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por Jean Garnier – Um dos grandes destaques da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Abraços partidos, o décimo sétimo trabalho do espanhol Pedro Almodóvar, são vários filmes em um só. O diretor aproveitou o acontecimento de uma tragédia para criar um complexo e auto-reflexivo romance, no qual juntou diversas imagens e fragmentos de […]

por Jean Garnier – Um dos grandes destaques da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Abraços partidos, o décimo sétimo trabalho do espanhol Pedro Almodóvar, são vários filmes em um só. O diretor aproveitou o acontecimento de uma tragédia para criar um complexo e auto-reflexivo romance, no qual juntou diversas imagens e fragmentos de histórias, usando toda essa miscelânea para inclusive gozar de si mesmo: em determinado momento o filme rodado é uma espécie de Mulheres à beira de um ataque de nervos, clássico do diretor lançado em 1988, só que aqui ele se chama “Girls and suitcases”.

A história começa nos dias atuais. Mateo Blanco (Lluís Homar) é um cineasta que ficou cego num acidente de carro no começo da década de 1990, em Ibiza, e pior sorte teve seu grande amor, Lena (Penélope Cruz), que morreu. Desde o trágico acontecimento, Mateo ficou conhecido apenas pelo seu pseudônimo, Harry Caine, e virou roteirista. Certo dia, sua agente Judit (Blanca Portillo) recebe o pedido estranho de alguém chamado Raio X (Rubén Ochandiano) para ajudar a escrever um script. Na verdade, o tal misterioso é o filho do produtor e ex-marido de Lena, Ernesto Martel (José Luis Gomez).

Paralelo a isso, somos levados ao passado. Através das memórias em flashback de Mateo, vamos parar no set em que ele e Lena começaram a ter um caso, escondidos de Martel, que suspeitando da estranha química entre os dois pediu para o filho (vivido pelo mesmo Ochandiano) os vigiar, sob pretexto de estar preparando um making of das filmagens. Lógico, o jovem não focaliza nada que poderia ser chamado de extras de produção, e sim apenas a apimentada atração crescente entre a atriz e o diretor.

O visual deslumbrante, a força dos diálogos e as representações forçam o tom dramático da narrativa do romance, no qual Homar vive um homem que passa os dias se remoendo entre o passado e a desilusão do presente, por sentir um dos maiores pesadelos para qualquer cineasta: a cegueira. Já Penélope está brilhante no papel da musa.

Embora careça um pouco da generalidade emocional de produções anteriores, sem o mundo recheado de referências cinematográficas que é a marca de Almodóvar, Abraços é um agradável e misterioso labirinto emocional que transita entre a traição e a vingança.

[ veja o trailer ]

Amálgama

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