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Irã, ameaça mundial?

por Amálgama (22/11/2009)

Jeff Nygaard, no Counterpunch / 11 de novembro de 2009 A atual histeria sobre as armas nucelares iranianas tem um sentido, mas este sentido está quase que completamente obscurecido pela propaganda oficial. O primeiro passo no esforço para se livrar da propaganda é considerar quais países já possuem armas nucleares. E o segundo passo é […]

Jeff Nygaard, no Counterpunch / 11 de novembro de 2009

A atual histeria sobre as armas nucelares iranianas tem um sentido, mas este sentido está quase que completamente obscurecido pela propaganda oficial. O primeiro passo no esforço para se livrar da propaganda é considerar quais países já possuem armas nucleares. E o segundo passo é olhar um mapa do Sudoeste asiático.

Há nove nações no mundo que reconhecidamente possuem armas nucleares. Todas estão próximas do Irã, seja literalmente ou no sentido imperial. Cinco delas – China, França, Rússia, Inglaterra e os Estados Unidos – estão oficialmente no Tratado de Não-Proliferação Nuclear, ou TNP, descrito como “a pedra-angular do regime de não-proliferação global”. Três estados – Índia, Israel e Paquistão – também têm armas nucleares, embora nenhum tenha se juntado ao TNP. Israel “não admite ou nega possuir armas nucleares”, de acordo com a Associação para o Controle de Armas, mas todos sabem que ele as possui. Talvez 200 ou 300, ninguém sabe exatamente.

Agora olhe nosso mapa do Irã. Imagine que você seja um iraniano, olhando ao redor para ver de qual direção uma ameaça à sua nação – nuclear ou de outra forma – poderia vir. O que você veria?

-- Irã e seus vizinhos --

-- Irã e seus vizinhos --

Imediatamente a oeste do Irã está o Iraque, efetivamente sob controle dos EUA (esse é o significado de “próximo” no sentido imperial). Atividades secretas dos EUA visando desestabilizar outros países com frequência são comandadas a partir de suas embaixadas, e os EUA construíram “a maior e mais cara embaixada de todos os tempos” no Iraque, de acordo com o Christian Science Monitor. O New York Times informou em 9 de outubro que “os americanos esperam que a partir da próxima primavera possam operar … a partir de 6 bases gigantes e 13 menores” no Iraque.

Imediatamente a leste do Irã estão Afeganistão e Paquistão. O Paquistão é um aliado dos EUA, ainda que errático, e tem seu próprio arsenal nuclear desregulado e não-supervisionado. O Afeganistão, como o Iraque a oeste, funciona como um palco para as atividades imperiais dos EUA, ainda que não esteja totalmente sob seu controle. Enquanto o governo Obama oficialmente discute o que fazer, “a CIA está implantando no Afeganistão equipes de espiões, analistas e paramilitares, parte de um amplo ‘surge‘ de inteligência que fará da estação da agência naquele país uma das maiores na história da CIA”. Isso de acordo com o Los Angeles Times de 20 de setembro.

Vemos que “a maior embaixada de todos os tempos” fica imediatamente a oeste do Irã, e uma das maiores estações da história da CIA imediatamente a leste. Assim, os meios estão lá para reforçar as contínuas ameaças dos EUA contra o Irã – os EUA já disseram repetidas vezes que “nenhuma opção está fora de cogitação”, o código aceito para uma ameaça militar. Ademais, o único estado nuclear do Oriente Médio, Israel, não é comedido em suas ameaças ao Irã. Uma típica manchete apareceu recentemente na CBS News, dizendo “Israel Incentiva EUA a atacar Irã”. E a Associated Press informou em 5 de julho que “o vice-presidente Joe Biden deu sinais de que o governo Obama não imporia obstáculos caso Israel decida atacar os centros nucleares do Irã”.

