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Quando Ferrante e Starnone se entrelaçam

por Bárbara Pombo (04/10/2017)

Starnone e Ferrante trabalham habilmente a contradição de seus personagens e os trazem a todo o momento à realidade.

“Laços”, de Domenico Starnone (Todavia, 2017, 144 páginas)

Escritor premiado na Itália – com dezenas de livros publicados – Domenico Starnone ficou conhecido no Brasil como o marido de Elena Ferrante, para usar a expressão simplificadora de algumas publicações. Ou, mais precisamente, como o companheiro de Anita Raja, a tradutora italiana apontada como a real autora da Tetralogia Napolitana, Dias de abandono, Um amor incômodo e outros.

Tradutor de várias das obras de Ferrante para o português, Maurício Santana Dias encampou recentemente a tese de que o pseudônimo poderia esconder um trabalho feito a quatro mãos, a partir da simbiose da escrita e do aparato cultural do casal Anita-Starnone. Estruturas textuais, uso de termos e construção de frases semelhantes nas obras dos dois sugeririam uma contaminação do bem para a formação da escrita de Ferrante.

Aproveitando a boa onda do #ferrantefever, Laços, o primeiro romance de Starnone editado no Brasil, traz mais um indício a favor da hipótese do fazer literário compartilhado. Não tanto pela estrutura do texto, mas pelo diálogo que propõe com Dias de abandono, o segundo livro de Ferrante, publicado originalmente em 2002 e no Brasil em 2016.

Laços funciona como uma espécie de remake de Dias de abandono – uma mesma história contada a partir de novas lentes e de uma perspectiva temporal diferente, afastada do calor dos acontecimentos, mas carregada com a mesma intensidade de dor. Não se trata propriamente de diversas versões para o mesmo fato, mas de relatos que exprimem como cada um – de uma forma extremamente particular – vive, absorve, apreende e convive com o trauma de um rompimento conjugal.

Starnone e Ferrante trabalham habilmente a contradição de seus personagens e os trazem a todo o momento à realidade, mesclando a crise do fim do amor com as necessidades cotidianas, como fazer o jantar, levar as crianças à escola, passear com o cachorro, lavar a roupa, trabalhar.

Em Laços, Starnone reconstrói com os traços da memória o abandono de Aldo, que deixa a esposa, Vanda, e os dois filhos em Nápoles para viver o amor por uma mulher mais jovem em Roma, enquanto experimenta o ápice da sua carreira como intelectual influente na mídia italiana.

Em plena era da revolução cultural e dos costumes, Aldo deleita-se com sua nova paixão durante os anos 70 até que algo o chama novamente aos laços familiares, sem antes aprender a conter tudo de si em nome de uma convivência que restabeleça a ausência do (ou no) passado.

Laços é milimetricamente arrematado, não deixa espaço para personagens, objetos e nomes ao acaso, tudo é pensado em detalhes, como os movimentos sincronizados de um balé. O que garante certa ordem e significado em meio ao caos gerado pela destruição da casa de Aldo e Vanda e que faz rememorar a erupção de afetos frustrados, narrados como um tiro nesta obra de apenas 144 páginas.

Assim como em Dias de abandono, a narração cortante dos acontecimentos na obra de Starnone se conjuga a mergulhos profundos no inconsciente a partir da primeira pessoa do protagonista. “Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar”, assim se inicia a narração de Olga, em Dias de abandono, enquanto Aldo, em Laços, se sai assim: “Falei: Vanda, preciso lhe confessar uma coisa, fiquei com outra. (…) Murmurei: poderia esconder de você, mas preferi lhe contar a verdade. E acrescentei: lamento, aconteceu, reprimir o desejo é mesquinho”.

Starnone não se contenta com os laços matrimoniais – soltos pela perda de sentido na contemporaneidade – para amarrar a história, mas faz uso do emaranhado de fios na escolha pelas três vozes narrativas. Uma delas vem a partir de cartas enviadas por Vanda a Aldo depois do abandono do marido que, inclusive, abrem magistralmente o livro: “Caso tenha esquecido, egrégio senhor, permita-me recordar: sou a sua mulher”. Em Dias de abandono, Olga também escreve cartas a Mario nas noites insones: “Uma noite após a outra escrevi cartas para Mario, mesmo sem saber para onde enviá-las. Eu esperava que mais cedo ou mais tarde teria como entregá-las a ele, eu gostava de pensar que ele as leria”.

Talvez Olga e Mario sejam Vanda e Aldo. Talvez Elena Ferrante seja a simbiose de Starnone e Anita. O leitor nunca saberá. Mas o que fica nessa provocação contra o culto à autoria é algo que Ferrante coloca em suas próprias cartas compiladas em Frantumaglia, livro recém-publicado pela Íntrinseca. Em um texto possivelmente escrito em 1995, a escritora minimiza o mito em torno do autor ao dizer que a boa notícia sempre é: saiu um livro que vale a pena ser lido.

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Bárbara Pombo

Jornalista, sócia-fundadora do site JOTA e estudante de Direito. Vive em São Paulo.