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Terremoto no Planalto Central

por Amálgama (30/11/2009)

por Bruno Pinheiro * – A operação Caixa de Pandora levada a cabo pela Polícia Federal fez tremer o Planalto Central. A ação, iniciada na sexta-feira (dia 27), apreendeu computadores e documentos em gabinetes e casas de deputados distritais da base aliada e secretários de primeiro escalão do governo de José Roberto Arruda (DEM). A […]

por Bruno Pinheiro * – A operação Caixa de Pandora levada a cabo pela Polícia Federal fez tremer o Planalto Central. A ação, iniciada na sexta-feira (dia 27), apreendeu computadores e documentos em gabinetes e casas de deputados distritais da base aliada e secretários de primeiro escalão do governo de José Roberto Arruda (DEM). A PF cumpriu mais de duas dezenas de mandados de busca e apreensão para investigar fraudes em contratos e licitações.

Um personagem de destaque na trama é Durval Barbosa, ex-aliado de Joaquim Roriz e então secretário de relações institucionais de Arruda. Acossado por inúmeras investigações, Durval colaborou com a PF, em troca de abrandamento de pena, gravando conversas e reuniões com membros do alto escalão do governo do DF e com deputados distritais, onde eram discutidos os valores e distribuídas as propinas. Vídeos começam a pipocar na internet e na televisão, como esse que mostra o próprio governador, então candidato ao governo, embolsando a sua parte e esse outro, mostrando o atual presidente da câmara distrital guardando maços de dinheiro nos bolsos e nas meias. Existem outros vídeos rolando, inclusive um envolvendo o corregedor da câmara, e dizem que vem muito mais por aí.

Segundo depoimento de Durval, o dinheiro era usado para pagamento de despesas pessoais dos envolvidos e para compra de “consciência” dos deputados da base aliada. E disse mais: “Em todas as secretarias de estado e unidades do GDF [governo do distrito federal] dirigidas por políticos com mandato, o titular da secretaria recebe 40% dos valores arrecadados dos contratos em geral, ou seja, recursos repassados pelos prestadores de serviço do GDF a título de propina. Os 60% restantes são divididos da seguinte forma: 40% para o governador, 30% para o vice-governador, 10% para a Casa Civil, 10% para Omézio Pontes [assessor de imprensa do governador] e o restante pra livre distribuição.”

Foi lama para todo lado. Não se sabe nem que assumiria o governo em caso de impeachment. O governador está envolvido, Paulo Octávio, o vice-governador, também, assim como o presidente da câmara legislativa. O quarto da linha sucessória, alguns defendem, seria o presidente do Tribunal de Justiça do DF, Nívio Gonçalves, mas há relato de encontros suspeitos entre ele e o governador. Parece então que o cargo cairia no colo do vice-presidente da câmara distrital, o petista Cabo Patrício. Mas isso se houvesse impeachment.

As denúncias são graves, as evidências de crime são fortes, mas Arruda nega a ilegalidade. Ele se diz vítima de uma armação. Aquele dinheiro que ele foi flagrado recebendo tinha uma finalidade, digamos, meiga: seria utilizado para comprar panetones para as pessoas carentes. Essa estratégia de defesa já tem levado pessoas a apelidar o caso, jocosamente, de panetonegate. A defesa parece inconsistente. No entanto, o PT, principal partido de oposição, hesita em entrar com pedido de impedimento para ser votado no plenário, preferindo talvez esperar que ele ocorra pela via judicial, com Arruda sangrando até lá, ou que o governador termine seu mandato como um pato manco.

-- As duas imagens deste post são prints do vídeo obtido pelo IG --

-- As duas imagens deste post são prints do vídeo obtido pelo IG --

Mas essa história está só começando, a operação foi deflagrada na sexta-feira, logo veio o fim de semana… Muita água ainda vai passar por baixo da ponte.

No entanto, uma coisa resta clara: o cenário para as eleições de 2010 mudaram radicalmente no DF. A última pesquisa Ibope, realizada em outubro, mostrava Arruda liderando a corrida, com 44% das intenções de voto, seguido de Joaquim Roriz (PSC), com 33%, e Agnelo Queiroz (PT), com 9 %. Arruda contava com altas taxas de aprovação no plano piloto, predominantemente habitado por pessoas das classes A e B, muito em decorrência de obras cosméticas que vem realizando em toda a cidade. Além disso, o atual governador contava com clara simpatia da grande imprensa, chegando a ser tratado como o “governador modelo” pela revista Veja. Já as classes D e E, moradoras das cidades satélites, sempre foram a base eleitoral de Joaquim Roriz. O PT, historicamente, sempre teve boa votação na classe média da capital e, ultimamente, vinha avançando sobre o eleitorado tradicional de Roriz. Após essa ação demolidora da PF, Arruda é praticamente carta fora do baralho. Há uma grande possibilidade de que ele seja expulso do DEM. Se isso ocorrer, estará proibido de concorrer a qualquer cargo eletivo. Se ele permanecer no ex-PFL e for candidato, o que todos acham muito difícil, certamente não será um candidato competitivo.

Sendo assim, quase metade dos eleitores da capital ficou órfã do dia para a noite. Roriz e Agnelo disputarão esse eleitorado, com clara vantagem para o petista. O ex-governador Joaquim Roriz tem imensa dificuldade de penetrar nesse eleitorado do plano piloto, que o considera ignorante, populista, corrupto… De mais a mais, ele é visto como “farinha do mesmo saco” dessa turma do Arruda, de quem foi aliado até outro dia.

Então, 2010 será uma grande oportunidade para o PT voltar a governar o DF, coisa que parecia quase impossível há 3 dias.

* Bruno Pinheiro nasceu no interior de Minas e atualmente vive entre Belo Horizonte e Brasília, onde trabalha como médico. Em 2010, pretende iniciar faculdade de Filosofia. Blog: miudorecruzado.blogspot.com.

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