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Por que Santos perdeu no referendo colombiano

por Ricardo Vélez-Rodríguez (03/10/2016)

Santos não fez um levantamento aprofundado dos imensos recursos financeiros em poder das FARC.

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No Brasil não se entende bem o índice exigido no referendo de domingo na Colômbia, de 13% dos votantes. É que lá o voto não é obrigatório. Dessa forma, o acordo de paz seria aprovado, ou rejeitado, se alguma das opções ultrapassasse esse limite, que corresponde a 4,5 milhões de votantes, dentre os 34 milhões que poderiam fazê-lo. Eu torcia sinceramente para que a Colômbia ultrapassasse esse limite da guerra interna, que já dura meio século, e para que as vítimas desse conflito tivessem as indenizações justas. Ponto importante era – e ficou faltando – que a comissão de verificação observasse se, realmente, estavam sendo colocados sobre a mesa todos os recursos que as FARC possuem, para que com eles se pagassem as indenizações às vítimas.

O resultado das urnas foi, como se sabe, negativo. É que o processo de paz colombiano foi fruto do açodamento de Santos para capitalizar politicamente os louros da pacificação. E, em decorrência disso, o atual presidente colombiano cedeu demais às FARC, uma verdadeira ORCRIM de lavagem de dólares e de produção e comercialização de cocaína, além das tradicionais atividades praticadas durante décadas, de sequestro e chantagem contra os cidadãos e o Estado.

O processo de pacificação era necessário e a ele apontava a política traçada por Uribe nos primórdios da reação do Estado colombiano contra o poder do crime organizado, lá por volta de 2002. O primeiro passo de derrota militar das FARC e eficaz eliminação dos suas cabeças foi conseguido no longo período que se estende entre 2002 e 2014. Uribe foi o arquiteto dessa estratégia. No contexto dela se deu a modernização das Forças Armadas, que de 130 mil conscritos inexperientes passaram a 400 mil homens profissionalizados e bem armados. Isso ficou e será fundamental nos próximos passos. Gozado que o número de militares coincide, mais ou menos, com os aproximadamente 300 mil mortos pela guerra nessa fase.

Santos, a meu ver, cedeu demais na ânsia de que, ainda no seu governo, fosse assinado o Tratado de Paz. Santos foi importante como Ministro de Defesa de Uribe e executor da estratégia por ele traçada. Mas falhou nas negociações, que deveriam ter tido representantes do grupo uribista, que dizia coisas sensatas. Este grupo, embora importante, ficou do lado de fora por pressão do governo atual. Algo semelhante se pode dizer dos grandes grêmios econômicos, que congregam os industriais e os empresários colombianos em geral. Eles ficaram sub-representados na Comissão de Negociação.

Principal falha do governo Santos: não fez um levantamento aprofundado dos imensos recursos financeiros em poder das FARC. Não percorreu “o caminho do dinheiro” dos meliantes, como dizem os promotores do Ministério Público brasileiro em relação à Lava Jato. Moral da história: a sociedade colombiana ficou com a pulga atrás da orelha. E os militares também. Necessariamente deverá haver uma correção de rumo do Tratado, após o resultado das urnas de domingo passado. Vamos a ver como as coisas evoluem. E o Brasil em tudo isso? Ausência olímpica. Ruim. Era necessário fazer um balanço da situação, a fim de ajudar no processo.

Ficou clara uma coisa: os grandes centros urbanos colombianos votaram Não, ao passo que as áreas mais distantes (Pacífico, Costa Atlântica, região Sul, onde tradicionalmente se refugiaram as FARC) votaram Sim. Tanto as FARC quanto o Governo deixaram claro que, apesar do resultado negativo do pleito, optam por continuar negociando a paz. Ponto positivo.

O diálogo deverá ser retomado, revisando as questões nebulosas, como a da responsabilidade dos mandantes de crimes contra a Humanidade. Acho que um ponto negativo das negociações foi o fato de estas terem se desenvolvido em Havana, tradicionalmente um centro favorável às FARC. Deveria ter sido escolhido outro lugar.

Com a palavra, agora, os que comandaram a campanha pelo Não, em cuja cabeça está o ex-presidente Uribe (que teve o mérito de submeter militarmente as FARC). “Para problemas difíceis, soluções difíceis”. Esse parece ser, hoje, o caso colombiano. O diálogo é importante hoje, mais do que nunca. O Brasil que derrubou Dilma e que colocou Lula no banco dos réus, pode ajudar muito nesta conjuntura. A negociação da paz não pode parar no país vizinho, que já sofreu demais com a guerra.

Ricardo Vélez-Rodríguez

Colombiano, militou na extrema-esquerda até o início dos anos 70. Estudou pensamento brasileiro na PUC-RJ e foi professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou em 2015 A grande mentira: Lula e o patrimonialismo petista. Colabora com o Estadão e outros veículos.