Além dos países que ocupa, os EUA mantêm centros miliares adicionais por todos os lados do Irã. Não apenas no Iraque e no Afeganistão, mas também na Turquia, outro país que faz fronteira com o Irã. Um número de bases militares dos EUA (meia dúzia, talvez) é mantido no Golfo Pérsico, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes – a uma distância de 100-200 milhas do Irã. Novamente, observe nosso mapa.

Eu seria negligente se não mencionasse nesse contexto a massiva base militar dos EUA na ilha de Diego Garcia, no oceano Índico, a que John Pike, do GlobalSecurity.org, se refere como “o mais importante centro militar isolado [dos EUA]”. A base, utilizada para detenções secretas e tortura, bem como base de lançamento para ataques no Iraque e no Afeganistão, é chamada de “Camp Justice”. O Irã está bem no campo de alcance dos bombardeiros dos EUA estacionados no “Camp Justice”.

O MUNDO DE CABEÇA PRA BAIXO
No mundo do Império, detenções ilegais e tortura são transformadas em Justiça. Mas isso não é tudo que vemos invertido na cobertura sobre o Império Americano.

No dia 28 de setembro o Irã anunciou que havia testado alguns mísseis, dizendo que “os mísseis iranianos estão em condições de atingir qualquer lugar que ameace o Irã”. A reportagem da Associated Press sobre esse evento trouxe a manchete: “Irã Testa Mísseis de Ponta, Causando Mais Preocupação”. A “preocupação” foi causada em parte, de acordo com a AP, pelo fato de que “bases militares dos EUA no Oriente Médio” agora estariam “ao alcance” dos mísseis iranianos.

Nesse mundo de cabeça pra baixo, defesa se torna ofensa. Considere: o único Superpoder Mundial mantém bases militares por todo o mundo (mais de 700!), inclusive em dois países que está atualmente ocupando. Esse Superpoder possui aproximadamente 10.000 armas nucleares, permanece o único país que já usou tal tipo de armamento, e também é o país que derrubou o governo democraticamente eleito do Irã em 1953. O país que se situa entre os dois países ocupados pelos EUA, e que está cercado por bases militares dos EUA, é suspeito de tentar adquirir a capacidade de atacar as bases do Superpoder que estão próximas de suas fronteiras. Ainda assim, o alcance global e o histórico de sangue do Superpoder na região não é o que “causa preocupação”. O que “causa preocupação” é a possibilidade do estado mais fraco poder estar desenvolvendo a capacidade para se defender. O Irã não travou sequer uma guerra agressiva na história moderna, observa o estudioso Juan Cole.

O padrão se repete indefinidamente pela mídia. Como uma matéria da UPI de 25 de julho. O subtítulo era preciso, dizendo “Irã bombardeará instalações nucleares israelenses se Israel atacar o Irã, disse no sábado o chefe da Guarda Revolucionária”. Parece auto-defesa, certo? Mas aqui está a manchete: “General Iraniano Ameaça as Armas Nucleares Israelenses”.

O Irã está consciente do fato de que a mais recente vítima de ataque militar e ocupação dos EUA foi o Iraque, um estado fraco que parecia ter pouca capacidade de se defender, enquanto a Coréia do Norte, que testou dispositivos nucleares, tem matéria-prima para armamentos e testou mísseis, foi deixada quieta.

IRÃ IRRACIONAL? TALVEZ NÃO
Desde 1979 o Irã tem sido retratado nos EUA como um inimigo, e em meses recentes as notícias estão cheias de referência à “ameaça iraniana”. Mas o Irã era um grande aliado dos Estados Unidos antes de 1979. (…) Se o Irã é agora uma ameça para os EUA – e tudo que o governo dos EUA faz e diz indica que ele considera o Irã uma ameaça –, qual é a natureza dessa ameaça? Seria realmente as armas nucleares? Acho improvável, por um número de razões. Aqui estão elas:

Dr. Subhash Kapila, um acadêmico escrevendo em um paper de 2006 para o South Asia Analysis Group, diz bruscamente que “o Irã, com ou sem armas nucleares, nunca poderá igualar a predominância militar americana”. Esse ponto é apoiado por tudo que eu tenho dito sobre a força militar dos EUA na região.

