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A obra póstuma de Lars von Trier

por Amálgama (19/11/2009)

por Estêvão dos Anjos * – O Ocidente cresceu sob a égide do fálico. Sob um mundo patriarcal. Mundo esse erguido após séculos e séculos de opressão, perseguição e morte do gênero feminino. Como a maioria dos crimes apresentam o seu mentor intelectual, podemos afirmar que, no caso do feminicídio, foi a igreja Católica. Um […]

por Estêvão dos Anjos * – O Ocidente cresceu sob a égide do fálico. Sob um mundo patriarcal. Mundo esse erguido após séculos e séculos de opressão, perseguição e morte do gênero feminino. Como a maioria dos crimes apresentam o seu mentor intelectual, podemos afirmar que, no caso do feminicídio, foi a igreja Católica.

Um dos principais mitos que compõem a Bíblia, o de Adão e Eva, pode ser considerado a origem do feminicídio. Antes, um parêntese: existe feminicídio e femicídio, o primeiro relacionado à sexualidade e o segundo a questões políticas. A culpa atribuída à Eva por ter comido do fruto proibido pode ser considerada política, afinal uma regra foi infringida, mas ela assumiu conotação sexual: não foi apenas Eva que passou a ser punida, mas todo o sexo feminino.

O feminicídio na Idade Média é o tema de estudo de Ela, personagem vivida de forma incrível pela atriz Charlotte Gainsbourg no mais novo e polêmico trabalho do diretor dinamarquês Lars von Trier: Anticristo (2009). Ela é casada com Ele (Willem Dafoe), e divide com ele a culpa de um acidente que poderia ter sido evitado: a morte de seu filho após cair da janela de casa. Cena essa mostrada numa das passagens mais belas do filme, mesmo sendo trágica e chocante – além da morte temos um close numa penetração sexual. A tomada possui um ritmo poético e que acompanha os passos da trilha executada.

Após o prólogo – é assim que Trier nomeia essa parte do filme – tudo parece cair num profundo pesadelo. Sentindo-se culpada, Ela passa um mês em estado de luto diferenciado, conforme os médicos classificam. Cansado do tratamento que é aplicado à sua esposa, Ele decide retirá-la do hospital e, como terapeuta que é, ele mesmo cuidar dela. Profundamente depressiva e sofredora, Ela inicia o tratamento que seu marido se propôs levar a cabo. A base desse tratamento é descobrir o que mais Ela teme e fazê-la enfrentar esse medo. O resultado é completamente diferente do esperado e uma série de acontecimentos estranhos acontecem, despertando em Ela um instinto assassino.

Esse seria o resumo do filme, caso não fosse uma obra de Lars von Trier. Recheando-o de símbolos e alegorias – uns bastante compreensíveis, outros nem tanto –, o diretor faz desse simples roteiro uma obra que vai de encontro a toda uma tradição cultural do ocidente.

O MITO REVISITADO
Conforme dito no início do texto, Adão e Eva foi o primeiro casal que habitou o planeta, segundo a tradição cristã. Para outros segmentos religiosos, o mito de Adão e Eva é apenas parte da verdadeira história, que teria sido moldada pela igreja Católica. Para a Cabala, segmento religioso-filosófico do judaísmo, Adão teria sido criado homem e mulher ao mesmo tempo e, na sequência, dividido. Assim teria surgido Lilith. Deus deu-a em casamento a Adão, mas ela não aceitou se submeter e fugiu do Paraíso, seguindo os passos do diabo.

Esse teria sido o princípio da divergência entre o homem e a mulher, entre o Ele e o Ela. O resto da história é bastante difundido: Deus jogou Adão em um profundo sono e retirou-lhe uma costela, criando Eva, sua futura esposa. Para alguns, a sociedade patriarcal inicia-se no ato da retirada da costela do homem para se fazer a mulher, ou seja, já existe um vínculo de dependência. Hoje Lilith é vista como um símbolo da não-submissão feminina. Segundo alguns escritos hebraicos e aramaicos, ela se incomodava, inclusive, de ser aquela que ficava por baixo nas relações sexuais.

Trier, em seu filme, resgata o mito de Lilith, evidenciado, de início, por meio dos nomes dos personagens. Ao optar por não nomeá-los, chamando-os apenas Ele e Ela, Trier deixa claro que o confronto gira em torno de uma disputa sexual. Em uma sinopse do filme divulgada antes do lançamento, dizia-se que o filme contava a história da criação do mundo pela ótica do Demônio. E é isso que acontece.

Após a perda do filho, Ela afirma que no último verão havia estado no Éden para estudar com mais tranquilidade o feminicídio para sua tese, porém algo estranho a fez perder a concentração e não concluir seus estudos. Esse “algo estranho” que Ela afirma ter sentido, foi uma espécie de insight provocado pelos seus estudos que a fez ver a verdadeira condição da mulher dentro da sociedade, só que essa percepção acontece em seu inconsciente. É por esse motivo que ao voltar ao local, dessa vez para o tratamento, Ela parece ser acometida de dupla personalidade, uma violenta e instintiva (Lilith), e outra insegura, medrosa (ela mesma).

