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Uma valente na Leonera

por Amálgama (18/11/2008)

por Adriana Ferreira * – Há muito o cinema argentino explora a imagem de mulheres fortes, vibrantes, guerreiras, em temas centrais de seus filmes. Um dos maiores expoentes do cinema argentino da atualidade, Pablo Trapero – de Família Rodante (2004) e Mundo Grúa (1999) – está habituado a essas personagens, mas é em Leonera, seu […]

cena de 'Leonera'por Adriana Ferreira * – Há muito o cinema argentino explora a imagem de mulheres fortes, vibrantes, guerreiras, em temas centrais de seus filmes.

Um dos maiores expoentes do cinema argentino da atualidade, Pablo Trapero – de Família Rodante (2004) e Mundo Grúa (1999) – está habituado a essas personagens, mas é em Leonera, seu mais recente filme – cuja pré-estréia aconteceu durante a última edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo –, que todas essas características são mostradas sob lentes de aumento.

Neste caso, a personagem forte é Julia Zárate (Martina Gusman), presa, acusada de matar o namorado numa suposta briga entre eles e o amante do namorado. No entanto, Zárate está grávida, e por conta disso é levada para uma ala especial dentro da penitenciária, conhecida popularmente como “Leonera”. Lá ela ficará até o cumprimento da pena ou até seu filho completar 4 anos. Após isso, a criança ficará sob a guarda de um parente ou sob a guarda do Estado.

É aí que percebemos que “Leonera” pode ser mais que a prisão – é também a mãe-leoa, capaz de se enfurecer e atacar aqueles que se colocam entre ela e seu filhote.

O espectador acompanha a vida enclausurada de Júlia como se estivesse a poucos metros da personagem, mas nunca de maneira linear: sente seu medo do parto, seu desprezo pela mãe, o amor pelo filho, a revolta com Ramiro (Rodrigo Santoro) – que, ao mesmo tempo que jura amá-la, tenta se livrar da culpa pelo assassinato a acusando. Acima de tudo, o espectador prova um pouco da humilhação que é viver numa cadeia como essas.

A direção de Trapero é certeira, sem deixar que o filme caia nos velhos clichês, ou seja, denuncia a realidade das cadeias argentinas sem sucumbir ao mau gosto ou deixando de lado a delicadeza comum aos seus trabalhos.

Rodrigo Santoro é outro que não decepciona em seu pequeno mas importante papel, capaz de colocar o público em dúvida sobre a autoria do assassinato. Mas quem brilha soberana é mesmo Martina Gusman no papel central da trama.

 
* Adriana Ferreira é historiadora, pesquisadora do Proin – Laboratório de Estudos da Memória Política Brasileira. Ama: ir ao cinema, ler sobre cinema, discutir sobre cinema, escrever sobre cinema, brincar com seus gatos e comer chocolates. Não ama: pessoas que conversam durante as projeções, fila para entrar no cinema, perder a sessão e acordar cedo. É criadora do blog Le Champo (http://lechampo.wordpress.com/).

[veja o trailer de Leonera]

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