Kapila acrescenta que “o principal impulso estratégico que dá aos EUA a percepção de uma ameaça vinda do Irã é a emergência do ‘Irã como um poder regional na região do Golfo’ e seu conseqüente efeito sobre os interesses nacionais dos EUA na região.”

O conselheiro de política externa Gregory Aftandilian levantou em outubro de 2008 um argumento que é raramente ouvido nos EUA: “O Irã não é estúpido o suficiente para atacar Israel … ele tem uma longa história, milhares de anos, de estadismo … Teerã não é suicida.”

Seu argumento é reforçado pelas palavras de John Negroponte, falando diante do Comitê de Inteligência do Senado quando era Diretor de Inteligência Nacional em 2006. Ele disse que

o poder militar convencional iraniano constitui … um desafio para os interesses dos EUA. O Irã está aprimorando sua habilidade de projeção militar com o objetivo de ameaçar perturbar as operações e reforço das forças dos EUA baseadas na região – potencialmente intimidando aliados regionais para que retirem seu apoio à política dos EUA em relação ao Irã – e aumentando os custos de nossa presença regional, para nós e para nossos aliados.

Teerã também continua a apoiar um número de grupos terroristas, vendo essa tática como salvaguarda fundamental para deter ataques americanos e israelenses, distraindo e enfraquecendo Israel, e aprimorando sua influência regional por meio de intimidação. Hezbolá, no Líbano, é o principal aliado terrorista do Irã, que – embora focado em seus objetivos no Líbano e apoiando terroristas palestinos anti-Israel – tem uma rede de suporte mundial e é capaz de ataques contra os interesses dos EUA, se achar que seu patrão iraniano está sendo ameaçado.”

Observe que a “ameaça” apresentada pelo Irã toma duas formas. Uma é a capacidade de desafiar os “interesses dos EUA”. Outra é a habilidade para “deter ataques americanos e israelenses”. Isto é, de se defender.

(…)

Em suma:

  1. Não há evidência de que o Irã está realmente disposto a produzir armas nucleares;
  2. Se o Irã estivesse com tal intenção, isso não seria evidência de irracionalidade, dada a natureza das ameaças contra aquele país (…)
  3. Se o Irã de fato seguisse adiante e adquirisse armas nucleares, a probabilidade delas serem usadas de forma ofensiva é quase zero.

Se aceita-se os pontos acima, então toda a histeria sobre o Irã nos EUA deve ser motivada po algo além de uma suposta ameaça nuclear.

O “jogo” – como diriam os geo-estrategistas residentes no Império – no Oriente Médio é quem será o poder regional, o país que, no extremo, moldará os eventos na região e, no mínimo, tenha poder de veto sobre quaisquer ações de quaisquer estados que poderiam interferir com seus desígnios. Os EUA querem para si mesmos – em parceria com seu estado-cliente, Israel – esse papel. O Irã há muito se vê como esse poder. O potencial do Irã desafiar a hegemonia de EUA/Israel na região é a verdadeira “ameaça” do Irã aos olhos dos planejadores dos EUA.

Assim, o mundo bizarro do Oriente Médio que a maioria dos estadunidenses vê na mídia está de cabeça pra baixo por uma razão, e a razão é esconder os desígnios imperiais dos EUA na região. Serve bem aos interesses dos planejadores dos EUA que a população acredite que a “ameaça” apresentada pelo Irã é resultado de ódio irracional e fanatismo religioso. Face a tal inimigo, a única medida razoável é manter uma postura bélica e estar preparado para “prevenir” o provável ataque dos fanáticos.

(…)

* tradução: Daniel Lopes. para ler o artigo na íntegra,
sob o título “Iranian irrationality? Maybe not”,
clique aqui.
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