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O PT perdeu o Nordeste, especialmente para Eduardo Campos, mas fez vitórias cruciais

As eleições de 2012 evidenciam uma disputa que, acredito, ficará bem clara em 2014: a de PT x PSB. Sim, o PSB está, aos poucos, se nacionalizando, muito por trabalho de seu presidente nacional, Eduardo Campos, que é também o governador de Pernambuco. Campos conseguiu eleger em seu quintal, Recife, um quase desconhecido – Geraldo Júlio (PSB) – já no primeiro turno. Fez vitórias importantes também em Fortaleza, onde seu candidato bateu justamente o PT, e em Belo Horizonte, com a reeleição de Márcio Lacerda (PSB), que é fruto do acordo entre Campos e o (agora mais do que nunca) presidenciável Aécio Neves. Uma vitória simbólica ocorreu em Campinas, onde Jonas Donizete (PSB) bateu Marcio Pochmann (PT) mesmo depois de ostensivo apoio de Lula e Dilma. Vale lembrar que Donizete foi muito apoiado pelo governador paulista, Geraldo Alckmin, que sairá à reeleição em 2014.

Se o PSB, a linha de Eduardo Campos, começa a namorar com a ideia de ter candidato próprio – ele, Eduardo Campos – nas eleições presidenciais de 2014, este movimento mais do que nunca estreita as relações de PT e PMDB. Acho que o caso de São Paulo deixa isso ainda mais forte: Fernando Haddad caracterizou a grande vitória do PT e do ex-presidente Lula em 2012, e ela ocorreu com forte e importante apoio de Gabriel Chalita (PMDB), que saiu maior do que entrou na campanha paulistana.

Ou seja, veremos a repetição em 2014 da chapa Dilma Rousseff e Michel Temer, consolidando o processo, portanto, de portas fechadas ao PSB (ou a qualquer outro) na vice de Dilma para reeleição. Eduardo Campos sabe disso e, entendo, moveu o PSB de forma mais ou menos coordenada a fim de montar uma boa estrutura com condições de nacionalizar o seu nome em 2014. A depender da economia, pode fazer barulho… ou não.

O PSDB não saiu fraco de 2012, quem saiu fraco foi José Serra. Em seu discurso de derrota (mais uma) estavam os poucos aliados que lhe restam: o deputado Vaz de Lima, o senador Aloysio Nunes Ferreira, o vereador Andrea Matarazzo e, claro, o prefeito Gilberto Kassab e o governador Geraldo Alckmin. As derrotas de 2006 (para presidente) e 2008 (para prefeito) fizeram Alckmin entender que as portas de seu partido só estão abertas para ele em SP. Para Serra, nem essas, agora. O PSDB nacional não deve voltar a trabalhar por Serra em 2014, até porque não pode: todo partido (falamos aqui de PT, PMDB e PSB) tem um projeto de poder, e o PSDB, se quiser continuar razoavelmente hegemônico, precisa voltar a ganhar. Quem no PSDB está ganhando? Aécio Neves. Não, não é esse furacão todo, mas Aécio teve vitórias políticas em 2012, como teve Alckmin (em Campinas); mas Serra e, no Paraná, Beto Richa, não tiveram. Então, o jogo se move para Aécio.

O DEM, quem diria, conseguiu uma sobrevida: ACM Neto ganhou em Salvador, a primeira capital do Brasil, e justamente do PT do governador baiano Jacques Wagner. O DEM conseguiu importante vitória no mesmo ano em que seu único quadro com algum respeito nacional – o então senador Demóstenes Torres – foi cassado e humilhado publicamente por uma investigação da Polícia Federal e inquérito parlamentar no Congresso Nacional.

O PT perdeu o Nordeste, especialmente para Eduardo Campos, mas fez vitórias cruciais: o que Haddad conseguiu em São Paulo foi histórico, algo que outros petistas graúdos já não conseguem mais, como Marta Suplicy, e outros jamais conseguiram, como Aloizio Mercadante. A vitória em Goiânia também foi importante. Mas, mais que suas vitórias próprias, o PT conseguiu em 2012 um movimento importante: as conquistas arrasadoras de Eduardo Paes (PMDB), no Rio de Janeiro, e de Gustavo Fruet (PDT), em Curitiba, lançam luzes importantes para o jogo de 2014, tanto no terreno regional (o PT quer fazer da ministra Gleisi Hoffmann a governadora do Paraná) quanto no nacional.

O PDT sai com uma cara nova das eleições. Se isso é bom ou ruim, eu não sei. A vitória de um quadro histórico em Porto Alegre, Fortunati, e de Fruet, em Curitiba, servem para derrubar a disputa de poder recente dentro do partido, entre dois quadros não necessariamente condizentes com a história do partido: Carlos Lupi e Paulinho da Força. Se esse movimento vai se estender para além de Rio Grande do Sul e Paraná, é o que veremos.

O PSOL saiu forte de 2012, porque aproveitou a projeção de seu único senador – Randolfe Rodrigues – para eleger seu primeiro prefeito em capitais (no caso, Macapá) e para realizar bom debate no Rio de Janeiro, com Marcelo Freixo. Mas o PSOL ainda está longe de ser nacional. O que faz é ocupar um espaço mais à esquerda, depois do PT ter se consolidado como a centro-esquerda brasileira: Haddad foi eleito com muitos votos de conservadores, e muita gente votou no PT pela primeira vez (também por erros do PSDB, que voltou a apostar em Serra).

Mensalão teve algum efeito? Olha, se teve, não foi no Brasil. Os dois principais responsáveis pelas investigações do esquema na CPI entre 2005 e 2006, Eduardo Paes e Gustavo Fruet, fizeram verdadeiros massacres no Rio de Janeiro e em Curitiba, respectivamente, e fizeram isso com importante apoio do… PT. Além disso, na capital de onde partiram os principais nomes do PT condenados pelo STF (José Genoino e José Dirceu), foi eleito justamente um petista (Fernando Haddad), com larga vantagem de votos.

Fraco, fraco mesmo, sai o PV. Há dois anos, o PV lançara Marina Silva para a presidência da República, candidatura fortíssima, que obteve quase 20 milhões de votos. Onde está o PV hoje?

A política brasileira precisa passar por reformas. Temos 30 partidos, mas poucos, bem poucos, com alguma relevância para o debate. Ao invés de depurar, 2012 estendeu esse processo de distanciamento da política: as abstenções e votos nulos foram gigantes. Como ficará para 2014?

Essa é a pergunta que todos vamos fazer a partir de agora.

João Villaverde

Jornalista, autor de Perigosas pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil e levou ao fim o governo Dilma Rousseff. Foi pesquisador visitante na Universidade de Columbia, NY, e atualmente é mestrando em administração pública e governo na FGV-SP.