Trabalhando com as imagens sugeridas, Lilith desperta em Ela, e retorna ao paraíso a fim de recontar a história humana como a vê: ela quer, dessa vez, submeter o homem ao julgo da mulher. A cena em que ataca o homem com uma madeira e faz sexo com ele é um exemplo dessa nova conduta que Ela quer impor, para isso basta ver que o ato sexual é feito com a mulher por cima do homem, simbolizando a dominação. Para colocá-lo ainda mais ciente do que é ser mulher na sociedade patriarcal, Ela prende à perna de seu esposo uma roda de concreto, uma referência ao peso da culpa que todas as mulheres carregam ao longo da história.

Porém, a personagem é, a partir do momento que chega ao Éden, um constante embate entre Lilith e Ela, a força de uma, contra a submissão da outra. Após Lilith fazer sexo com Ele, o lado inseguro da personagem reaparece e, dando-se conta do que havia feito, pune-se cortando o próprio clitóris.

A forte cena dessa ação remete, mais uma vez, ao feminicídio, hoje ainda praticado em alguns países africanos como parte de um ritual que consiste em retirar a parte sexual da mulher que mais lhe dá prazer, como uma forma de lembrar a todos qual o sexo culpado pelo “pecado original”.

É nesse contexto que surge a imagem do Anticristo. Pois, ao ir de encontro ao patriarcalismo, ao feminicídio e aos valores pregados em relação à mulher, Trier ataca, principalmente, a igreja Católica por ser a difusora desses valores e, consequentemente, Jesus Cristo, símbolo da instituição. Observando a obra por esse viés, podemos apontar tanto a personagem Ela como o Anticristo que o título menciona, como o próprio Trier.

O nome do filme é um tributo a Friedrich Nietzsche, um dos principais pensadores da filosofia mundial e responsável por construir uma linha de raciocínio que ataca toda a moral ocidental erguida pelo Cristianismo. Segundo o diretor afirmou em entrevista, o Anticristo do filósofo é seu livro de cabeceira. Mas um filme não se restringe apenas ao conteúdo, devemos levar em consideração também a sua forma.

RENÚNCIA AOS DOGMAS
Lars von Trier [ao lado] é conhecido por ser um dos criadores do movimento cinematográfico Dogma 95. Este movimento contrapõe-se ao cinema de Hollywood e se propõe a fazer algo mais realista. Com fortes influências do teatro de Bertolt Brecht, os integrantes do Dogma 95 lançaram cartilha na qual algumas das regras a serem seguidas são: a filmagem não pode ser feita em estúdio e deve capturar o som ambiente; não deve haver nenhuma iluminação especial; a câmera é usada em mãos; efeitos visuais estão proibidos; e são inaceitáveis filmes de gênero.

Apesar de ser o ícone dessa escola, Trier não a segue tão à risca em Anticristo. Alguns dos critérios foram seguidos (como a câmera na mão e as tomadas externas), mas isso não faz dele um filme pertencente à estética do Dogma 95, pois algumas regras são burladas (uso de efeitos visuais, simulação de realidade, preto e branco, trilha sonora).

Essa quebra de preceitos cinematográficos que o diretor vinha pregando em seus trabalhos anteriores pode ser interpretada como um novo caminho que sua vontade de se expressar resolveu trilhar. Em algumas entrevistas, Trier afirmou que escreveu e dirigiu o filme em forte estado depressivo; logo, ele teria surgido mais como uma vontade de externar fantasmas do que seguir certa tendência cinematográfica.

O mais curioso nisso tudo é que a renúncia ao Dogma veio justamente em um filme em que o diretor ataca uma instituição que se mantém por meio de dogmas, ou seja, a escolha por essa forma se complementa com o conteúdo perfeitamente: tanto um quanto outro descarta a ideia de dogma. Porém, até que ponto isso tudo foi consciente, talvez, continue um mistério.

Durante anos, as alegorias apresentadas ao longo do filme deverão ser motivo de discussão. A queda do bebê representa a queda da inocência? O que representa o filhote de veado natimorto? A raposa que come suas próprias entranhas? O defeito no calcanhar da criança? São muitas dúvidas, questionamentos que precisam ser melhor pesquisados para que se chegue a uma compreensão. Nesse sentido, Trier se assemelha, mais uma vez, a Nietzsche, quando esse pôs no prólogo de sua obra que alguns homens nascem póstumos, pois só serão compreendidos futuramente, por estarem à frente de seu tempo. Talvez a citação viesse a calhar como uma epígrafe da obra de Lars von Trier.

[ veja o trailer ]

* Estêvão dos Anjos, jornalista, mora em Maceió. Blog: artenaarteria.blogspot.com.

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