discordâncias e conflitos entre os quatro foram constantes durante a guerra, mas todos eram gênios; dificilmente uma combinação de quatro outros líderes políticos e militares teria concorrido para a vitória aliada na frente ocidental. Roberts traz no livro certa quantidade de material inédito, e coteja outros de uma forma pouco ou nunca feita antes, o que joga novas luzes sobre táticas como o ataque ao Reich a partir do Norte africano, via Itália. Na Tempestade, essas mesmas fases do conflito são destrinchadas a partir das decisões do alto comando nazi-fascista. Se você tem um interesse mais que superficial pela Segunda Guerra, não deixe de conferir os dois livros. / Mestres e comandantes: Como Roosevelt, Churchill, Marshall e Alan Brooke ganharam a guerra no ocidente, Andrew Roberts, Record, 2012, 798 páginas

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O que ocorreu na Romênia comunista em dezembro de 1989 não foi apenas uma revolução democrática, defende o jornalista Grigore Cartianu. Em um espaço de poucos dias, seu país teria vivido uma revolução e uma contrarrevolução. Esse livro reconta minuciosamente os passos que levaram à detenção do odiado Nicolae Ceausescu e de sua esposa Elena, e a brutal execução de ambos.

A revolução teria ocorrido até o 22 de dezembro – mais especificamente, segundo Cartianu, até as 12 horas e 9 minutos, quando o ditador saiu voando da sede do Partido Comunista romeno. Nas ruas, o povo ainda vibrava com a fuga de galinha daquele que mandou no país por um quarto de século, mas o voo foi de galinha também no sentido de que não iria muito longe. Com a detenção e execução dos Ceausescu, houve (eis a contrarrevolução) uma tentativa dos comunistas liderados por Ion Iliescu, Nicolae Militaru e Silviu Brucan de não deixarem os romenos se livrar integralmente de sua ditadura e manter o país orbitando ao redor de Moscou. Nesse processo, muito sangue iria rolar desnecessariamente. / O fim dos Ceausescu: Morra fuzilado como um animal selvagemGrigore Cartianu, É Realizações, 2012, 560 páginas

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