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Uma incursão de Lula no escorregadio terreno da sociologia política

por Bolívar Lamounier (10/10/2014)

É um fato que faixas sociais mais baixas têm menos capacidade de certa compreensão política

collor

Lula deitou e rolou em cima do que ele acredita ter sido uma manifestação de preconceito por parte do presidente Fernando Henrique em relação aos nordestinos pobres. Fernando Henrique disse que os altos índices de apoio a Dilma na região não se devem especificamente à pobreza, mas também ou até mais à desinformação.

Um maná para Lula, não? De repente, cai-lhe no colo essa “demonstração” do suposto preconceito social dos tucanos, e pela boca do líder máximo do PSDB. Vamo’ que vamo’, isso aí rende um bom sarcasmo – ele deve ter pensado, e partiu mesmo para o sarcasmo. Mas devia ter coberto melhor sua retaguarda. Alguns pontos requerem da parte dele uma avaliação mais cuidadosa, caso tenha interesse em discutir a sério a questão.

Primeiro, nenhum cientista político alfabetizado contesta que as faixas sociais mais baixas em termos de escolaridade e renda caracterizam-se também por uma capacidade modestíssima de assimilar e processar informações sobre os níveis mais altos do sistema político; elas podem muito bem entender o seu entorno imediato, mas em geral não se interessam por questões referentes ao nível nacional, e menos ainda por questões ideológicas. Carecendo de recursos educacionais básicos, tais camadas têm dificuldade em compreender argumentos abstratos e em correlacioná-los com grupos de interesse ou partidos políticos.

Essa característica não diz respeito somente ao Nordeste ou ao Brasil, mas ao mundo todo; foi confirmada centenas de vezes em pesquisas nos mais variados países. Isso é sabido desde os anos 50, e é por isso que não titubeei em afirmar que todo cientista político digno de tal título reconhecerá que existe uma correlação entre baixo status socioeconômico (renda e escolaridade) e capacidade de assimilar e utilizar informações não estritamente locais.

Façamos aqui uma pausa para fixar melhor quais são as questões em jogo. O argumento implícito no arrazoado de Lula envolve dois passos: 1)não podemos (ou devemos?) dizer que os mais pobres e menos escolarizados são também pouco informados; 2)o voto em Dilma não se explica apenas ou majoritariamente por um déficit de informação.

Afirmar que a preferência por Dilma Rousseff se dá nos segmentos desfavorecidos é sinal de preconceito social? Se é, Lula deveria dar um puxão de orelhas num dos profissionais que teve à sua volta quando presidente. Refiro-me a André Singer, um excelente cientista político e petista de carteirinha. Num texto publicado em 2009 na revista Novos Estudos, “Raízes sociais e ideológicas do lulismo“, Singer desenvolve precisamente o tipo de argumento que Lula condena.

Referindo-se ao primeiro turno da eleição de 1989, Singer mostra que Collor se beneficiou do voto dos eleitores de “renda baixíssima” em muito maior medida que Lula. Em seguida, faz uma instrutiva referência ao próprio Lula. Abro aspas: “Em entrevista concedida depois daquele pleito, Lula afirmava: a verdade nua e crua é que quem nos derrotou, além dos meios de comunicação, foram os setores menos esclarecidos e mais desfavorecidos da sociedade”.

Ou seja, para Lula, um dos fatores relevantes em sua própria derrota para Collor teria sido um déficit de esclarecimento. Ou estarei errado ao tomar déficit de informação e déficit de esclarecimento como sendo a mesma coisa?

Na mesma entrevista, Lula convocou seus adeptos a chegarem mais perto dos trabalhadores: “Nós temos que ir para a periferia, onde estão milhões de pessoas que se deixam seduzir por [promessas fáceis] de casa e comida”; promessa fáceis, entenda-se, como as de Collor.

Ora, como puderam cidadãos presumivelmente bem informados e esclarecidos se deixar seduzir pelas promessas fáceis do demagogo de Alagoas? Aqui, mais uma vez, Singer deixa Lula de lado e vai aos fatos. Abro aspas: “Em trabalhos sobre a eleição de 1989, notei, entretanto, que a vitória de Collor não decorria apenas de promessas fáceis. Havia uma hostilidade às greves, cuja onda ascensional se prolongou desde 1978 até as vésperas da primeira eleição direta para presidente, e da qual Lula era, então, o símbolo maior. Observava se um aumento linear da concordância com o uso de tropas para acabar com [elas]”.

Não vou me estender sobre o assunto porque, evidentemente, é muito canhão pra pouco pardal. Sabemos todos que Lula diz o que bem entende, dependendo da oportunidade e do rendimento eleitoral. Contra sua tentativa de ironia, parece-me suficiente mencionar pesquisas de ciência política conhecidas desde o segundo após-guerra e… algumas de suas próprias declarações.